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Exigência de fibra para vacas em lactação

POR MARINA A. CAMARGO DANÉS

E JÚLIA D. LIMA DIAS

MARINA A. CAMARGO DANÉS

EM 02/06/2016

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A principal vantagem nutricional e econômica dos ruminantes é beneficiar-se dos produtos da digestão bacteriana da fibra e da própria massa de bactérias que cresce extraindo energia de fibra. Animais não possuem as enzimas necessárias para digerir celulose e hemicelulose, os carboidratos componentes da fibra e os mais abundantes na natureza. Essa tarefa é realizada pelas bactérias do rúmen, que vivem em simbiose com o ruminante.

Na alimentação de gado de leite a fibra tem importância energética e fisiológica. O teor de FDN de alimentos e dietas é inversamente relacionado à densidade energética do material. Isso significa que quanto maior o teor de FDN menor será o conteúdo de energia e vice-versa. Apesar disso, os carboidratos que compõem a FDN frequentemente representam de 25 a 35% da matéria seca (MS) de dietas de vacas leiteiras confinadas, fazendo da fibra uma fonte importante de energia para vacas em lactação. Além disso, a fibra é responsável pela manutenção das funções de mastigação, ruminação e motilidade do rúmen.

A motilidade ruminal é uma função vital, ou seja, essencial não só para a digestão, mas para a sobrevivência do ruminante. Portanto, uma certa quantidade de fibra é indispensável em dietas de vacas leiteiras para garantir a função ruminal adequada, a fermentação do alimento e o crescimento microbiano. A quantidade e as características físicas da fibra na dieta têm efeito sobre o pH ruminal, e consequentemente sobre a saúde do animal e sobre o consumo de alimentos. Animais consumindo dietas ricas em concentrados rapidamente fermentáveis e com baixo teor de FDN estão expostos ao risco de acidose ruminal clínica ou subclínica, que prejudicam o desempenho e a longevidade do animal.

A fibra dietética é responsável pela formação do MAT ruminal e estratificação da digesta dentro o rúmen. O MAT é um “colchão” situado abaixo da fase gasosa da digesta ruminal e formado por um emaranhado de partículas flutuantes de alimento, longas e recém ingeridas, em processo de digestão bacteriana. O MAT tem duas funções principais na fisiologia ruminal: controle do pH ruminal por estímulo físico à motilidade, ruminação e salivação; e retenção do alimento recém ingerido para que permaneça no rúmen por tempo suficiente para colonização bacteriana e digestão. A formação do MAT no rúmen depende do tamanho e da gravidade específica (capacidade de boiar) das partículas fibrosas. Assim, a quantidade e características da FDN da dieta de vacas leiteiras afeta diretamente a saúde ruminal e eficiência da digestão.

No entanto, nem toda FDN é igual. Forragens, subprodutos da agroindústria e concentrados têm FDN em sua composição, mas dependendo da origem, as características de fermentação da fibra no rúmen variam. A fibra oriunda de concentrados é finamente moída, o que aumenta sua velocidade de fermentação no rúmen e de passagem para o abomaso e intestinos. A FDN de subprodutos ricos em pectina, como a polpa cítrica é rapidamente degradada no rúmen, em velocidade inclusive superior a do amido. No entanto, a pectina não é substrato para formação de ácido lático no rúmen, como o amido.

A adequação de fibra na dieta é uma tarefa complexa, devido às limitações na determinação das exigências do animal por esse componente. O NRC (2001) propôs recomendações para o balanço entre carboidratos fibrosos (FDN) e não fibrosos, especificando também a exigência mínima por FDN proveniente de forragem como uma medida de efetividade física de fibra. No entanto, essas recomendações são limitadas, pois a fibra proveniente de forragem nem sempre garante efetividade suficiente para promover mastigação e ruminação. Quando a forragem está picada muito finamente, isso pode não acontecer. Essa capacidade da fibra em promover mastigação e motilidade ruminal é chamada de efetividade física, ou FDN fisicamente efetivo (FDNfe).

Portanto, é importante compreender que o fato da FDN de uma dieta vir de forragem não garante sua efetividade física. A fibra longa é o que é essencial para garantir mastigação, salivação e saúde ruminal. No entanto, muita fibra longa afeta negativamente o consumo, pois é digerida mais lentamente, causando enchimento ruminal. Dessa forma, fica claro que uma medida mais adequada de exigência de fibra fisicamente efetiva deve incluir a distribuição do tamanho de partículas.

A combinação de valores de FDN de uma dieta e tamanho de partícula desse FDN para estimar FDNfe é possível utilizando-se o conjunto de peneiras separadoras da PennState. O método consiste em estratificar o tamanho de partículas da amostra da dieta seguindo recomendação das peneiras e analisar o teor de FDN na subamostra retida em cada peneira. A FDN contida acima da peneira de 8 mm é considerada efetivo.

