Segundo Corriere della Sera, grupo deverá pedir concordata nesta semana
Governo italiano deverá intervir para resguardar a empresa
Ações da empresa caem nos bancos de ativos italianos
O rombo nas contas do grupo Parmalat pode ser muito maior que os € 3,95 bilhões anunciados na sexta-feira (19) pela companhia, e o grupo deverá pedir concordata ainda nesta semana. A imprensa de todo o mundo já chama o caso de "Enron europeu".
Segundo o jornal italiano Corriere della Sera, esse valor pode chegar a € 7,5 bilhões (US$ 9,2 bilhões), com a descoberta de outro "buraco", de € 3 bilhões.
O diário noticiou que "o ex-presidente do grupo - fundador e dono da empresa, Calisto Tanzi - disse a potenciais investidores que a Parmalat não recomprou € 2,9 bilhões de ações, como está detalhado em seus livros". O jornal italiano afirmou que a situação do grupo é "muito, mas muito pior do que se pensa", porque também "teriam sido falsificados documentos que atestariam a existência de negócios de centenas de milhões de euros".
A revelação, disse o Corriere, teria sido feita por Tanzi, há 13 dias, a um grupo de diretores do grupo americano Blackstone, que estaria disposto a entrar no capital da empresa italiana. O novo presidente da Parmalat, Enrico Bondi - que assumiu o cargo no dia 15, após a descoberta do escândalo -, passou o final de semana em reuniões com diretores, advogados, consultores e bancos credores para decidir como pedir concordata e manter a empresa trabalhando.
Há duas opções legais: a administração Prodi, que permite à companhia continuar a trabalhar enquanto reorganiza suas finanças, e a administração que consiste, basicamente, em venda de bens para pagar os credores. Os líderes sindicais são favoráveis à reorganização, enquanto Bondi parece estar inclinado à venda de bens, disse uma fonte.
Segundo fonte do setor industrial, Bondi poderia pedir hoje mesmo à Justiça para colocar a companhia sob "administração controlada". Isso daria à Parmalat dois anos para acertar suas finanças e continuar em operação. O conselho do grupo autorizou Bondi a pedir tempo às autoridades judiciais para decidir a ação mais apropriada. Em troca desse tempo, o Conselho concordaria em providenciar os documentos necessários para investigar o que levou ao rombo. A imprensa italiana noticiou que Bondi recebeu várias manifestações de interesse de potenciais compradores, disse uma fonte à Dow Jones Newswires.
No sábado, o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, afirmou que o governo salvaria a Parmalat - maior grupo alimentício do país -. "O governo intervirá para salvaguardar a companhia e os empregos", disse, mas não especificou quais medidas pretende adotar. Espera-se para amanhã uma reunião do gabinete para discutir o assunto e, nesta semana, Bondi deverá encontrar-se com o ministro de Atividades Produtivas, Antonio Marzano.
Alguns sindicalistas acusaram o governo de estar menos interessado no destino dos quatro mil funcionários da Parmalat na Itália do que em usar a crise como arma na briga para diminuir o poder do banco central no mercado financeiro. O ministro de Economia tem sugerido um sistema regulatório no país que diminuiria o poder do banco, e alguns líderes políticos já pediram a demissão do presidente da instituição.
Também no sábado, investigadores da polícia fiscal de Milão foram ao escritório da firma Grant Thornton, que fez a auditoria da Bonlat, braço da Parmalat situado nas Ilhas Cayman e cujo relatório contábil foi recusado pelo Bank of America, acusando a inexistência de € 3,95 bilhões ali apontados, à procura de documentos. Promotores públicos que participaram dos julgamentos de casos de corrupção na operação "Mãos Limpas" entraram em cena no sábado e retiraram várias caixas de documentos da Grant e da Deloitte & Touche.
A Grant Thornton afirmou ontem que a auditoria da Bonlat foi conduzida segundo todos os procedimentos e padrões apropriados. No setor contábil, cresce a preocupação de que o escândalo da Parmalat afete a Grant da mesma forma que o caso Enron abalou a firma de auditoria Arthur Andersen. A Grant Thornton tem como associada no Brasil e empresa Trevisan Auditoria, Consultoria e Educação.
