Fusão de fazendas para salvar o leite

Publicado por: MilkPoint

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Velho conhecido do setor empresarial, o conceito de fusão está chegando à pecuária leiteira. Pequenos e médios produtores de São Paulo estão unindo rebanhos para aumentar a escala de produção, otimizar o uso da infraestrutura, reduzir custos e sobreviver.

Há cinco anos, quando André Zanaga Zeitlin conheceu Eduardo Kashiwagi, ele tinha apenas uma certeza: sua fazenda estava sendo engolida pela cidade de Americana e produzir ali estava cada vez mais caro. Sem contar um bom custo de oportunidade que estava perdendo: arrendar as terras para a cana. Kashiwagi, por sua vez, com 170 hectares em Cachoeira Paulista, possuía espaço ocioso. "A fusão parecia natural", conta Zeitlin, mas a tradição imperava e cada um continuava com sua propriedade, até que o custo falou mais alto.

Em agosto de 2001, eles fundaram a empresa Vale Florido Agricultura e Pecuária, agora a dona do rebanho e dos ativos da fazenda. Cada sócio tem 50% de participação. Em outubro de 2001, Kashiwagi começou a preparar a fazenda, que comportava 220 cabeças de gado Jersey, para receber outros 330 animais da raça vindos do sócio em Americana.

"Alterei o plantio. No lugar de milho, optei por capim e pela cana-de-açúcar", o que facilita a produção de alimento, conta o produtor. Em maio desse ano, começou o transporte dos animais. Primeiro vieram as 150 cabeças de gado adulto e nesta primavera será a vez dos jovens. Enquanto isso, Zeitlin já deixou amarrado o arrendamento de parte de sua propriedade para cana e vendeu o restante para um loteamento de casas populares.

Os primeiros resultados têm animado os criadores. No conjunto, economizaram uma sala de ordenha, conseguiram reduzir o número de funcionários e de máquinas. Só aumentou o número de animais e a Vale Florido ganhou um veterinário full time, conta Zeitlin. Antes da fusão, o rebanho dele produzia 1,8 mil litros dia e o de Kashiwagi 1,3 mil. Agora a meta é chegar a quatro mil com um número um pouco menor de animais, porque o aumento do rebanho vai facilitar o descarte.

Se soubessem, esses produtores poderiam ter se inspirado na experiência de Pedro Ramos da Silva e José Carlos Aguiar, que fundiram os rebanhos em 1997. Com 120 cabeças de gado holandês em Taubaté (SP), produzir leite não era bom negócio para Silva. "Ou parava ou achava parceria", diz. O produtor então fez uma proposta ao amigo Aguiar. "Ele demorou seis meses para responder. O pessoal perguntava: como você vai deixar uma região que é sua?'", conta Silva. Mas Aguiar não teve escolha. Seus vizinhos foram deixando a atividade e, por fim, os laticínios não buscavam mais volume pequeno. Fusão acertada, Silva e Aguiar firmaram em cartório metade do rebanho para cada um. Nos primeiros três meses, a produção pulou de 1,4 mil litros para dois mil.

O mesmo motivo uniu José Luiz Matthes e João Batista de Campos. A propriedade de Campos em Santo Antônio da Alegria (SP) foi circundada por plantações de cana e o produtor recebeu uma proposta irrecusável pelas terras. Mas, apegado aos animais, relutava em se desfazer das 80 cabeças de gado holandês. Em dezembro, decidiu levá-los para a fazenda de Matthes, que possuía 50 cabeças. O negócio elevou a produção de 900 litros/dia para 1,5 mil. "Com maior volume, conseguimos R$ 0,04 a mais por litro na cooperativa", comemora Matthes.

Experiências como essas causam estranheza no setor. Alguns especialistas elogiam os resultados, como José Vicente Ferraz, da FNP. "Ganhar escala e diluir os custos é uma tese que sempre defendemos", afirma. Mas outros comentam que fundir rebanhos não deve se tornar uma tendência. "Não é um modelo promissor. Esses são casos muito específicos", diz o presidente da Leite Brasil, Jorge Rubez. "Não existe uma cultura de associativismo no Brasil", lembra o professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ/USP), Luís Fernando Laranja. Para ele, o ganho de escala alcançado não alivia o problema principal: a situação desfavorável da pecuária paulista em relação a outras regiões do Brasil. "O custo de produção e de oportunidade da terra são muito altos em São Paulo", afirma.

Clique aqui para ler entrevista com Eduardo Kashiwagi da Fazenda Vale Florido

Fonte: Valor On Line (por Raquel Landim), adaptado por Equipe MilkPoint
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