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Sanidade na criação de bezerras - Parte IVa: desmame e tristeza parasitária bovina

POR VIVIANI GOMES

E NATÁLIA SOBREIRA BASQUEIRA

VIVIANI GOMES

EM 22/11/2016

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O processo de desmama é um dos maiores desafios na criação de bezerras. A desmama é um momento estressante, visto que ocorre a transição entre a dieta líquida para a sólida, que culmina com a diminuição gradual no tamanho e capacidade do estômago verdadeiro (abomaso) e aumento gradual dos pré-estômagos (rúmen, retículo e omaso). Este processo é fundamental para que as bezerras se tornem ruminantes. Qualquer outro manejo (descorna, reagrupamento, desverminações e vacinações), realizado ao mesmo tempo que o desmame, pode exacerbar o estresse, enfraquecer a resposta imune, tornando os animais menos resistentes aos micro-organismos causadores de doenças.

Segundo o USDA (2011), as principais causas de morte neste período são problemas digestivos como o timpanismo e diarreias, além de doenças respiratórias. No Brasil, a Tristeza Parasitária Bovina (TPB) é sem dúvida alguma a principal causa de mortalidade em bezerras de leite após o processo de desmame. Este artigo possui o objetivo de apresentar um protocolo para a realização de desmame com menor grau de estresse, assim como métodos para a identificação precoce e prevenção das principais enfermidades observadas no dia a dia pelos produtores entre o desmame e a puberdade (entrada à idade reprodutiva).

A idade, o peso e o consumo de concentrado têm sido usados como critério para o início do processo de desmame. O desmame pode ser indicado quando o animal dobrar o peso do nascimento (exemplo: se o animal nasceu com 40kg, deve ser desmamado quando atingir 80kg) e/ou ingerir ao menos 1 kg de ração ao dia. Dentre estes critérios, é válido ressaltar que o consumo de grãos e o adequado desenvolvimento ruminal são os principais fatores que determinam a idade da desmama (Figura 1). Os micro-organismos ruminais (bactérias e protozoários) aumentam de acordo com a ingestão de ração, que resulta na fermentação do amido e produção de ácidos graxos estimuladores do crescimento das papilas ruminais. Estes ácidos graxos são absorvidos da parede ruminal e são convertidos em energia para o crescimento das bezerras.

Figura 1 - As fotos referem-se as papilas do rúmen de um bezerro com 6 semanas de idade alimentado com 3 diferentes dietas: A = leite, B= leite + concentrado e C= leite + feno. A figura B representa o rúmen com papilas mais desenvolvidas.

papilas do rúmen


O principal fator de risco associado às doenças a partir do desmame é representado pelos baixos títulos de anticorpos maternos adquiridos pela ingestão do colostro, associado à imaturidade do sistema imune das bezerras. O sistema imune das bezerras ainda está aprendendo a responder contra os micro-organismos causadores de doenças no momento em que são desmamadas. Este período é chamado de “janela imunológica”. Soma-se a este fato, o estresse oriundo do reagrupamento, mudanças de dieta e adaptação ambiental aos quais os animais são submetidos ao desmame. O estresse está associado à liberação do hormônio cortisol que possui efeitos negativos sobre os principais mecanismos da resposta imune: diminuição da capacidade dos neutrófilos e macrófagos migrar do sangue aos tecidos, menor capacidade dos neutrófilos e macrófagos em engolfar e destruir os micro-organismos; menor resposta proliferativa dos linfócitos, dentre outros.

Para minimizar o estresse ao desmame providenciamos algumas dicas apresentadas no quadro 1. Primeiramente, as bezerras devem ser reagrupadas após uma semana do desaleitamento, sendo importante movimentá-las em pequenos grupos de 6-8 animais, com o objetivo de adaptá-las à divisão das áreas de descanso e alimentação. Em grupos maiores as bezerras podem perder peso, comer menos e tornarem-se mais susceptíveis às doenças.

É fundamental que as bezerras permaneçam com a mesma ração por mais de duas semanas após o desaleitamento, antes de introduzir a forragem ou qualquer outra dieta.

Para minimizar a exposição e o risco de infecção aos diferentes micro-organismos causadores de doenças, o novo ambiente deve ter ventilação adequada, deve ser limpos, os piquetes devem estar roçados e não devem ter acúmulo de sujidades. Essas medidas em conjunto irão evitar o enfraquecimento do sistema imune dos animais.

