As estimativas feitas pelas entidades do setor (CNA, Leite Brasil e CBCL) indicavam uma produção total de 20,4 bilhões de litros, reflexo da crise verificada em 2001, que resultou em desestímulo à produção de leite no ano seguinte.
Em função disso, os dados oficiais divulgados pelo IBGE são surpreendentes: a perspectiva de produção em 2003, da ordem de 21,3 bilhões de litros, já seria menor que a produção verificada em 2002, apesar do crescimento previsto de aproximadamente 4% para este ano. Caso este crescimento de fato ocorra, o Brasil terá produzido 22,5 bilhões ao final de 2003.
Informalidade cresce
Todo o crescimento verificado em 2002 teve origem no setor informal, visto que o setor formal, segundo os dados disponíveis anteriormente, permaneceu estagnado. A tabela 1 apresenta os dados, mostrando que a informalidade (informalidade + autoconsumo) cresceu nada menos que 15,68% ou 1,143 bilhão de litros.

O aumento da informalidade não era esperado, pois, de 2000 para 2001, houve redução da proporção e do volume total produzido informalmente, além de 2002 ter sido um ano em que se supunha haver menor oferta de leite, pelo menos segundo o que se poderia depreender pela recuperação de preços verificada. Nesse cenário, os laticínios acirram a disputa pelo leite, tornando o mercado formal mais interessante e desestimulando a informalidade. Já em anos de queda de preço, muitos produtores de porte menor buscam na informalidade uma alternativa para manutenção de suas margens.
Crescimento na Região Norte
Outro fato que pode estar relacionado aos números acima são as mudanças na geografia do leite. A Região Norte teve um crescimento expressivo de 325 milhões de litros de leite, de 2001 a 2002. Em outras palavras, 28,6% do aumento da produção verificada no País nesse período ocorreu na região que contempla Pará, Amazonas, Rondônia, Tocantins, Roraima, Acre e Amapá.
Com efeito, a Região Norte foi a que apresentou maior crescimento absoluto e percentual de 2001 para 2002 (tabela 2). Para se ter uma idéia do crescimento que o leite tem tido na Região Norte, basta dizer que, em 1990, a produção dessa região foi pouco mais de 550 milhões de litros por ano, ou 3,8% da produção total do País. No ano passado, 12 anos depois, sua produção atingiu 1,561 bilhão de litros, um aumento de 181%, fazendo com que a região passasse a ter 7,2% da produção nacional (figura 1). As regiões Sul e Centro-Oeste também cresceram significativamente, ao passo que Nordeste e Sudeste perderam participação.

Elaboração: MilkPoint, a partir de dados do IBGE
O ranking dos estados também mostra informações interessantes, apresentadas na tabela 3. Minas Gerais, maior estado produtor do País, aumentou sua produção em quase 200 milhões de litros, ocupando o topo da tabela, mas representando aumento de 3,3%. O segundo lugar em crescimento absoluto e o maior em crescimento relativo ficou para Rondônia, com acréscimo de 168 milhões de litros e 35,4% de crescimento sobre 2001. Goiás, Pará, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná completam a lista dos estados que tiveram crescimento elevado no período analisado.
Na parte inferior da tabela, São Paulo foi o destaque negativo, com queda de 34 milhões de litros, seguido de Alagoas, Piauí, Roraima e Sergipe, todos com redução de produção no período.
A tabela 4 apresenta o ranking dos dez principais estados produtores de leite no país. A supremacia de Minas Gerais continua indiscutível, com 28,5% da produção nacional, proporção que pouco variou desde 1990, quando o estado era responsável por 29,6% da produção. No segundo pelotão, Goiás e Rio Grande do Sul abrem boa vantagem em relação a Paraná e a São Paulo, que, nos últimos dez anos, perdeu 13,58% em produção de leite. O Estado que já foi responsável por 13,5% da produção nacional, hoje, produz pouco mais que 8%. Os dez principais estados produtores respondem por 84,8% do leite brasileiro.
Os dados do IBGE, ainda que divulgados com atraso, permitem que se reflita sobre as características da produção de leite no Brasil, cujas análises são sempre muito contaminadas pelas informações do Sudeste, as quais não necessariamente representam um retrato fiel do que ocorre no País. Enquanto a produção está estagnada ou cresce vegetativamente no Sudeste, em outras regiões, especialmente nos estados sulinos, no Centro-Oeste e, com evidência, no Norte, o leite apresenta a pujança responsável pelo crescimento de 5,5% em 2002, contrariando todas as previsões que indicavam estagnação da produção, embora esse crescimento tenha tido origem na produção informal, que - acreditava-se - era um problema cada vez menos importante, tanto que o tema havia sumido das discussões no último ano.
A diversidade da produção de leite pode também ser comprovada a partir da análise dos principais municípios produtores de leite no Brasil. Enquanto, na primeira produção, está Castro, no Paraná, conhecido pela tecnificação da produção leiteira, o segundo posto fica com São Félix do Xingu, no Pará, município que possui o terceiro maior rebanho de corte do Brasil.
Esse inesperado crescimento também impacta as análises relativas à disponibilidade líquida de leite por habitante/ano, revertendo a tendência de queda do consumo per capita verificada no segundo mandato do governo FHC.


Fonte: Marcelo Pereira de Carvalho, da Equipe MilkPoint