O ex-diretor financeiro da Parmalat, Fausto Tonna, foi referido como "desaparecido" pela imprensa italiana, a qual até especulou que ele teria "fugido" para a Venezuela. "Seria melhor para todo mundo e para aclarar a verdade que ele estivesse aqui", disse um dos administradores da empresa ao sair do tribunal de Milão.
Criticado por destinar o fluxo de caixa da empresa a investimentos complexos, Tonna não saiu da Itália. Ele procurou a Reuters, por telefone, para dizer que não "fugiu" para nenhum lugar. "Se alguém precisar de mim, estou aqui, mas não para falar sobre a Parmalat". Ele afirmou que não foi procurado por oficiais da justiça e, questionado sobre o rombo nas contas, respondeu: "Perguntem à companhia".
No Brasil
A crise financeira pela qual passa multinacional italiana respinga na Parmalat Brasil. Há duas semanas, a subsidiária brasileira enviou carta a fornecedores avisando que atrasaria temporariamente os pagamentos. Há rumores de que um grupo de 11 cooperativas do Rio de Janeiro estaria de olho em uma unidade da Parmalat em Itaperuna, na divisa do Rio com Minas Gerais.
De toda forma, a direção da Parmalat Brasil evita comentar os impactos da reestruturação mundial do grupo nas operações no País e os novos rumos que a empresa deverá tomar aqui.
Presente em 30 países, o grupo italiano fincou bandeira no Brasil em 1977, com uma agressiva política de aquisições de laticínios, crescendo também em outras áreas como sucos, chás, vegetais, conservas, biscoitos e derivados de tomate. Hoje, a subsidiária brasileira responde por 20% das vendas mundiais da empresa, que é a número um do leite longa vida no planeta.
No Brasil, a Parmalat compra, a cada ano, cerca de 950 milhões de litros de leite, perdendo apenas para a Nestlé, com 1,5 bilhão de litros. A multinacional italiana é líder do segmento de leite líquido no País e as vendas do produto representaram 40% de suas receitas.
De janeiro a setembro, as operações da empresa brasileira tiveram prejuízo líquido R$ 79 milhões. O resultado, apesar de negativo, é bem menor do que o rombo registrado em igual período do ano anterior, que chegou a R$ 174,8 milhões. A receita líquida de janeiro a setembro deste ano cresceu 7,8%, na comparação com a dos mesmos meses de 2002 e somou R$ 1,2 bilhão.
Depois da fase agressiva de aquisições, a subsidiária brasileira tem passado, nos três últimos anos, por um processo de desmobilização, desencadeado pela forte desvalorização do real em relação ao dólar em janeiro de 1999. De lá para cá, foram vendidas oito das 16 fábricas e a companhia tem procurado concentrar-se na produção de lácteos, que abrange leites, iogurtes, sobremesas.
Hoje, a Parmalat do Brasil, além da marca Parmalat, é dona das bandeiras Santal, Glória, Batavo, Kidlat, Duchen, Dietalat e Etti.
De acordo com analistas do setor de alimentação, como o Brasil é um dos maiores mercados para a empresa italiana, a pressão para obter resultados positivos no País deverá aumentar. Essa análise ganha força especialmente porque há grande expectativa de recuperação da economia brasileira para o ano que vem. Como é sabido, um dos primeiros impactos positivos do aumento de renda é o crescimento do consumo de alimentos. Também a forte valorização do euro neste ano, que resultou na redução das receitas das subsidiárias concentradas nas Américas, Rússia, sudeste asiático e África, deverá ampliar a cobrança por resultados positivos.
Crédito do BNDES
Às vésperas da eclosão da crise do grupo italiano Parmalat, o BNDES liberou, em outubro, R$ 25,9 milhões para a subsidiária brasileira. O financiamento ainda está dentro do prazo de carência de 12 meses e, segundo o banco, está garantido por carta de fiança de bancos de primeira linha.
Na semana passada, a Parmalat suspendeu o pagamento a fornecedores de leite, levantando no mercado preocupações quanto à saúde financeira das operações brasileiras. Hoje, no final do dia, a empresa comunicou às 11 cooperativas do Rio de Janeiro que quitará os R$ 2,3 milhões já vencidos no dia 29 e o restante, a 5 de janeiro, data habitual de pagamento.
