
João Dürr é Engenheiro Agrônomo formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com mestrado e doutorado em Zootecnia pela McGill University, do Canadá. Atualmente, é professor da Universidade de Passo Fundo (UPF) e coordenador do Serviço de Análise de Rebanhos Leiteiros, SARLE, presidente do CBQL (Conselho Brasileiro de Qualidade do Leite) e coordenador da Divisão de Pesquisa da UPF.
Ele deu esta entrevista exclusiva ao MilkPoint, comentando sobre as recentes discussões em torno da instrução normativa 51, que vigorará no Centro-Sul a partir de 1º julho de 2005 e no Norte/Nordeste a partir de 1º julho de 2007. Dürr diz que a função dos especialistas na área não é "colocar o dedo na ferida, mas sim mostrar que é necessário ter uma movimentação maior para que alcancemos os padrões estabelecidos pela normativa até a data de sua implantação". Segundo ele, "todo o esforço deve ser feito para rever as inciativas, mas sem abrir mão da instrução normativa, que é a única coisa concreta que temos em relação à qualidade". Ele fala também sobre os planos futuros do CBQL, que acabou de ser convidado pelo Ministro Roberto Rodrigues para integrar a Câmara Setorial do Leite.
MKP: Como você avalia o debate em torno da instrução normativa 51, que voltou à tona decorrido 1 ano da sua aprovação?
JWD: Alguns grupos estão se preocupando com o fato de que a instrução normativa em si não é a finalidade, mas sim uma parte do Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite. Existe uma série de iniciativas que são necessárias e que devem ser implementadas nesse período, até que a instrução normativa seja compulsória, para que o processo seja viabilizado. Se não forem trabalhadas as questões de formação de recursos humanos, por exemplo, ou do acesso a crédito, não será possível atingirmos as metas estabelecidas na instrução. Particularmente, aqui no Rio Grande do Sul, nós temos observado que a composição do leite, por exemplo, em muitos produtores não atinge o mínimo necessário, o que é motivo de preocupação. Não é o caso de pedir nova postergação do documento, mas sim que alguma coisa seja feita. Sobre a pergunta especificamente, houve uma reunião em Brasília convocada pelo MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário), sobre o que fazer até a data da vigoração da instrução. Eu não pude participar da reunião, mas participaram pessoas da CNA, de movimentos de pequenos agricultures, do próprio MDA, representantes do MAPA, um representante da rede nacional de laboratórios. A proposta dos laboratórios é formatar um programa de recursos humanos, que é o mais premente e o que mais demora. Uma das possibilidades é que o SENAR seja a entidade executora do programa, além de uma proposta do próprio MAPA que aponta a Embrapa Gado de Leite como a coordenadora deste programa.
A outra questão clara é que precisamos consolidar um diagnóstico da qualidade do leite no país, para ver como a coisa está e o que precisa ser feito nas diferentes regiões. Somente agora recebemos os equipamentos e devemos em breve estar com os contadores de bactérias operando. Contagem de células somáticas, composição do leite e outros parâmetros já podem ser levados em consideração.

MKP: Pelas análises feitas no SARLE, quais são os pontos limitantes em relação à qualidade do leite?
JWD: O problema principal está com os sólidos, especialmente proteína e lactose. Os valores para gordura e células somáticas estão em grande parte dentro dos parâmetros da nova legislação. Em 2002, tivemos talvez o pior ano da pecuária leiteira no RS que se tem notícia. Em função disto, a grande maioria dos produtores optou por reduzir custos, e reduzir custos em gado leiteiro quer dizer cortar a ração. Vale lembrar que tivemos também preços muito elevados para o milho e farelo de soja. Esta situação, aliada à perda de poder aquisitivo da população, gerou uma situação muito difícil no RS e creio que em todo o país. O resultado disso foi uma redução significativa nos sólidos do leite em 2002.
MKP: E nesse ano?
JWD: Está havendo uma recuperação, mas ainda muito errática. O que eu diria, com certeza, é que nossa base genética não está adaptada ao manejo que está sendo feito nas fazendas. Ou mudamos o manejo, ou as vacas. Hoje, o manejo está bem aquém do que deveria ser, considerando as vacas especializadas que são utilizadas hoje no Rio Grande do Sul. Para mim, a explicação para a redução nos teores de sólidos é essa. E não estamos falando de poucas fazendas, mas sim de 20 mil propriedades analisadas por mês.
