ESQUECI MINHA SENHA CONTINUAR COM O FACEBOOK SOU UM NOVO USUÁRIO
FAÇA SEU LOGIN E ACESSE CONTEÚDOS EXCLUSIVOS

Acesso a matérias, novidades por newsletter, interação com as notícias e muito mais.

ENTRAR SOU UM NOVO USUÁRIO
Buscar

Micoplasmose em bezerras: um inimigo indesejável

VIVIANI GOMES

EM 12/04/2022

7 MIN DE LEITURA

2
10

Atualizado em 11/04/2022

A Micoplasmose é causada pelo Mycoplasma bovis (M. bovis), um microrganismo altamente contagioso que afeta a criação de bovinos de leite, sendo considerado um agente infeccioso devastador dos animais jovens, devido aos altos índices de mortalidade em bezerreiros positivos.

As perdas econômicas estão associadas aos custos com o uso de antimicrobianos, insucesso no tratamento, mão de obra adicional, serviços veterinários, diminuição no ganho de peso, abate ou mortalidade prematura e redução da produtividade dos animais na fase adulta.

Uma vez estabelecido nas propriedades, o M. bovis se torna extremamente difícil de erradicar, devido à constante transmissão que ocorre dos animais mais velhos para os jovens, mantendo o agente circulante em um ciclo vicioso. Este agente geralmente habita as superfícies mucosas do trato respiratório, urogenital, gastrointestinal, olhos e glândulas mamárias. No trato respiratório superior pode permanecer por longos períodos sem causar doença clínica.

No entanto, o M. bovis é capaz de replicar-se e se disseminar para outros locais do organismo, como trato respiratório inferior, orelha média e articulações das bezerras, gerando surtos de difícil controle. Em vacas adultas, é um grande causador de mastites subclínicas e clínicas.

Acredita-se que o M. bovis seja introduzido em rebanhos livres da doença por meio de vacas aparentemente saudáveis sem sinais clínicos, porém infectadas pelo microrganismo. Estes animais permanecem infectados por longos períodos, com a bactéria aparentemente dormente, mas quando expostos a situações estressantes (parto, secagem, estresse térmico e manejo inadequado) podem voltar a eliminar o agente infeccioso principalmente pelo leite e secreções nasais. Este perfil define a liberação intermitente do Mycoplasma bovis pelos animais infectados. Consequentemente outras vacas serão infectadas, bem como a sua cria.
 

Como é transmitido a Micoplasmose ?

A principal forma de transmissão para bezerros ocorre por meio da ingestão de colostro e leite de descarte oriundo de vacas apresentando mastite subclínica ou clínica causada pelo M. bovis

Em sistemas de criações modernas, o colostro de uma única vaca pode ser utilizado para alimentar vários bezerros, o que aumenta ainda mais a chance de exposição do bezerreiro à infecção pelo  M. bovis.

Ainda, a bezerra hígida pode ser infectada pelo uso de fômites contaminados (Fômites são objetos inanimados como bicos, baldes, mamadeiras, dentre outros), aerossóis (Aerosóis - gotículas contendo o agente infeccioso que são transferidas entre os animais pelo ar) e pelo contato direto (Contato direto - contato direto do agente infeccioso com a pele e superfícies mucosas) (MAUNSELL et al., 2011).

A doença clínica inicia-se geralmente em bezerros com duas a seis semanas de idade, mas há relatos de animais acometidos com apenas quatro dias de vida. A suscetibilidade à infecção por M. bovis está associada ao estado imunológico das bezerras, assim os neonatos que apresentam falha na transferência de imunidade passiva possuem maior risco de desenvolver a Micoplasmose.

 

Sinais clínicos da Micoplasmose

Os sinais clínicos mais comumente observados nas bezerras incluem a febre, perda de apetite, secreção nasal, tosse e alteração na frequência respiratória, que pode ser acompanhada por otite média e artrite.

É importante ressaltar que o M.bovis é altamente imunossupressor, culminando com mortes por causas diversas, explicadas pelas infecções oportunistas.
 

Como identificar a Micoplasmose? 

Pelo fato do Mycoplasma bovis necessitar de métodos complexos e demorados para o seu isolamento e identificação, a metodologia mais comumente empregada pelos laboratórios comerciais que prestam serviços para as fazendas é o PCR (do inglês - Polymerase Chain Reaction). Este teste apresenta alta sensibilidade e especificidade para detecção do material genético (DNA) do Mycoplasma bovis em amostras provenientes das vacas e bezerras.

O primeiro passo é definir a presença do agente infeccioso no rebanho, por meio da coleta de amostras dos tanques de leite da fazenda e do grupo de vacas doentes e/ou com mastite crônica ( 2 contagens de células somáticas consecutivas acima de 200.000 células/mL).

A testagem das vacas pode ser feita em pool de amostras de leite de até 10 animais, o que diminui o custo com diagnóstico, já que o produtor pagará uma reação de PCR para cada 10 animais. A coleta das amostras deve ser realizada individualmente por quarto mamário, sendo o pool (mistura das amostras de 40 quartos mamários provenientes de 10 vacas é feita no laboratório). É importante ressaltar que todo o processo de coleta de amostras seja das vacas e bezerras deve ser orientado por um médico veterinário, já que existem grandes chances de contaminação cruzada entre as amostras.