A empresa, entretanto, continua sofrendo efeitos da crise da matriz. Na sexta-feira (19), a S&P (Standard & Poor's) rebaixou o rating do grupo italiano de CC (um dos mais baixos), conferido a 10 de dezembro, para default.
A decisão, segundo comunicado da agência de rating, deve-se ao não-pagamento da opção de venda de 18,8% das ações da Parmalat brasileira, em poder do Bank of América, que venceu na quarta-feira (17).
O grupo italiano teria de desembolsar, na ocasião, US$ 400 milhões para recomprar os papéis, segundo os termos do contrato firmado em 1999 com os investidores. Esse foi o valor conferido ao pacote de ações da subsidiária brasileira há quatro anos.
Segundo analistas, o negócio surpreendeu o mercado na época, pois o valor atribuído a uma participação minoritária na Parmalat brasileira foi considerado superestimado. Os analistas costumam avaliar uma empresa em uma vez e meia seu faturamento.
Em 1999, a Parmalat brasileira faturou R$ 1,025 bilhão, o equivalente a US$ 570 milhões (de acordo com o dólar médio de 1999). Por esse raciocínio, a Parmalat brasileira valeria US$ 860 milhões.
Esse foi um dos muitos episódios que marcaram a agressiva gestão da Parmalat no passado. "A empresa entrou no Brasil em 1977 e, no final dos anos 80, saiu comprando tudo o que via pela frente, sem uma estratégia definida", disse Rodrigo Alvim, presidente da CNPL (Comissão Nacional de Pecuária Leiteira) da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).
A expansão da empresa no Brasil deu-se à custa de financiamentos tomados no Exterior. Apesar de carregar dívidas em moeda estrangeira, a Parmalat brasileira era conhecida no mercado por não fazer hedge, segundo analistas. Por isso, teve pesados prejuízos em 1999 e 2002, com a desvalorização cambial. Os analistas também atribuem 13 anos de prejuízos a um desbalanceamento de suas receitas.
A Parmalat obtém metade do seu faturamento com o leite longa vida. O produto, que revolucionou o mercado nos anos 80, virou commodity, com a multiplicação do número de fabricantes. A margem operacional dos fabricantes é pequena, de 20% a 25%.
Nos demais produtos, de maior valor agregado, a companhia tem perdido participação. Nos leites com sabor, caiu de 13,5% em outubro/novembro de 2002 para 11,4% em igual período deste ano, segundo a pesquisa Nielsen. No leite condensado, recuou de 25% para 16,4%, e, no creme de leite, de 33,9% para 29,8% no período.
Reflexos
"A estratégia da concordata é provável", disse o diretor global de títulos da Jupiter Asset Management em Londres, que administra ativos por US$ 19 bilhões e detém papéis da Parmalat, John Hamilton. "Agora que estes US$ 4,9 bilhões 'desapareceram', os banqueiros da Parmalat provavelmente reestruturarão a companhia em vez de lhe emprestar dinheiro", afirmou.
As ações dos bancos italianos que concederam empréstimos à Parmalat declinaram. A Banca Intesa, maior da Itália, informou em uma declaração que sua "exposição" à Parmalat totalizou € 360 milhões (US$ 447,6 milhões). O financiamento da Parmalat não deve influir significativamente nos lucros dos bancos de 2003, segundo a Intesa. O Unicredito e o Sanpaolo Imi não quiseram fazer comentários.
O Capitalia, quarto maior banco italiano em ativos, informou que a companhia lhe deve € 393 milhões (US$ 488,62 milhões). Suas ações caíram 8,5%. As da Banca Monte dei Paschi di Siena, que detém títulos da dívida da Parmalat por € 125 milhões (US$ 155,48 milhões), baixaram 3,2%.
Fonte: O Estado de S. Paulo, Valor Online, Agência Folha e Gazeta Mercantil adaptado por Equipe MilkPoint
Descoberta de mais um rombo agrava crise da Parmalat
Publicado por: MilkPoint
Publicado em: - 9 minutos de leitura
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