MKP: Se tivéssemos pagamento por qualidade, a situação seria diferente?
JWD: Nós temos propagado muito a questão do pagamento por qualidade e, se formos analisar as grandes empresas, todas tem um programa de pagamento por qualidade. Mas a pergunta é que tipo de programa é esse? Aonde queremos chegar? O que precisamos não é de um preço para o leite, mas sim de um sistema de remuneração. Preciso saber quanto vou ganhar, mesmo que seja menos do que o ideal. Se não tiver isso, não há como planejar. O que vejo acontecer nas empresas é que todo o esforço para melhoria da qualidade do leite está sendo feito a nível de unidade produtiva, na fazenda. A partir dali, o esforço não acompanha. O leite de uma propriedade que faz todo o trabalho de higiene, tem os equipamentos corretadamente mantidos, é misturado no caminhão com o leite de outro produtor que não tem nada disso. Mesmo que o produtor com qualidade tenha sido remunerado adequadamente, a cadeia como um todo não está sendo beneficiada e o consumidor continuará consumindo leite de má qualidade. Se for feita a coleta seletiva, a mistura continuará sendo feita na indústria. Se for feita uma separação na indústria, o marketing não é adequado e o leite de boa qualidade competirá com produto de baixa qualidade, cujo único critério de competição é o preço. O leite bom ficará em desvantagem e o consumidor comprará o produtor pior, que é mais barato. Há vários pontos de estrangulamento que não são levados em consideração. Estamos falando em analisar o leite do tanque, trocar as borrachas, granelizar, quando o leite, no final, é misturado e vira um produto só. Dentro de um programa de qualidade, a primeira coisa a ser feita é trabalhar a percepção de qualidade para o consumidor. Se ele perceber a qualidade, ele vai demandar esta qualidade e a indústria terá de oferecê-la. Não quero dizer que não temos de buscar a qualidade nas fazendas, mas dentro de um sistema de pagamento por qualidade, toda a cadeia deve estar consciente disso, caso contrário haverá desestímulo.

MKP: Como mudar a percepção do consumidor em relação à qualidade?
JWD: O grande problema hoje é o poder aquisitivo da população. Não se consegue falar em qualidade para a população como um todo, quando não há dinheiro para comprar o mínimo. Isso é um fato que não se pode negar. Eu vejo também que estamos nivelando por baixo. Existem certas fatias da população que tem como consumir melhor, que teriam como pagar por um produto melhor, desde que este produto existisse no mercado. Ao falarmos em produto diferenciado, estamos falando do que, de leite tipo A, talvez? Quem tem leite A, muitas vezes não vende tudo como A, pois o mercado é pequeno. Eu costumo dizer que há empresas fazendo programas de qualidade há anos e nenhum consumidor ficou sabendo. Como a cadeia vai perceber estes benefícios? Acho que devemos ter uma coerência na cadeia, de forma que as ações devem ser integradas. Outro exemplo de ação não integrada foi a granelização, que se deu de forma muito rápida em diversas regiões. Porque não iniciar com a coleta de 24 em 24 horas, para dar tempo ao pessoal trabalhar a questão da higiene, do resfriamento nas propriedades? Partiu-se logo para a coleta a cada 48 horas. Ou seja, nós pioramos o leite, em vez de melhorar, porque misturamos o leite que era anteriormente coletado separado em latões, podendo ser mantido separado na indústria. Esse leite passou a entrar em um único tanque, sem que tivéssemos a preparação para isso. Esse problema poderia ter sido resolvido rapidamente, com a coleta mais freqüente, diminuindo a permanência do leite na propriedade e o tempo de multiplicação bacteriana. Seria uma decisão relativamente simples, com um custo um pouco superior, mas não maior do que ocorria antes. Hoje, há muitas regiões do país com problema sério para trabalhar com esse leite, porque não há como separar mais os bons produtores dos ruins. Faltou integração.
É preciso termos um empenho maior para estabelecer critérios de coleta de matéria-prima, para termos no final da ponta um produto diferenciado. Sem o vínculo do produto com a matéria-prima, a percepção do consumidor nunca vai mudar. Há empresas que estão buscando esse vínculo do produto com a matéria-prima, o que já é um avanço. Porém, não é tão simples assim, pois ao fazê-lo, estão admitindo que o resto do produto não tem a mesma qualidade.
MKP: Como a rede de laboratórios está se preparando para analisar o leite de centenas de milhares de produtores?