Uma meta-análise recente determinou recomendações para o teor de FDN (% MS) retido nas peneiras acima de 8 mm (Zebelli et al., 2012), levando em consideração não somente manutenção do pH ruminal, como também consumo de MS. Segundo esta análise, a manutenção do pH ruminal começa a ser prejudicada quando o teor de FDN acima de 8 mm passa a ser menor do que 18% MS. Por outro lado, valores acima de 14% MS já começam a afetar negativamente o consumo de MS, como mostra a figura abaixo.

Figura 1. Efeitos do teor de FDN fisicamente efetivo no pH ruminal e consumo de matéria seca. 

Dessa forma, a recomendação resultante dessa meta-análise é que o teor de FDN maior que 8 mm esteja entre 14 e 18% MS, conforme demonstrado na figura 5. O ajuste preciso dentro dessa faixa fica dependente de outras características da dieta relacionadas ao risco de acidose ruminal, principalmente o teor de carboidratos rapidamente fermentecíveis no rúmen. Dietas com alto teor de amido e açúcares prontamente fermentáveis devem exigir mais pefFDN para garantir a saúde ruminal do que dietas compostas por ingredientes de lenta degradação. Não há consenso também quanto a influência que a digestibilidade da FDN pode exercer sobre a efetividade física da fibra. Há pesquisas mostrando aumento do pH e tempo de mastigação com fibra de melhor digestibilidade e outras mostrando diminuição desses parâmetros ou nenhum efeito.

Outro ponto importante relacionado às recomendações de Zebelli et al. é que essa análise foi feita principalmente com estudos europeus, que utilizam dietas bem diferentes do que nós utilizamos no Brasil. Enquanto nossas dietas para vacas em lactação são baseadas principalmente em silagem de milho finamente picada, as dietas utilizadas na análise mencionada apresentam alta inclusão de silagens de leguminosas e capins. Com isso, é de se esperar que, por mais que o conceito do tamanho de partículas do FDN seja universal, os valores absolutos da faixa ideal serão diferentes para nossa realidade. Dessa forma, é essencial que estudos nacionais e regionais sejam conduzidos para a determinação dos valores adequados em dietas que representem a realidade de cada região.

Não é simples traçar uma recomendação geral para exigência de fibra longa para vacas leiteiras. Esse aspecto é especialmente desafiador em vacas de alta produção em início de lactação, pois esses animais necessitam de dietas densas em energia, mas sem risco de acidose que pode levar a comprometimento da saúde e produção. A fibra é uma necessidade do ruminante e o balanceamento de fibra para vacas leiteiras exige conhecimento e avaliação rotineira dos resultados do rebanho.

MARINA A. CAMARGO DANÉS

Professora do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Lavras. Engenheira Agrônoma e mestre pela ESALQ/USP. PhD em Dairy Science pela Universidade de Wisconsin-Madison, WI, EUA. www.marinadanes.com

JÚLIA D. LIMA DIAS

Mestranda em nutrição de ruminantes no Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Lavras.
Experiente em consultoria técnica e gerencial de fazendas leiteiras no sul de Minas Gerais.

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MARIO WILSON

CONTAGEM - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/06/2018

Sr. João Jacob. Tive esse problema de eclampsia após os partos das minhas vacas.
Consegui resolver definitivamente o problema da seguinte forma:
A prevenção está baseada em um bom manejo nutricional
no pré-parto. O uso de dieta balanceada e nutritiva reduz, de forma significativa, a
incidência da eclampsia no pós-parto.
Além do manejo alimentar, passei a fornecer 200g dia por animal, de sal mineral pré parto. Eu uso bovegold pré parto. Determinei o tempo mínimo para o pré parto para 60 dias.
Com essa pratica, consegui eliminar os problemas de eclampse, retenção de placenta e febre do leite.
Espero ter ajudado, forte abraço.
JOSÉ GERALD0 FIALHO DO VALE

EM 08/06/2018

Eu utilizo resíduo de cervejaria "Cevada'' vocês alguma experiencia nutricional com esse alimento?
José Geraldo F. do Vale
Ibiúna SP.
JÚLIA D. LIMA DIAS

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 07/10/2017

Senhor Mario Wilson boa tarde,



o senhor pode entrar em contato comigo por email: juliadldias1@gmail.com



Att.,
MARIO WILSON

CONTAGEM - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/10/2017

Júlia. preciso do seu contato.

Moro em Contagem, MG. Sou produtor de leite e estou precisando de consultoria para ajuste na dieta e alimentação das vacas leiteiras.
MATEUS LAENDER PACHECO

CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA - PARÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 15/11/2016

Parabéns pelo artigo.

