Assentamentos produzem leite no MT

Publicado por: MilkPoint

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Famílias assentadas aderem à produção de leite e invertem tendência mundial de redução do número de produtores e aumento dos módulos produtivos

O contato com produtores familiares assentados na região de Alta Floresta, MT, levou Luis Fernando Laranja da Fonseca, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, e consultor de pecuária de leite a verificar o que ele chama de um "novo e interessante fenômeno" no setor, contradizendo a tendência mundial de redução do número de produtores e aumento dos módulos de produção.

Segundo ele, tem havido grande investimento ou grande migração dos produtores assentados pelo governo na área de produção de leite com incentivos governamentais, viabilizados por meio de uma política de crédito relativamente farta em sua opinião.

"É um fenômeno novo e interessante na cadeia, porque o número de assentados é muito expressivo. Em cinco anos, o crescimento dos assentamentos foi bastante significativo. E grande parte investe em produção de leite, típica da produção familiar, com expressão relevante, pois, enquanto a escala é pequena, o número de assentados é grande", avaliou.

Fonseca tem atuado junto a uma ONG internacional no fomento à produção de leite, e uma das ações foi o curso que ministrou no assentamento São Pedro, em Paranaita, MT, instalado há quatro anos. O professor comentou que o São Pedro ilustra a realidade comum a vários assentamentos, especialmente em novas fronteiras agrícolas como Rondônia, Mato Grosso, Tocantins, Maranhão e Pará. "É uma cidade que fica bem na fronteira agrícola, não tem nem asfalto, está no meio da floresta amazônica, em área de floresta nativa", revelou, comentando que, das 700 famílias, 250 estão envolvidas com produção de leite, responsáveis por 5 mil litros diários, com tendência de duplicar em dois anos.

Em conversa com lideranças, percebeu que a expectativa é incrementar a produção, duplicando-a a cada dois ou três anos. "Daqui a dez anos, por exemplo, deverão trabalhar com 20 a 30 mil litros por dia", calculou.

O perfil das famílias que ele encontrou remete a unidades extremamente pequenas, com dez a 40 hectares, nos quais se instalaram pessoas muitas vezes originárias de outras regiões ou ex-empregados rurais que foram para a zona urbana e retornaram, geralmente sem tradição na produção de leite. Em sua maioria, foram para o leite porque gera uma renda mensal importante para a manutenção da propriedade, por menor que seja, complementada com safras de outros produtos.

O fenômeno que o consultor verificou contradiz, de acordo com sua avaliação, todas as análises da cadeia do agronegócio do leite. "As análises são unânimes, citando queda do número de produtores e aumento dos módulos de produção. Isso aconteceu nos EUA de maneira impressionante nos últimos 50 anos; na União Européia, idem, mesmo que de forma menos impressionante; na Argentina, aconteceu também. Entretanto, no Brasil, creio que não acontecerá", projetou.

Na opinião de Fonseca, as pessoas que discutem a cadeia não têm clara noção da realidade das bacias não-tradicionais. Para ele, a tendência indicada acima pode ser verdadeira para São Paulo, Minas Gerais e, talvez, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, embora estes últimos sofram o efeito de assentamentos e da pequena propriedade tradicional. "Quanto às novas fronteiras, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Pará e Tocantins, por exemplo, essas pessoas não têm conhecimento detalhado. Nesse locais, tem-se verificado uma inversão do que aconteceu nos EUA e Europa. Pena que não tenhamos bons serviços de estatística para avaliar isso. Talvez, o número de produtores esteja aumentando em vez de diminuindo", analisou.

De acordo com o consultor, no mercado, trabalha-se com números enganosos, embora corretos; as estatísticas são proporcionadas pelos grandes laticínios; e os números se referem apenas aos dez maiores laticínios do País. Um aspecto, porém, distorce a informação, que é a captação de leite de um grupo de produtores ou pequenas cooperativas e associações. Ele exemplificou: "Uma pequena cooperativa do Mato Grosso, potencial fornecedora de uma grande indústria, é contabilizada como um fornecedor, um produtor; supondo que forneça 30 mil litros, provavelmente, esse leite é captado de 300 produtores. O mesmo acontece no caso de tanques comunitários, devido ao processo de granelização e resfriamento na propriedade. Para as estatísticas, um tanque significa um produtor, mas pode ter o leite de 20".

No caso do assentamento São Pedro, Fonseca explicou que são 250 propriedades, que têm seu leite coletado por um caminhão, ou seja, são contabilizados com um produtor. "Isso distorce uma realidade social muito importante. Um assentamento desses, no meio da floresta amazônica, equivale a uma fazenda grande de São Paulo, mas a atenção é desviada para os grandes produtores de leite do Brasil", acrescentou. A produção é captada por um laticínio local - Lactivit - que processa entre 30 mil e 40 mil litros de leite por dia.

Emprego

A produção de leite em assentamentos, nos moldes da agricultura familiar, tem, na opinião do consultor, um efeito gerador de emprego do leite no País. Para ele, é um fenômeno que merece ser discutido para saber se é bom ou ruim. Entre os pontos positivos, ele citou o potencial gerador de emprego, renda e perenização do cidadão no campo.

Projetos como o da merenda escolar e o Fome Zero, de acordo com Fonseca, podem criar uma oportunidade de escoamento da produção. "O projeto da merenda, o qual sempre defendi, é uma adequação formidável a essa produção, pois garante a compra do produto e alimenta as crianças. É uma questão de política pública. Pode-se aproveitar a produção das novas fronteiras, já que o ideal é o leite vir do local em que é produzido", incentivou.

Quanto ao Fome Zero, um dos pontos, segundo o consultor, é a merenda escolar. No caso da agricultura familiar e da reforma agrária, é interessante casar a agricultura com o abastecimento. Ele comemorou: "Um grande mérito do programa é que visa ao desenvolvimento do setor primário, muito mais do que acabar com a fome somente. É um estímulo à agricultura familiar, à produção e à distribuição desse alimento".

Diante do processamento verificado em alguns assentamentos, conforme Fonseca, é potencialmente um risco e um erro processar o leite em um primeiro momento, sendo necessário buscar a especialização.

A tecnologia tem papel importante neste sentido. Para o consultor, deve haver um trabalho bem-organizado do governo em termos de assistência técnica e extensão rural para gerar um mínimo de potencial tecnológico, pois a produtividade média é muito baixa. "Precisamos tornar possível operar com tecnologias simples e uma relação custo/benefício favorável, como no sistema a pasto, com pastejo rotacionado e uso de cana-de-açúcar para aumentar a produção por área. Os pacotes tecnológicos devem ser passados com metodologia adequada. Há algumas iniciativas, mas falta muito ainda para melhorar", ensinou Fonseca.

Mesmo assim, ele acenou com perspectivas excelentes, com mais pessoas, produzindo de forma adequada, atendendo ao consumo interno e, eventualmente, exportando, destacando tal necessidade, pois o Brasil é importador líquido e precisa aumentar sua produção 4% a 5% ao ano, bem como o consumo interno. Na opinião de Fonseca, esse programas ajudam e poderão gerar resultado positivo para o País no longo prazo.

Fonte: Mirna Tonus, da Equipe MilkPoint
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