JWD: Estamos propondo a criação de um sistema de cadastro de produtores e de rastreabilidade. Sem isso, não tem como fazer as análises, que precisam ser jogadas em uma base de dados. Sem o cadastro, não há base de dados. É preciso identificar os produtores, cada um com um número único.

MKP: De onde viriam os recursos para este cadastro?
JWD: A princípio, a idéia é que as unidades captadoras teriam de providenciar o cadastro de seus fornecedores. Seriam informações básicas, para começarmos a ter o controle. Cada agente envolvido no processo teria acesso a níveis diferentes da base de dados. Uma indústria, por exemplo, poderia acessar os produtores cadastrados junto ao seu SIF. Os laboratórios que fazem análises poderiam acessar os dados que geram. O MAPA, em Brasília, poderia acessar o banco de dados inteiro. As delegacias federais teriam acesso aos dados de seu estado, e assim por diante, permitindo a tomada de decisão em níveis diferentes. Terá de ser criado um software para gerar as estatísticas descritivas. Isso está, em linhas gerais, formatado. Estamos trabalhando, desta forma, na parte técnica, junto ao Ministério da Agricultura. O Dr. Celso Velloso tem liderado o grupo nesse sentido. Neste mês e no mês que vem, devemos ter a padronização de procedimentos dos laboratórios, em grupos de trabalhos que se reunirão.
MKP: Na sua opinião, qual seria o impacto de um eventual adiamento da instrução normativa?
JWD: Eu acho que acaba com o programa. Temos cerca de 1 ano e meio para fazer a lição de casa. Adiar algo que estará vigorando daqui a um ano e meio é o mesmo que dizer que não temos interesse em evoluir nesta questão. É preciso fazer barulho, mostrar que falta treinamento, falta dinheiro, falta um laboratório de referência, que ainda não temos. Se, às vésperas da implantação efetiva da normativa, ainda não tivermos avançado o suficiente, daí sim é o caso de conversar.
MKP: Quais são os objetivos do seu trabalho à frente do CBQL?
JWD: Em primeiro lugar, é interessante explicar porque o grupo que assumiu o CBQL é todo do sul do país. A idéia surgiu no ano passado, em Ribeirão Preto, no Congresso Panamericano de Qualidade do Leite e Controle de Mastite. Com a diretoria sendo da mesma região, fica muito mais fácil operacionalizar. Ninguém tem verba para deslocamento, sendo uma pessoa de cada canto do país. Nossa proposta é que cada gestão tenha pessoas de uma determinada região ou estado. A próxima pode ser de São Paulo, Minas Gerais ou outro estado. Temos consciência de que, ou aproveitamos agora esta oportunidade até julho de 2005 (data de início da vigoração da instrução normativa 51), para ter avanços significativos em relação à qualidade do leite, ou vamos ter perdido o bonde da história. O CBQL é um dos fóruns que podem contribuir nesta caminhada. Uma das propostas metas do CBQL é criar propor a criação de um Programa Nacional de Controle e Prevenção da Mastite. A idéia é que o CBQL crie um grupo de trabalho para estabelecer as bases de um programa a ser implementado pelo MAPA, claro, com as modificações por ele sugeridas. Também, queremos continuar o trabalho do Comitê de Equipamentos, que foi o que mais funcionou até hoje e que resultou na normatização dos equipamentos de ordenha e tanques resfriadores de leite e, agora, está trabalhando a questão dos detergentes e saneantes, pois temos problemas sérios no mercado, com produtos sem especificação. O objetivo é estabelecer um programa de análise destes produtos, primeiramente voluntário. Quem quiser inscrever seus produtos, poderá fazê-lo, de forma que seus produtos sejam analisados, com o objetivo de ajudar as empresas a adequar seus produtos. Fala-se, também, da possibilidade da criação de um selo de qualidade, para que possamos, ainda que não oficialmente, atestar a qualidade de equipamentos, de processos e de produtos. Esta questão está sendo gestada. Temos também como meta a criação de um comitê editorial, coordenado pelo Prof. Marcos Veiga dos Santos, que já coordena a revista. Queremos fazer, basicamente, que o CBQL crie uma biblioteca com títulos sobre qualidade do leite, não necessariamente publicações do CBQL. O objetivo é contribuir para aumentar o conhecimento em qualidade do leite, evitando que materiais de excelente qualidade venham a se perder.
