Concordata pode ser única saída para Parmalat

Publicado por: MilkPoint

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National Foods pode comprar Parmalat Austrália
Nestlé nega interesse e Danone não se manifesta
Tanzi é indiciado por falsidade ideológica, agiotagem e fraude ao sistema financeiro

A Parmalat Finanziaria poderá requerer concordata. A decisão tornou-se iminente depois da descoberta de que não é verdadeira a informação segundo a qual a empresa possuía US$ 4,9 bilhões em sua conta bancária.

Os bônus emitidos pela fabricante de biscoitos Archway e da massa Pomi chegaram a ser cotados apenas em 20% de seu valor nominal, o que sugere que os investidores não esperam recuperar o total dos seus investimentos. A Parmalat, que tinha uma classificação de investment grade, a mais segura para os investidores da Standard & Poor's, no início deste mês, tem, hoje, a nota D ou de inadimplência.

"O requerimento de concordata é a forma de ir em frente para garantir que a empresa continue operando", disse o presidente da gestora de fundos Ifigest Fiduciaria Sim, Fianni Bizzarri.

A falência colocaria em risco 36 mil empregados da empresa, com sede, em Milão, bem como o pagamento de créditos bancários no montante de € 2 bilhões (US$ 2,5 bilhões) e cerca de € 4 bilhões em bônus que são devidos aos investidores. Banca Intesa, maior banco da Itália, Capitalia e Unicredito Italiano emprestaram mais de € 900 milhões à Parmalat e se encontram entre os bancos com mais dinheiro em jogo.

"Os bancos teriam de fazer fila para receber o dinheiro como todos os credores e isso poderia levar anos", afirmou Giancarlo Cerza, subdiretor geral de investimentos da Wachovia Securities, em Los Angeles, na Califórnia, EUA, que não tem ações nem bônus da Parmalat. "Esperamos o pior".

Representantes do mercado acreditam que a Parmalat poderia solicitar a suspensão dos pagamentos ontem mesmo. Gian Guido Oliva, porta-voz da Parmalat, entretanto, não comentou o assunto.

Promotores de Milão e de Parma investigam o que ocorreu com a empresa. A Parmalat mostrou sua disposição em cooperar com as investigações. O presidente do grupo, Enrico Bondi, cooperará com as autoridades "inclusive com as responsáveis por assuntos criminais", declarou a Parmalat, na semana passada.

"É o que há de mais parecido com o que ocorreu com a Enron, isto que está acontecendo na Itália e talvez na Europa", disse Vicenzo Visco, ex-ministro das Finanças, em entrevista concedida por telefone.

Bondi, especialista em reestruturação de empresas, está tentando decifrar as finanças de uma companhia que anunciou a existência de um capital de € 4,2 bilhões e de títulos negociáveis no fim de setembro e, no entanto, só conseguiu honrar um pagamento de bônus no valor de € 150 milhões há duas semanas, pagando com um atraso de quatro dias.

Brasil

A diretoria da Parmalat também anunciou, ontem, que decidiu negociar o atraso de uma opção que estabelece a recompra de uma participação no Brasil, avaliada em US$ 400 milhões, até o final do ano.

Estava previsto que Bondi se reunisse em Roma, com o ministro da Indústria italiano, Antonio Marzano, segundo um porta-voz que preferiu permanecer no anonimato. O executivo também negociará opções para a empresa com líderes sindicais, disse Antonio Mattioli, chefe do subgrupo de Parma da CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho), que representa dois mil trabalhadores da Parmalat. A empresa tem cerca de 35 mil funcionários nos 30 países nos quais atua, incluindo o Brasil.

A Parmalat ainda negocia com seus acionistas minoritários brasileiros o atraso no fechamento de capital das operações no Brasil, segundo comunicado divulgado ontem. Ela deveria ter pago a primeira parcela a eles, que detêm 18,18% da unidade no País, como parte de um acordo anterior na semana passada. Outra parcela desse pagamento vence na segunda-feira (29).

Interesses

A National Foods Ltd., maior produtora de leite fresco da Austrália, fica mais perto de adquirir a subsidiária local da Parmalat Finanziaria S.p.A. à medida que crescem as especulações de que a proprietária da maior empresa italiana de laticínios poderá pedir concordata.

