A Biovalor, startup incubada na Universidade Estadual do Ceará (UECE), trabalha para reduzir em até 20% o custo da alimentação do rebanho leiteiro e elevar em até 10% a produção de leite com uma ração peletizada feita de bagaço de malte, resíduo da indústria cervejeira local. A estrutura experimental da empresa tem capacidade para produzir 20 toneladas de ração por mês, o equivalente a até 240 toneladas por ano.
A conta que sustenta o negócio parte de um problema de custo. “O desafio foi a combinação entre o custo da alimentação do rebanho, a vulnerabilidade dos produtores à estiagem e a oportunidade de aproveitar melhor um coproduto da indústria cervejeira”, diz Enio Girão, responsável pela Biovalor, ao Movimento Econômico.
Estiagem e insumos caros pressionam o produtor
Na pecuária leiteira do semiárido, a oferta de alimento para o rebanho é o ponto mais sensível da operação. “A irregularidade das chuvas limita a oferta de forragem e aumenta a dependência de insumos sujeitos a oscilações de preço”, afirma Girão.
O bagaço de malte, por sua vez, é um material úmido e perecível, o que dificulta a conservação e a logística. A proposta da empresa é converter esse resíduo em um produto de maior durabilidade. “Nossa proposta é transformar esse material em uma alternativa alimentar regional, com maior vida útil, buscando reduzir custos e ampliar a segurança alimentar do rebanho ao longo do ano”, diz o empreendedor.
A Biovalor foi formalizada em janeiro de 2024. A ideia original era usar o bagaço de malte na produção de composto orgânico, caminho que foi abandonado por razões de custo. Até então, o resíduo ia para aterros sanitários e hoje é utilizado, após o retratamento, para a alimentação das vacas leiteiras. O projeto tomou forma através de pesquisas dentro da pecuária leiteira feitas pelos sócios Enio e Max Miller Fernandes. “Estamos dentro da UECE, tivemos oportunidades de nos conectarmos com uma fábrica que estava inativada e, hoje, buscamos trazer um produto nutricionalmente adequado e um preço justo”, afirma Max.
Foto: Canal FDR/YouTube
Malte passa por fermentação, secagem e peletização
A tecnologia em desenvolvimento combina quatro etapas: fermentação controlada, secagem, formulação nutricional e peletização. Os pellets são pequenos grãos compactados que facilitam o armazenamento, o transporte e o fornecimento aos animais. “A fermentação busca melhorar o aproveitamento dos nutrientes; a secagem reduz a umidade e favorece a conservação”, explica Girão. O processo inclui caracterização físico-química e microbiológica, avaliação de estabilidade e controle de qualidade.
Os ganhos projetados são o principal atrativo comercial da solução. As atividades com apoio da UECE avaliam a nutrição, a segurança, a estabilidade e o desempenho da ração, além do efeito sobre a saúde dos animais. “Trabalhamos com o potencial de reduzir em até 20% o custo da alimentação e aumentar em até 10% a produção de leite”, diz Girão.
Capacidade de 240 toneladas por ano e matéria-prima de pequenas cervejarias
A estrutura disponível na incubadora da UECE tem capacidade operacional de 20 toneladas de ração por mês, o que corresponde a até 240 toneladas por ano se operar nesse ritmo por 12 meses. Para a planta piloto, a referência de aproveitamento é de até 200 toneladas de bagaço por ano. Segundo Girão, os dois números não se comparam diretamente. “Esses valores não são diretamente comparáveis, porque a secagem retira água e a formulação pode incorporar outros ingredientes”, diz.
Os estudos de oportunidade usados pela empresa estimam em cerca de 60 mil toneladas por ano a geração de bagaço de malte no Ceará. O bagaço usado no desenvolvimento vem da indústria cervejeira de pequeno porte, com transporte terceirizado até a estrutura experimental. A regularidade do fornecimento será determinante na fase comercial. “A organização dessa cadeia de suprimento é importante para a futura operação comercial, pois precisamos assegurar regularidade, qualidade e rastreabilidade dos lotes”, afirma Girão.
Foto: Divulgação
Investimento de R$ 450 mil e R$ 1 milhão em busca
Até aqui, a Biovalor recebeu R$ 400 mil de fundos de fomento e R$ 50 mil dos sócios, somando R$ 450 mil. Os fundos de fomento respondem por cerca de 89% do total. Os recursos financiaram equipamentos de secagem, mistura e peletização, além de pesquisa, formulação, análises e organização do processo produtivo. A empresa conta ainda com infraestrutura, capacitação e suporte técnico de programas de incubação e de parcerias tecnológicas.
A próxima rodada é mais que o dobro do capital já investido. “Para a próxima etapa, buscamos captar R$ 1 milhão, destinado à estruturação e ampliação da planta piloto, aquisição de equipamentos, validações tecnológicas e zootécnicas e preparação regulatória e comercial”, diz Girão. O mercado potencial citado pela empresa é de 73 mil vacarias no Ceará. O número é utilizado nos materiais da empresa como referência do mercado potencial cearense. “Nosso foco inicial é a pecuária leiteira familiar e a construção de canais de acesso por cooperativas e associações”, afirma o empreendedor.
O desenho de negócio também aponta para além da venda do produto. “Nosso modelo de negócio caminha para serviços de consultoria e assessoria para implantação e acompanhamento de agroindústrias de rações em cooperativas, o que nos dará escalabilidade, inclusive fora do Brasil”, afirma Girão.
As informações são do Movimento Econômico.
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