No entanto, na citação acima: "Segundo esta análise, a manutenção do pH ruminal começa a ser prejudicada quando o teor de FDN acima de 8 mm passa a ser menor do que 18% MS. Por outro lado, valores acima de 14% MS já começam a afetar negativamente o consumo de MS, como mostra a figura abaixo.", entendi errado ou seria: "...a manutenção do pH ruminal começa a ser prejudicada quando o teor de FDN acima de 8 mm passa a ser menor do que 14% MS. Por outro lado, valores acima de 18% MS já começam a afetar negativamente o consumo de MS, ...".
ALUISIO PUGLIA DE AZEVEDO

MIRACEMA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/06/2016



     0 tema me interessa bastante não uso silagem por limitação de topografia e mão de obra mas sim,pastagem,cana e napier picado ;Como possuo algumas vacas com mais de 25 kg. por dia,estou adicionando cerca de 0,3% de bicarbonato de sódio em ração de23% de PB. na base  de farelo de soja,fubá e mistura minealGostaria de saber sobre a adequação desta dieta.  
JOÃO JACOB ALVES SOBRINHO

GOIÂNIA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/06/2016

Aproveitando a oportunidade , gostaria que as duas doutoras ajudasse-me , pois estou com serio problema de eclampse na fazenda.

O  lote de pre-parto , forneço 3kgs de ração pre parto da comigo por dia e silagem a vontade.

O gado fica liso bonito , mas o índice de eclampse esta girando entorno de 70%.

Obs. Forneço sal mineral normalmente

O que devo mudar?
JÚLIA D. LIMA DIAS

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 10/06/2016

Sr. Newton Jodas Gonçalves, bom dia



Você pode substituir milho por casquinha de soja sim, mas o quanto vai depender de diversos fatores, como produção do gado, qualidade de suas forragens, etc. O ideal e que o senhor receba a visita de um nutricionista de sua confiança.

Att.,
JÚLIA D. LIMA DIAS

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 10/06/2016

Sr. Cassio, bom dia



Se você dispõe de silagem de milho finamente moída o feno de tifton é uma boa opção para fornecimento da fibra longa necessária. De fato, o maior desafio para colheita de silagem de milho com o maquinário comumente disponível no Brasil é o processamento dos grãos sem picar a forragem fina demais.

Para formular a dieta recomendo que avalie suas forragens (silagem e feno) quanto a composição bromatológica e passe-as no separador de Penn State. Isso poderá fornecer a você uma ideia da quantidade de FDN maior que 8 mm na dieta. Veja as recomendações do artigo, mas lembre-se, não há uma exigência postulada de fibra longa para vacas em lactação, uma receita fixa a seguir. Forneça a fibra e avalie sempre os resultados do rebanho: consumo de alimento, leite, sólidos. Att.
JÚLIA D. LIMA DIAS

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 10/06/2016

Sr. Clovis Marcelo Roesler, bom dia.



Baixo percentual de proteína do leite pode ser causado por falta de fibra na dieta sim, pois o desbalanceamento na fibra causa acidose ruminal. A acidose ruminal compromete o suprimento de proteína microbiana para a vaca. No entanto essa não é a única causa possível para baixa proteína do leite. Para um diagnóstico mais preciso da situação contacte um nutricionista de sua confiança. Att.
CÁSSIO

CARMO DO PARANAÍBA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/06/2016

Boa noite, no caso de vacas, principalmente em início de lactação, seria correto fornecer autos teores de concentrados, para suprir suas exigências complementadas com silagem de milho picada em tamanho menor, para que seja possível quebrar o grão na hora da ensilagem, e suprir as necessidades de fibra com feno de tifton 85?

Tendo em vista que as forrageiras em sua maioria tem dificuldade de quebrar o grão no momento da colheita.



Se sim, quais seriam os limites aceitáveis de medida para a silagem de milho propriamente dita?
CONRADO KONORAT

SANTO ÂNGELO - TOCANTINS - TÉCNICO

EM 03/06/2016

Muito bom artigo !!!


FERNANDO COELHO DA SILVA

CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 03/06/2016

Muito bom!

As pesquisas regionais com certeza vai abrir um leque maior de conhecimento e vai contribuir para uma melhor  formulação de dietas.
CLOVIS MARCELO ROESLER

RIO GRANDE DO SUL - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 03/06/2016

Pegunto as Técnicas, disfunções na proteína do leite, ou seja, proteína baixa, pode ser causado pela baixa ingestão de fribra? Como resolvo este problema?
NEWTON JODAS GONÇALVES

TAPEJARA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 03/06/2016

Bom dia! Posso substituir milho,por casca de soja peletizada ,pensando em uma dieta a base de silagem de milho,concentrado e acesso a pasto, até que níveis percentuais?
IULI CAETANO

ESTUDANTE

EM 03/06/2016

Parabéns, muito bom!

Um outro estudo também interessante sobre o assunto:



SILVA, T. H. Enzima fibrolítica exógena na alimentação de vacas em lactação. [Exogenous fibrolytic enzime in dairy cows diets]. 2016. 120 f. Dissertação (Mestrado em Ciências) - Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, Pirassununga, 2016.