A Parmalat, fabricante de produtos Vaalia, Pauls e Skinny Milks, sediada em Milão, Itália, poderá pedir concordata nos próximos dias, segundo fontes familiarizadas com a situação. A National Foods, sediada em Melbourne, Austrália, declarou na semana passada que pode submeter proposta de compra da Parmalat Austrália, avaliada pela ABN Amro Holding em até US$ 345 milhões.

"Se a Parmalat não pedir concordata, existe o potencial de a dívida de sua subsidiária australiana vencer imediatamente e isso pode desprender a empresa mais cedo", disse o analista de ações do banco, David Cooke.

A subsidiária australiana da Parmalat responde por cerca de 8% do faturamento anual da controladora proveniente de laticínios, que é o sétimo maior do mundo, segundo o Rabobank Groep. A venda da subsidiária daria à National Foods mais da metade do mercado australiano e mais poder em negociar preços de laticínios com os produtores.

"As probabilidades de os ativos ficarem disponíveis aumentaram", observou Scott Marshall, chefe de pesquisas da Shaw Stockbroking Ltd., de Sydney. "Se a Parmalat entrar em concordata, é preciso vender todas as opções que a pessoa tiver. Há vários grupos no mercado que poderão disputar quaisquer ativos disponíveis".

A Fonterra Co-operative Group Ltd. e a Dairy Farmers, de Sydney, estão acompanhando com interesse a situação da Parmalat.

Por outro lado, Nestlé e Danone, para as quais poderia ser esta a chance de comprar ativos da Parmalat, têm-se mostrado desinteressadas, como manifestado por Vincenzo Divella, porta-voz da Nestlé, e um "nada a declarar" da Danone.

As ações da Parmalat valem hoje quase zero. Na Piazza Affari, as propostas de negociações inseridas pelos operadores indicam um preço teórico de € 0,1, registrando uma queda de 66% frente ao valor de quinta-feira (18), € 0,3.

Fraude

O fundador e ex-presidente da Parmalat, Calisto Tanzi, já foi indiciado criminalmente, por falsidade ideológica, agiotagem e fraude ao sistema financeiro. Três antigos diretores financeiros do grupo italiano também foram acusados.

Ontem, foram interrogados cerca de 20 antigos e atuais diretores da companhia. Segundo promotores, há evidências claras de que houve fraude contábil e de que era falso o documento em que a Parmalat afirmava ter € 3,95 bilhões (R$ 15 bilhões) em uma conta nas Ilhas Cayman, paraíso fiscal localizado no Caribe.

Das interrogações, emergiu a falsidade dos documentos, suspeitando-se do uso de scanner para reproduzir a logomarca doBank of America nos papéis referentes aos € 3,9 milhões que a Bonlat teria no banco, além de parte dos documentos ter sido destruída. Agora, a busca é feita nos arquivos informatizados.

Hoje, o conselho da empresa se reunirá para definir os passos para uma possível concordata da empresa que deve cerca de € 2 bilhões a bancos privados e tem compromissos de cerca de € 4 bilhões em ações.

O governo italiano poderá dar à Parmalat uma ajuda emergencial, mas os agentes reguladores europeus examinarão qualquer pacote de financiamento de duração maior, afirmam especialistas.

De acordo com as regras da União Européia, a Itália está livre para dar à Parmalat um empréstimo a taxas de mercado. Em teoria, os agentes reguladores precisam aprová-lo antes, mas, na prática, os governos passam por cima de detalhes e liberam fundos para pagamento de salários e manutenção de credores.

Uma intervenção do governo italiano, no entanto, só poderá ser feita em colaboração com a União Européia (UE), segundo Tilman Lueder, porta-voz do comissário Mario Monti. O porta-voz declarou-se confiante que todas as partes interessadas respeitam as obrigações dos tratados do bloco, observando que "Bruxelas não tem preferências sobre o tipo de ajuda que o governo poderia adotar".

Fonte: Gazeta Mercantil, Estaminas/Superávit, Estado de S. Paulo, Agência Folha e Corriere della Sera, adaptado por Equipe MilkPoint
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