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A hora da verdade para o setor lácteo

O mercado interno de lácteos vem crescendo a taxas razoáveis nas últimas duas décadas, conforme nos mostra a figura 1. Começando a análise pela quarta coluna, a da produção, nota-se que, de 1989 até hoje, crescemos cerca de 3,4% ao ano, bem mais do que o PIB, que cresceu anêmicos 2,17% ao ano desde então. Se analisarmos o período mais recente, de 2000 a 2006, o crescimento foi ainda maior, de 4,1% ao ano. Embora reconheçamos que essa análise devesse contemplar o valor gerado pelo setor e não somente o crescimento em volume, é impossível não considerar que, analisado independentemente, o maior crescimento do mercado de lácteos em comparação ao crescimento da economia como um todo, com especial aceleração nos últimos anos, é uma notícia positiva para o setor. Isso posto, é oportuno, antes de analisar o cenário futuro, entender os direcionadores desse aumento.

Figura 1. Taxas de crescimento, para o mercado de lácteos, em dois distintos cenários. Fonte: várias.


Uma das variáveis que compõe esse crescimento, o consumo per capita, isto é, o consumo por habitante por ano, calculado a partir da disponibilidade interna de leite, vem apresentando crescimento bem mais modesto do que o mencionado acima. Conforme podemos ver na primeira coluna da figura 1, desde 1989, se eleva a uma tímida taxa média de 1,36% ao ano, valendo lembrar que tal aumento está longe de ser linear, mas sim pontuado por altos e baixos que, na prática, configuram o quadro de estagnação no consumo per capita de leite no Brasil.

De 2000 a 2006 (para este ano, considerando uma estimativa de 2% de aumento na produção, além de importações e exportações em quantidade igual de litros, não afetando o dado), a taxa cresceu ainda menos, 1,02% ao ano, brecada pela frustração do baixo número apresentado pelo IBGE para 2005 - 24,6 bilhões de litros contra a expectativa de 25 bilhões ou até mais - e pelo pequeno crescimento previsto na produção para o ano que acabou de se encerrar.

Se colocarmos como meta o número cabalístico de 200 kg por pessoa/ano, seguindo as extrapolações feitas pelo setor a partir do Guia Alimentar Oficial, precisaríamos de mais 36 anos para alcançar o patamar de consumo que a Argentina, para ficar em um exemplo mais palpável, consegue hoje. Um longo tempo para que alimentemos, a partir dessa projeção, uma expectativa de ter, no crescimento do consumo per capita, uma variável relevante para o aumento do consumo de lácteos no país - se nada for feito. É importante, no entanto, fazer uma ressalva. Considerando o período de 2000 a 2006 e a pequena flutuação entre anos que caracteriza essa variável, qualquer variação mais expressiva muda de forma significativa a leitura do cenário. Se trabalhássemos com produção de 25,15 bilhões de litros em 2005 e uma expectativa de crescimento de 3,0% para 2006, chegaríamos a um aumento médio de consumo per capita de 1,6% entre 1989 e 2006 e 1,72% entre 2000 e 2006. Indo além, se, por alguma razão, o consumo per capita subir significativamente em 2007, é possível que o período mais recente tenha crescimento superior ao período anterior, prejudicando parte da análise (mas não invalidando o fato do mesmo ser baixo e estar sujeito a um cenário mais difícil daqui para a frente, como verificaremos).

Ainda nessa linha, pode-se argumentar que os dados sobre a informalidade, embutidos no cálculo do crescimento do consumo per capita, são por demais incertos para que se conclua, a partir deles, mudanças no mercado. Dentro disso, pode-se argumentar que a análise deva ser feita somente com base no leite inspecionado, dada a maior precisão da informação e pelo fato de ser, na realidade, o mercado em que nosso público participa. De qualquer forma, excetuando-se os dados de 2005, quando a informalidade caiu, segundo as informações do IBGE, esse "mercado" tem se mostrado relativamente estável no período.

