FAZER LOGIN COM O FACEBOOK ESQUECI MINHA SENHA SOU UM NOVO USUÁRIO

Motivações para o controle de mastite

POR MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 11/01/2008

0
0
Um dos grandes desafios que a área acadêmica, incluindo universidades, institutos e empresas de pesquisa e demais entidades afins, e o setor produtivo enfrentam é transformar conhecimento em tecnologia aplicada. O velho paradigma é: temos conhecimento, mas as informações não chegam ou não são usadas pelos usuários finais. Sem entrar na discussão de qual a terminologia é a mais adequada, extensão rural, transferência de tecnologia ou simplesmente aplicação do conhecimento em benefício sociedade, o fato é que existe um grande fosso entre o conhecimento disponível e o seu uso no dia-a-dia.

Para ficarmos em um exemplo simples, podemos dizer com certa segurança que temos disponível, atualmente, um conjunto de práticas e estratégias para um controle eficaz de mastite e de redução de CCS em rebanhos leiteiros. Isso pode ser comprovado em termos práticos pelas estatísticas de redução na ocorrência da doença em rebanhos individuais, assim como em países nos quais tais medidas foram usadas. Contudo, ainda observamos, entre muitos produtores e técnicos, um percentual abaixo do desejável em relação à aplicação de práticas de controle consagradas.

É certo que muitos produtores conhecem as medidas de controle e os seus benefícios e retornos econômicos, o que também não significa a sua implantação automática, visto que isso pode gerar aumentos indesejáveis de custos de produção. Podemos assim dizer que muitas decisões individuais em relação à implantação de medidas de controle de mastite são também tomadas em razão de outros fatores que não necessariamente retornos econômicos. Existem estudos que avaliaram os impactos comprovadamente positivos de programas de pagamento por qualidade sobre a redução da CCS, mas não há escassa quantidade de informações sobre outros tipos de motivação relacionada ao comportamento dos produtores em relação ao controle de mastite.

Um dos poucos estudos nessa área avaliou o comportamento dos produtores em relação ocorrência de perdas, sendo que os resultados indicaram uma tendência das pessoas em preferir evitar perdas a aumentar os ganhos, o que foi chamado de aversão à perda. Em razão desses resultados, é possível supor que para produtores com comportamentos diferentes podemos ter dois tipos de decisão que para eles são lógicas e podem ser aplicadas, ou seja, pessoas que tem foco maior na atividade na redução das perdas ou no aumento dos ganhos.

Esses estudos auxiliam também no entendimento de como os produtores irão reagir a introdução de um determinado esquema de pagamento que priorize ou a bonificação ou a penalização do preço do leite. Por outro lado, considerando que produtores reagem de forma diferente a um mesmo estímulo, ou seja, são motivados por diferentes fatores, pode-se esperar que um tipo de estratégia único em termos de incentivo não deva surtir resultados positivos para todos os diferentes perfis de produtores.

Para tratar desse assunto foi desenvolvido um estudo em várias regiões da Holanda - país esse em que sistemas de pagamento por qualidade já são realidades consolidadas - visando explorar os diferentes fatores de motivação e a sua importância relativa nas decisões de manejo sobre controle de mastite e avaliar a reação aos diferentes esquemas de pagamento (bonificação X penalização).

O estudo foi desenvolvido com 100 produtores que responderam questionários sobre os fatores motivadores (satisfação no trabalho, situação geral da fazenda, perdas econômicas, saúde e bem-estar animal, atendimento de legislação, imagem e qualidade de produtos lácteos, incentivos financeiros) e demais informações sobre o rebanho (tamanho do rebanho, cota de leite, número de vacas em lactação, tipo de mão-de-obra, CCS do tanque, idade, nível educacional, conhecimentos sobre mastite). Além disso, foram feitas simulações de diferentes sistemas de pagamento com base nos dados de qualidade da cada fazenda para avaliar o tipo de reação de cada produtor.

Na tabela 1 são apresentadas as médias de importância relativa de cada fator motivacional para redução de mastite. Foram classificados os resultados em dois cenários diferentes, com base na bonificação e na penalização. De acordo com os resultados da tabela 2, exceto para o cenário de penalização em que o fator mais importante foi o incentivo financeiro, para ambos os cenários os fatores motivadores foram basicamente os mesmos em ordem de importância.

Em termos gerais, os fatores de satisfação pelo trabalho e situação geral (desempenho) da fazenda foram os mais importantes para o cenário de bonificação e também apresentaram alta importância para o cenário de penalização. Considerando os resultados desse estudo, pode-se sugerir que as decisões sobre melhoria do controle de mastite estão ligadas mais fortemente com fatores internos a cada fazenda (desempenho) e a individualidade de cada produtor, do que com fatores externos a propriedade ou ao desempenho geral do setor leiteiro.

Tabela 1. Fatores que influenciam a decisão de produtores em relação ao controle de mastite e sua importância relativa por cenário (%).


(*): importância relativa de cada fator. Fonte: adaptado de Valeeva et al, 2007.

Considerando as perdas econômicas e o incentivo financeiro, esse dois fatores isoladamente representam cerca de 30% de importância relativa em relação à motivação dos produtores para redução de mastite. Em outras palavras, contrariamente ao que se esperava, existem fatores não financeiros que também são importantes, pelo menos nessa situação particular de sistema de produção, que devem ser considerados quando se busca melhorar a qualidade do leite por meio de programas de pagamento diferenciado.

Com relação às percepções dos produtores em relação aos dois cenários de pagamentos, as respostas foram muito semelhantes, com exceção do incentivo financeiro que passou a ser o item mais valorizado num cenário em que se penaliza alta CCS. Isso indica que os produtores reagem de forma diferente, dependo se eles recebem uma penalização ou bonificação em função da CCS do leite. Pode-se concluir com base nesses resultados, que quando se analisa somente incentivos financeiros, o sistema de pagamento por penalização resulta em maior motivação para redução da CCS que o sistema bonificação.

Em resumo, as motivações para melhoria do controle de mastite são diferentes entre os vários tipos de produtores, o que significa que outros fatores, além dos incentivos financeiros, são igualmente importantes para as decisões de controle de mastite e melhoria da qualidade do leite.

Fonte:

Valeeva, et al. Journal do Dairy Science, v. 90:4466-4477, 2007.

Baixe este artigo no formato PDF

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

0

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.