Em bezerras doentes é recomendada a coleta de secreção nasal utilizando-se swab individual. Infelizmente o uso de pool de amostras para a reação de PCR não é indicada para o swab nasal, como ocorre com as amostras de leite das vacas. Com o auxílio de um veterinário pôde-se também obter amostras por meio de swab nasofaríngeo e lavado transtraqueal. Em casos de mortes, o produtor pode optar por coletar tecidos ou swabs de lesões durante a necropsia, principalmente do pulmão. As amostras devem ser transportadas para o laboratório mais próximo sob temperatura de refrigeração, em caixa de material isotérmico contendo gelo reciclável. Se amostras de leite forem congeladas, elas devem ser enviadas dentro de 7 a 10 dias após a coleta.
 

Tratamento da Micoplasmose

O M. bovis pertence à classe Mollicutes, ao qual pertencem as bactérias que não possuem parede celular. Assim, os antibióticos que atuam na parede das bactérias como os beta-lactâmicos (penicilinas e cefalosporinas) são ineficazes no tratamento das bezerras infectadas. As espécies de Micoplasmas também são altamente resistentes aos antimicrobianos, o que explica o insucesso no tratamento das bezerras doentes, e a geração de um ciclo vicioso de tentativas de uso dos antibióticos. A tulatromicina tem sido empregada como o padrão-ouro para o tratamento de bezerras doentes (MAUNSELL et al., 2011).

Além dos antibióticos, os anti-inflamatórios em curto prazo têm sido utilizados para o tratamento da doença respiratória. A terapia com fluidos orais ou intravenosos e o suporte nutricional também são métodos altamente recomendados para animais infectados, e tendem a apresentar melhores resultados quando utilizados no início do curso da doença.

Mas, sem dúvidas, a melhor forma de evitar surtos causados por M. bovis nos bezerreiros, é através da implementação de medidas de biosseguridade, com a identificação e eliminação dos principais fatores de risco presentes no sistema de produção.

Segundo Nicholas & Ayling (2003) as medidas gerais de biosseguridade para prevenção ao M. bovis nos sistemas de produção de leite incluem:

  1. Manter o rebanho fechado, quando possível;
  2. Realizar quarentena de animais quando forem adquiridos  recentemente, saírem da propriedade para recria, participarem de exposições, consultas veterinárias externas, manejos reprodutivos fora da propriedade, entre outros;
  3. Vigilância de vacas com mastites causadas por M. bovis e descarte em curto ou médio prazo das matrizes infectadas.

Para o bezerreiro, as recomendações são baseadas na redução da exposição ao microrganismo. As principais fontes de exposição incluem o colostro não pasteurizado e contato direto via aerossol respiratório de bezerros infectados.

A exposição de M. bovis no leite pode ser limitada pelo descarte de vacas infectadas ou evitar a alimentação das bezerras com o leite de descarte. A pasteurização é o tratamento indicado para inativar o M. bovis no colostro e leite de descarte proveniente de vacas infectadas. Se o colostro não for pasteurizado, ao menos deve-se evitar o fornecimento de pool de colostro de vários animais, o que aumenta as chances de transmissão.

Alta carga microbiana é eliminada nas secreções respiratórias de bezerras infectadas. Por isso, o recomendado é realizar a triagem e isolamento de bezerras afetadas. Além disso, é importante evitar a transmissão via fômites, por meio do uso de equipamentos (bicos, mamadeiras, comedouros, baldes) totalmente higienizados e desinfetados.

O processo de limpeza e desinfecção também deve ser aplicado nas instalações e alojamentos onde as bezerras são criadas. O M. bovis sobrevive muito bem no meio-ambiente, principalmente quando há umidade, mas o agente é suscetível a maioria dos desinfetantes a base de cloro, clorexidine, ácido ou iodo.

Os colaboradores da fazenda devem utilizar os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) como luvas ao alimentar as bezerras, principalmente recém-nascidas e animais doentes. Importante ainda, evitar a contaminação cruzada entre os animais, sempre iniciando o manejo diário pelas bezerras mais novas para as mais velhas.

O controle de doenças respiratórias deve ser adotado, pois outros agentes infecciosos como o BVDV e BoHV-1 podem predispor e agravar as infecções pelo M. bovis. Tais medidas incluem: fornecimento de uma dieta adequada, ventilação apropriada, e redução de fatores estressantes. Os programas de colostragem de qualidade podem reduzir riscos de infecção por outros patógenos e diminuir risco de doenças secundárias por M. bovis. Já o uso profilático ou metafilático de antimicrobianos é geralmente indesejável, devido ao risco de resistência aos antimicrobianos.

Na imagem abaixo, é possível verificar o resumo de alguns fatores de risco e medidas de biosseguridade que podem ser executadas nos rebanhos leiteiros:

Gostou do conteúdo? Deixe seu like e seu comentário, isso nos ajuda a saber que conteúdos são mais interessantes para você.

Autores
Luana Camargo
Janaína Santos Ferreira
Viviani Gomes

Referências

MAUNSELL, Fiona P.; DONOVAN, G. Arthur. Mycoplasma bovis infections in young calves. Veterinary Clinics of North America: Food Animal Practice, v. 25, n. 1, p. 139-177, 2009.

NICHOLAS, R. A. J.; AYLING, R. D. Mycoplasma bovis: disease, diagnosis, and control. Research in veterinary science, v. 74, n. 2, p. 105-112, 2003.

VIVIANI GOMES

Professora Clínica Médica de Ruminantes da FMVZ-USP. Coordenadora GeCria - Grupo Especializado em Medicina da Produção aplicada ao período de transição e criação de bezerras. Tel: (11) 3091-1331

2

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

FABIO VIEIRA

PARANAVAÍ - TOCANTINS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/04/2022

Artigo muito importante,e bem elaborado.
FERNANDA MARIANE DOS SANTOS

CASTRO - PARANÁ - ESTUDANTE

EM 12/04/2022

Matéria super interessante. Parabéns Luana e equipe!
MilkPoint AgriPoint