Continuemos nossa análise, lembrando que não é apenas de crescimento per capita que uma economia vive. O crescimento populacional, independentemente da estagnação dos valores per capita, também contribui para o alargamento do mercado. De 1989 em diante, o crescimento populacional foi de 1,54% ao ano, caindo para 1,45% ao ano de 2000 em diante. A má notícia é que, seguramente, o crescimento populacional será uma variável cada vez menos relevante como direcionadora do consumo. O IBGE estima crescimento de 1,3% ao ano até 2010, caindo para 1,2% ao ano no período que vai entre 2011 e 2013, 1,1% até 2016, 1,0% até 2019 e 0,9% em 2020. Em outras palavras, se o crescimento populacional foi uma variável que ajudou a manter o mercado em crescimento, a despeito do baixo crescimento per capita, tudo indica que sua importância será cada vez menor daqui em diante. Se quiser crescer, o setor precisará atuar de forma mais ativa, dependendo cada vez menos do crescimento vegetativo que, até então, foi uma variável com relativa importância.

A combinação do crescimento per capita com o crescimento populacional dá o crescimento do mercado interno de lácteos, em volume. A terceira coluna mostra que, de 1989 em diante, crescemos o equivalente a 2,92% ao ano, com uma queda de 14,7% nessa taxa no período mais recente, de 2000 em diante, quando o crescimento do mercado ficou em 2,5% ao ano, fruto da redução do taxa de expansão populacional nesse período e, fundamentalmente, do menor crescimento per capita. Vale, no entanto, reaplicar aqui as mesmas ressalvas feitas para o crescimento per capita.

Olhando agora para a figura como um todo, percebe-se uma aparente incoerência. A taxa de crescimento da população, do consumo per capita e do mercado interno foi menor nos últimos seis anos em comparação ao período de 1989 a 2006; porém, a produção se expandiu a taxas superiores nesse período. A explicação está no processo de substituição de importações verificado nos últimos anos (e o início das exportações), que, na última década, serviu de alento para o fraco mercado interno. De fato, com a paulatina redução das importações de lácteos, produtores e fábricas nacionais (de capital estrangeiro ou brasileiro), ganharam mercado de seus concorrentes externos, tornando menos penoso o cenário acima descrito.

Pois bem, chegamos a 2007 com uma nova realidade. A essa altura, fica evidente que o processo de substituição de importações foi concluído (já há 2 anos) e que, desse mato não sairá mais coelho algum. Há, sem dúvida, o mercado externo como opção de crescimento da produção e da industrialização, que deve e será visado pelas empresas, embora a dependência de variáveis não controladas pelo setor, como a taxa de câmbio, subsídios e preços externos dos lácteos deixam certa apreensão ao se considerar essa alternativa como única forma de crescimento para o setor no país.

Mas voltemos ao mercado interno. Vimos, no início do texto, que a expansão per capita tem sido baixa e, nos últimos anos, menor do que as taxas anteriores e que a substituição de importações já foi concluída. Se quisermos crescer sem aumentar o mercado total, há ainda a alternativa de redução da informalidade, assim como ocorreu como a substituição das importações. Nesse caso, o ganho de mercado pode advir, nos próximos anos, pelo aumento da taxa de formalização, com benefícios para empresas e produtores que já participam ou que venham a participar desse mercado.

Mas a análise não deve, nem pode, parar por aí. Conforme já abordamos em análise anterior, o consumidor tem à sua disposição um número cada vez maior de opções de consumo, não só em alimentos, mas em bens de consumo em geral, que competem pelo mesmo orçamento familiar. Para ficar em um exemplo próximo a todos, basta lembrar que em 1996, tínhamos 1 telefone celular para cada 57 habitantes; hoje, apenas 10 anos depois, temos mais de 100 milhões de telefones celulares no mercado, uma proporção de menos de 2 para 1! Considerando que, em média, gasta-se R$ 20 por mês em cada linha, fica fácil entender como o telefone celular entrou em nossas vidas e, nisso, comprometeu parte do nosso orçamento mensal. Como o telefone, ainda que em menor magnitude, pode-se acrescentar outros itens que servem ao mesmo propósito nesta análise.

