Os laticínios brasileiros estão se preparando para elevar a produção de leite em pó industrial. Grandes e pequenas empresas reativam fábricas e planejam novas unidades, em uma retomada decorrente da alta de preços do produto no exterior, do acordo de preços mínimo fechado com os exportadores argentinos e das tarifas antidumping aplicadas contra Uruguai e Nova Zelândia.
Um dos projetos mais ambiciosos em curso é o da gaúcha Elegê, do grupo Avipal. A empresa está iniciando as obras de uma unidade de concentração de leite em Ibiruba (RS), que processará 500 mil litros por dia. Segundo o diretor de planejamento e política leiteira da empresa, Ernesto Krug, com isso a produção diária de leite em pó irá aumentar de 100 para 150 toneladas. A planta deverá ser inaugurada em setembro, no início da safra leiteira.
Outra que tem planos de construir uma nova fábrica de concentração, com vistas a ampliar o volume de leite em pó processado, é a mineira Itambé, uma das maiores do segmento no país. Segundo seu vice-presidente, Jacques Gontijo, está em estudo uma nova planta de 2 milhões de litros por dia, o que dobraria a capacidade da empresa. "Estamos em dúvida entre Triângulo Mineiro, Goiás e Mato Grosso", diz Gontijo. A fábrica deve entrar em operação no próximo ano.
Com sua unidade em Sete Lagoas (MG) processando a capacidade total de 1,1 milhão de litros por dia, a Itambé já reativou a planta de Guanhães (MG), que processa 220 mil litros diários. A cooperativa também tem fábricas em Belo Horizonte e Goiânia. No total, a cooperativa transforma em leite em pó cerca de 2 milhões de litros por dia.
Também de olho no cenário favorável, a Cotochés deverá ampliar em 30% sua produção de leite em pó em 2001. Segundo João Maroca Russo, diretor comercial da empresa, a capacidade da planta de Ravena (MG) subirá de 200 mil para 280 mil litros por dia. A Cotochés também possui uma fábrica em Rio Casca (MG), de 120 mil litros por dia.
Aumentar a capacidade foi o caminho seguido pela também mineira Embaré no ano passado. A capacidade de processamento da empresa saltou de 350 mil para 650 mil litros por dia e a produção de leite em pó atingiu 2 mil toneladas por mês.
O segmento é tão promissor que até mercados pouco tradicionais estão sendo explorados. É de olho neles que a Agro Industrial de Alimentos (ASA) está ligando as máquinas de uma fábrica em Araguaina (TO) e está estudando a construção de outra unidade em Rondônia. Construída há 13 anos, a planta de Tocantins, projetada para processar 200 mil litros de leite por dia, nunca entrou em operação, o que deve acontecer em outubro.
Até gigantes como a Parmalat, tradicional produtora de longa vida, estão apostando em leite em pó. Serão investidos R$ 10 milhões para quadruplicar a capacidade de produção de leite em pó da unidade de Santa Helena (GO). Por enquanto, a Parmalat consome nas fábricas de chocolate e biscoitos a maior parte do produto. Mas fontes do setor acreditam que a italiana está concentrando as operações em Goiás para entrar no mercado de leite em pó industrial.
Tantos projetos fazem a alegria das fabricantes de evaporadores e secadores de leite em pó, como a dinamarquesa Niro e inglesa APV. "O Brasil precisa de leite em pó. Pelo menos mais seis fábricas, com capacidade média de 200 mil litros por dia, devem ser construídas no curto prazo", prevê Percys Batista, diretor presidente da Niro. Há menos de 15 dias, a Niro vendeu um concentrador de 200 mil litros por dia para a alagoana Indústria Laticínios Palmeira dos Índios (Illpisa), que adquiriu a fábrica de leite em pó da Fleischmann Royal.
Outro provável cliente da Niro é o Laticínios Morrinhos, de São Luís dos Montes Belos (GO), que pediu um orçamento para a remodelagem de um evaporador que foi adquirido da Nestlé. Com a planta, a produção do laticínio dobrará para 400 mil litros/dia.
"Fábricas montadas nos anos 80 e que precisam de atualização são outro importante filão", diz Antônio Alves da Silva Neto, diretor comercial da APV. A empresa foi responsável pelo projeto de ampliação da mineira Embaré.
(Por Raquel Landim, para Valor Online, 05/03/01)
Cresce a aposta na área de leite em pó
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