Quadro 1 - O quadro apresenta seis pontos-chave para o sucesso no processo de desmame.

processo de desmame bezerras

As principais enfermidades ocorridas após o desmame no Brasil são tristeza parasitária bovina, coccidiose, verminose, clostridiose e ceratoconjuntivite.

No Brasil, a Tristeza Parasitária Bovina é causada pela Babesia bovis, Babesia bigemina e Anaplasma marginale, transmitidas pelo carrapato (Riphicephalus microplus) e moscas hematófagas (Tabanídeos - conhecida como mutuca; Stomoxys calcitrans - conhecida como mosca do estábulo), mosquitos (Culex e Aedes) ou por material contaminado com o sangue de animais infectados como, por exemplo, agulhas reutilizadas.

A Babesia e Anaplasma parasitam as células vermelhas do sangue (as hemácias), causando a principal manifestação clínica da doença que é a anemia. Os animais apresentam um olhar triste, fraqueza, mucosas oculares e vaginais esbranquiçadas ou amareladas, desidratação, pelos arrepiados e febre. Se a infecção for causada pela Babesia, os animais podem apresentar urina escura (avermelhada ou cor de coca cola).

Figura 2 - Bezerra no lote de desmamadas magra e com pelos arrepiados que deve ser examinada para o diagnóstico de Tristeza Parasitária Bovina.

tristeza parasitária bovina

Figura 3 - Bezerra apresentando muflo seco (narinas) devido à desidratação e mucosas esbranquiçadas.

muflo seco - bezerra

O monitoramento contínuo dos animais é importante para a detecção precoce da doença e maiores chances de cura. Para isso, indica-se que a equipe do bezerreiro seja treinada para fazer a observação e avaliação dos animais ao menos duas vezes por semana. Indica-se a avaliação dos seguintes parâmetros: coloração das mucosas, temperatura, hematócrito e esfregaço sanguíneo (se possível).

O hematócrito deve ser realizado para a averiguação do grau de anemia e a necessidade de transfusão sanguínea, pois informa quantos % do volume sanguíneo total é representado pelas hemácias (glóbulos vermelhos). Os valores normais para o hematócrito variam de 26 a 33% em bezerras entre 60 a 180 dias de vida.

Figura 4
- Passo a passo para a determinação do hematócrito: (A) colheita de sangue em tubo tampa roxa contendo o anticoagulante EDTA; (B) preenchimento do capilar de vidro com o sangue; (C) fechamento de um dos lados do capilar com massinha de modelar; (D) centrífuga específica para a determinação do hematócrito – centrifugar 12.000 rpm (rotações por minuto) durante 5 minutos.

determinação do hematócrito
Figura 5
 - A leitura do hematócrito deve ser realizada em cartão específico.

leitura do hematrócito
Leitura: Após a centrifugação, o sangue ficará dividido em parte vermelha e parte translúcida (plasma). Deve-se rolar o capilar de vidro até encaixar a coluna superior (preenchida plasma) e inferior (preenchida hemácias) no cartão de leitura. Observar que o sangue abaixo apresenta 18% de hematócrito, ou seja, 18% do volume sanguíneo corresponde às hemácias. Fonte: Natália Meirelles Sobreira

O primeiro passo para o tratamento dos animais é a eliminação dos agentes causais com o uso do diaceturato de diminazine (3 a 8mg/Kg) associado ao antibiótico enrofloxacina (dose de 7,5 mg/kg) ou tetraciclina longa ação (dose de 20 mg/kg).

Facury-Filho et al. (2012) demonstraram que a enrofloxacina provoca uma redução mais rápida na parasitemia (número de hemácias parasitadas por Anaplasma) com recuperação clínica e do hematócrito mais rápida em relação ao uso da tetraciclina. O tratamento suporte é fundamental para a resolução do problema. Animais que apresentarem hematócrito abaixo de 15% deverão receber transfusão sanguínea, de acordo com o protocolo estabelecido pelo médico veterinário.

A prevenção da tristeza pode ser realizada com protocolos de quimioprofilaxia. Pode-se aplicar no desmame uma dose de imidocarb (1 a 2 mg/Kg, via subcutânea) associado à tetraciclina de longa ação (2 a 4mg/Kg, via intramuscular). A tetraciclina deve ser repetida 2x com intervalos de 21 dias. Este protocolo de quimioprofilaxia possui algumas desvantagens que devem ser consideradas pelo produtor:

1. O imidocarb pode ser tóxico se aplicado em excesso, sendo assim é importante pesar o animal para calcular a dose correta. No caso de reações adversas, a atropina 1% pode ser utilizada como antídoto, sob a orientação do médico veterinário;

2. O uso de subdoses de tetraciclinas (abaixo da terapêutica) pode resultar em resistência bacteriana a este antibiótico. Por estes motivos, alguns produtores preferem monitorar os animais a partir do desmame e realizar o tratamento precoce assim que a doença for manifestada.