Trazendo brevemente a realidade do aumento de opções de consumo para os alimentos e bebidas, as opções crescem continuamente, criando produtos substitutos como as bebidas de soja e sucos prontos. Nesse ponto, é necessário mencionar a preocupação crescente com a saúde, o fluxo cada vez mais rápido da informação, o papel relevante de grupos de interesse e a interferência governamental, muitas vezes criando distorções que podem custar caro ao setor, sendo exemplos a lei 11.265 e, mais recentemente, a consulta pública 71, da Anvisa, objeto do último artigo.

Nesse contexto, a renda, variável até então das mais relevantes para o consumo de lácteos, parece não ter a mesma força que outrora tinha como propulsora do consumo. Embora necessária para o incremento do consumo, o contexto acima descrito, embasado recentemente por um trabalho da Embrapa, sugere que não mais é suficiente ter dinheiro no bolso para que o consumidor incremente seu consumo de lácteos, uma vez que sua disposição ao consumo está hoje dividida - e assim deve ser no futuro - por uma gama maior de opções, tanto de alimentos e bebidas, como de outros produtos.

Em linhas gerais, os fatores que promoveram o crescimento do setor nos últimos anos não mais estão presentes ou, se estão, o fazem em menor intensidade do que no passado. Soma-se a isso o fato de novos fatores entrarem em cena, como a questão da mudança dos hábitos de consumo e do próprio envelhecimento da população, que embutem mudanças sólidas no perfil do consumidor. Temos, portanto, um desafio considerável a superar caso nosso objetivo seja o crescimento do mercado de lácteos, o que necessariamente interessa aos produtores e às empresas.

Não se trata de pintar um cenário pessimista da realidade, afinal a análise se baseia em variáveis concretas, cujos efeitos já se fazem sentir. Trata-se, na verdade, de chamar a atenção que, talvez como nunca antes ocorrera, cabe ao setor moldar seu futuro. Em outras palavras, se, daqui a 15 anos resolvermos caracterizar o setor lácteo no Brasil, muito do que seria dito estaria diretamente relacionado às ações feitas pelo setor nesse período.

É, pois, a hora da verdade para o setor. Será necessário abrir mercado, aqui e lá fora, a despeito da concorrência crescente; para tal, será necessário reposicionar os lácteos como produtos saudáveis e atrativos para a população, em seus diversos segmentos; será necessário inovar em produto, canal de distribuição e embalagem; será necessário abordar a questão da qualidade como uma bandeira fundamental, entre outras ações que deveriam compor uma agenda setorial e empresarial.

Essa percepção de que é preciso agir, creio, está se consolidando junto a diversas lideranças do setor, de produtores a indústrias multinacionais, passando pelas cooperativas. Afinal, o quadro acima descrito não é ficção, mas sim, a realidade. Arrisco-me a dizer que está se criando um ambiente favorável para que o setor comece a dar um passo determinado em direção à construção de seu futuro, através do marketing institucional. Quem sabe, no início de 2008, estaremos novamente analisando o futuro do mercado de lácteos, porém sob a influência concreta das ações que terão sido iniciadas em 2007.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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EDER GHEDINI

TAPEJARA - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 22/01/2007

Este quadro somente irá mudar quando as indústria de laticínios pagarem um valor justo e condizente para com os produtores. A modernização do setor depende única e exclusivamente do custo/benefício, quando o produtor de leite tornar-se empreendedor, possivelmente ofertará um produto de qualidade, melhorando sua aceitação no mercado interno e externo.
FERNANDO FERRAZ

SANTA BÁRBARA D'ESTE - SÃO PAULO - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 12/01/2007

Produtores de leite,

Já existe quem faça o marketing institucional: a Láctea Brasil (www.lacteabrasil.org.br). Afirmo a todos que esta entidade é constituída por pessoas sérias e competentes como Paulo Portilho (Inve/Sloten), Roberto Jank (Agrindus), Wiliam Tabchoury (Lagoa), Luiz Antônio (Cooxupé) e Marcelo Carvalho (MilkPoint).

Não entendo como alguns elos da cadeia assistem a tudo de longe. Parece que o assunto não os interessa. Convido a todos para visitar o site da Láctea Brasil. Valorizem as empresas e entidades que contribuem com o marketing institucional. Cobrem as que não participam.
EDUARDO FONSECA PORTUGAL

MARECHAL CÂNDIDO RONDON - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 04/01/2007

Marcelo, excelente seu ponto de vista! O realismo é de uma profundidade bastante racional. E tem gente que tenta boicotar a I.N. 51. Antes de ser lei, passou a ser uma necessidade de tentar alcançar um padrão de qualidade nunca atingido antes.

Copiamos tanto modismo dos americanos e não sabemos copiar o que eles tem de melhor - o marketing do consumo. Existe alguma dúvida de que a Oceania está de olho no mercado chinês? Quem ocupará no futuro o espaço que deixarão no mercado europeu? Os Estados Unidos sempre tiveram um crescimento controlado do setor lácteo onde procuraram absorver sua produção. Hoje, já crescem 3,5% ao ano, e após grandes campanhas de consumo (principalmente atingindo adolescentes) não conseguem atender a demanda.

Mas juntamente com o Canadá, estão se preparando para disputar este mercado, pois estão muito avançados com as leis de biossegurança alimentar, que lhes darão uma grande vantagem. Aqui no Brasil, as primeiras avaliações dos laboratórios credenciados mostra que dependendo da região, mais de 50% do leite está fora dos padrões de qualidade exigidos pelas barreiras sanitárias internacionais.

Produzir leite é muito diferente de produzir carnes e grãos, exige dedicação e conhecimento. Estamos atrasados, mas com muita vontade de acertar.
JONATHAS FREITAS MARQUES

SÃO PAULO - SÃO PAULO - FRIGORÍFICOS

EM 04/01/2007

Ótima matéria.
CARLOS ALBERTO T. ZAMBONI

MOCOCA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 04/01/2007

Brilhante a sua análise, Marcelo. Realmente o cenário que você pintou não é pessimista, e sim bastante realista. De fato, os fatores promotores de crescimento do mercado, mesmo que pequeno no período por você analisado, estão mesmo se exaurindo e sendo substituídos por outros hábitos alimentares.

Se não tomarmos duas medidas urgentes, o marketing institucional e as exportações com conquistas de mercados estáveis e não só via preço, corremos o risco de nesses próximos anos termos plantas industriais modernas (vide as prometidas para o Rio Grande do Sul) e as atuais, operando com suas capacidades mínimas, e os produtores de leite chamados à modernização terem que aceitarem preços pífios por excederem a produção
LUÍS FERNANDO MACEDO DE SANTANA

UBERABA - MINAS GERAIS

EM 03/01/2007

Boa matéria.
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/01/2007

Prezado Marcelo,

Sabemos nós que muito não há para se comemorar. Se levarmos em conta o índice de crescimento da população brasileira ao longo destes anos, verificaremos que o aumento no consumo de lácteos deve-se muito mais a isto do que propriamente à conscientização, por parte das pessoas, da importância de sua ingestão. Gostaria de ter o seu otimismo com relação a 2007, concordando, em grau, gênero e número, que a saída é uma massiva campanha institucional em prol da elevação do consumo de lácteos no mercado interno, tal como acontece com as cervejas, por exemplo.

Mas não vejo com olhos bons este ano que se inicia, já que se nos encontramos sob o pálio de uma verdadeira explosão do valor dos produtos básicos da alimentação das vacas leiteiras, como o milho, a soja, o caroço de algodão, elementares para a elevação das lactações e que, no geral, entram, também, na composição das rações, que, igualmente, terão seus preços majorados, já que as áreas plantadas foram drasticamente reduzidas.

Em palavras outras, como analisamos sempre as evoluções deste insumo, temos a consciência que o preço pago pelo produto final (leite) não acompanhará tais aumentos, dificultando, ainda mais, a vida do produtor. No entanto, como verdadeiros "Don Quixotes de la Mancha" que somos, continuaremos a combater nossos moinhos de vento e a sonhar que, um dia, venceremos a terrível guerra e seremos, finalmente, valorizados como membros de elite na cadeia alimentar e na balança comercial de nosso país, tal como acontece com as nações mais desenvolvidas. Pelo menos o sonho ainda não nos roubaram.

Um grande abraço.