Para a prevenção da doença também é importante fazer o controle dos carrapatos e insetos. Para tanto, recomenda-se fazer o biocarrapaticidograma para avaliar a resistência dos carrapatos aos diversos produtos carrapaticidas disponíveis no mercado. O resultado fica pronto em 30 dias e você terá a correta indicação do produto à ser utilizado. Recomenda-se a repetição deste teste a cada ano, para que a troca por outro produto seja orientada por um resultado recente.

Na parte IVb da série sanidade na criação de bezerras serão abordados as demais doenças de importância no período pós-desmame: coccidiose, verminose, clostridioses e ceratoconjuntivite infecciosa.

Referência bibliográfica:

FACURY-FILHO, E.J.; CARVALHO, A.U.; FERREIRA, P.M. et al. Effectiveness of enrofloxacina for the treatment of experimentally-induced bovine anaplasmosis. Revista Brasileira Parasitologia Veterinária, v.21, p.32-36, 2012.

VIVIANI GOMES

Professora Clínica Médica de Ruminantes da FMVZ-USP. Coordenadora GeCria - Grupo Especializado em Medicina da Produção aplicada ao período de transição e criação de bezerras. Tel: (11) 3091-1331

NATÁLIA SOBREIRA BASQUEIRA

Mestranda em Clínica de Ruminantes na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo

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NATÁLIA SOBREIRA BASQUEIRA

ARARAS - SÃO PAULO - ESTUDANTE

EM 10/10/2017

Olá  Matheus tudo bem?

Agradecemos a leitura. O meu e-mail na_sobreira@usp.br
MATHEUS GARCIA ROSÁRIO

BARRA MANSA - RIO DE JANEIRO - ESTUDANTE

EM 09/10/2017

Boa tarde, meu nome é Matheus. Sou estudante de Medicina Veterinária do UBM (Interior do Rio De Janeiro), acompanho suas publicações pelo Milk Point e gostaria de saber como entro em contato com você, pois não consegui encontrar um email ou algum outro meio de comunicação, desde já agradeço!
HAMILTON LARA

SÃO TIAGO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/02/2017

Pessoal,



Preciso de um favor:



Estou precisando de um calendario de vacinação de gado leiteiro.



Obrigado, Hamilton
VIVIANI GOMES

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 03/02/2017

Matheus Ferreira, boa tarde!



Agradecemos muito pela leitura do nosso artigo.

A dose terapêutica do imidocarb que possui ação contra babesiose e anaplasmose é próxima da dose tóxica (3mg/Kg - 2,5mL/100kg), podendo causar efeitos adversos irreversíveis. Sendo assim recomendamos a dose de 1,2 mg/kg (1mL para cada 100Kg) para o tratamento apenas da Babesia, sendo assim existe a obrigatoriedade de associar a enrofloxacina ou tetraciclina ao tratamento da tristeza parasitária bovina.



Abraços
MATHEUS

NOVA SERRANA - MINAS GERAIS - MÉDICO VETERINÁRIO

EM 26/01/2017

Boa tarde. Primeiramente parabéns pelo artigo. Com relação a utilização do Imidocarb, qual sua eficiência no tratamento de casos clínicos de tristeza parasitária e qual a necessidade de sua utilização ser conjunta com tetraciclina ou enrofloxacina. Já que possui ação contra anaplasmose.Obrigado
NATÁLIA SOBREIRA BASQUEIRA

ARARAS - SÃO PAULO - ESTUDANTE

EM 01/12/2016

Olá Celso, tudo bem? Que bom que gostou do nosso artigo! Esta prática também está correta e recomendamos. Para utiliza-la, o tubo capilar do hematócrito precisa ser heparinizado para evitar a coagulação do sangue.
CELSO CARLOS

SÃO GOTARDO - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 22/11/2016

Muito bom como sempre!! Em uma fazenda já vi colherem o sangue da bezerra semanalmente, através de um pequeno furo na orelha para realizar hematócrito de rotina. Existe alguma recomendação para essa prática? Obrigado