ENTRAR COM FACEBOOK ESQUECI MINHA SENHA SOU UM NOVO USUÁRIO

O leite no país das bicicletas

POR ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

LEITE NO MUNDO

EM 07/06/2018

21
15

Com o intuito de “oxigenar” o conhecimento sobre o mundo lácteo, me organizei para fazer um estágio profissional na Holanda, onde todos andam de bicicleta e cada habitante tem 2,7 bicicletas. A foto, a seguir, é do dia 11 de abril de 2018 às 9:00, dos estudantes indo para a universidade.

Foram 32 dias intensos passando por todos os segmentos da cadeia produtiva. Visitei unidades de pesquisa e treinamento, laticínios, organização da indústria, CRV, Lely e o mercado consumidor. Minha base foi a Universidade de Wageningen (Wageningen University and Research – WUR) onde tive o suporte da Yori Inovation, uma empresa que coopera com o programa MFC (Metropolitan Food Clusters) da própria Universidade.

Cada minuto vivido no país Dutch, foi muito produtivo. Tive a oportunidade de interagir com professores da conceituada WUR, que por três anos consecutivos, foi considerada no ranking da QS em primeiro lugar dentre as Universidades de Agricultura e Floresta.

A Holanda produz anualmente 14,3 bilhões de litros provenientes de 1,7 milhão de vacas de 17.500 produtores, o que confere uma produção média de 2.200 litros por produtor ao dia. Esta produção é proveniente de rebanhos com média de 73 vacas. Com esta estrutura de rebanho e escala de produção e, considerando os custos elevados das instalações, mão de obra e máquinas, muitas das quais robotizadas, o país enfrenta dificuldade para produzir leite a custos competitivos.

Os custos informados por vários players do setor variaram de 0,25 a 0,35 euros, ou seja R$1,08 a R$1,50 (1 euro=R$4,30)¹. O preço de leite praticado pelo mercado no mês de março de 2018 foi de 0,35 euros (R$1,50). ¹Valor do euro considerado para o mês de março de 2018.

A maior fazenda de produção de leite, com 2.000 vacas, pareceu muito eficiente. Ela tem custo de 0,25 centavos de euros. Neste caso o custo do frete do leite até a indústria não está incluído.

A genética do rebanho do país é excelente. Cada vaca produz em média 30 kg de leite por dia. O intervalo entre partos médio observado é de 400 dias. Cada vaca em média produz leite por 3,5 lactações.

A alimentação é a base de silagem de milho e ryegrass (azevém) inglês, fornecido a pasto, silagem e/ou feno. A beterraba e a batata também são fornecidas como suplementos em algumas propriedades no período de safra. A partir da primavera e durante todo verão muitos produtores soltam as vacas no pasto. O concentrado em boa parte é importado. A produtividade de milho para silagem é de 16.700 kg e de ryegrass 11.500 kg de matéria seca por hectare. Como pode ser visto na foto a seguir, as vacas estavam se alimentando de batata.

O sistema de manejo predominante é o de free stall. Não foi possível ver nenhum compost barn. A informação é de que existem poucos e uma das razões prováveis é que a temperatura no inverno não facilita o processo de compostagem.

Nas propriedades o que quase não existe é trabalhador. Quando existem, são poucos. O custo da mão de obra é muito elevado, cerca de 3.000 euros incluindo os encargos sociais. É por esta razão que a robotização da atividade cresce bastante. Cerca de 50% das propriedades dos produtores jovens têm ordenha robotizada. A Lely² tem uma atuação relevante neste mercado dentro e fora do país. No evento de comemoração dos 70 anos em Maassluis, sede da empresa, foi lançado a versão A5 da Astronault, foto abaixo. Trata-se de um equipamento bastante moderno. Econômico, pouco barulho, e muitas funções durante o processo de ordenha. ²A Lely é uma grande indústria holandesa que dentre outros equipamentos de elevada tecnologia, produz ordenha robotizadas. 

Os produtores, em geral, estão bem preparados. Praticamente não existe serviço de extensão rural no país. Os produtores demandam as consultorias técnicas para ajudá-los. E a parceria da Universidade com o setor privado para o desenvolvimento de processos e tecnologias para aumento da eficiência da produção é intensa.

A CRV presta um excelente serviço de classificação de vacas para a indicação de reprodutores que é contratado pelos produtores.  No país, são 16 classificadores e cada classificador atende cerca de 400 produtores que são visitados entre duas e três vezes ao ano. Acompanhamos o classificador abaixo. São 18 características avaliadas, havendo um score para cada uma delas. A partir daí um sistema de classificação indica os touros mais apropriados para cada vaca com o objetivo de melhorar o score da característica avaliada.

Um serviço que me pareceu interessante acontece no Dairy Training Center (DTC) que é o Centro de Treinamento para produtores e trabalhadores da indústria. No dia da visita havia um grupo de 10 pessoas, de diferentes países da Ásia e da África, sendo treinados. Mas o que mais me chamou atenção foi um treinamento que é regularmente oferecido para jovens. São 45 dias de duração, mas com uma agenda intermitente, de tal forma que o técnico alterna dias de curso com trabalho em sua propriedade. Ao final do curso, cada participante, tem que passar por uma banca examinadora, se submetendo a um teste para certificação. Na conclusão do curso, o Rabobank³ participa apresentando suas linhas de crédito com vantagens para este perfil de produtor jovem e recentemente preparado para o exercício de sua profissão como produtor de leite.

A foto abaixo mostra um grupo de quatro técnicos apresentado para dois professores do DTC os seus trabalhos de conclusão do curso. ³O Rabobank é uma grande cooperativa do sistema financeiro de origem holandesa mas que tem grande presença mundial.

Os indicadores de produtividade da área e da mão de obra são elevados. A mão de obra na maioria das propriedades é familiar. Os dados do quadro abaixo são de quatro dentre as propriedades visitadas. Tomando estes exemplos como base, podemos considerar que a produtividade da área é próxima de 22.000 litros por hectare/ano e a produtividade da mão de obra ao redor de 2.000 litros por homem/dia. Vale notar que a mão de obra prevalente é familiar.

É bastante relevante o quão elevada é a qualidade do leite no que se refere a todos os parâmetros utilizados para mensurá-la. O quadro a seguir apresenta dados levantados da qualidade do leite em diferentes fazendas, na Holanda em 1917 e em janeiro 2018.

A Contagem de Célula Somática (CCS) é muito baixa, o que é bom para o rendimento dos produtos, especialmente o queijo, que é o principal produto lácteo do país. De todo o leite produzido na Holanda, 52% se destina à produção de queijos. A Contagem Bacteriana Total (CBT) também é muito baixa. Isto permite aos holandeses preferir o consumo de leite apenas pasteurizado. Aliás, o tempo de prateleira de um leite com a pasteurização convencional (baixa) é acima de doze dias. Os sólidos totais (ST) são muito elevados o que novamente confere vantagens ao rendimento de produtos como o queijo e leite em pó.

Para finalizar este artigo vou fazer uma analogia da Holanda com a Argentina, nossa vizinha do Mercosul. Ambas são importantes players do mercado internacional e apresentam algumas semelhanças como clima, utilização do pasto como fonte principal de alimento volumoso, rebanho com predominância da raça holandesa e exatamente o mesmo número de vacas de leite.

Como pode ser observado no quadro, as vacas na Holanda têm uma produção superior. É provável que a genética deve ser melhor, mas o sistema de manejo confinado na Holanda por um determinado período do ano também contribui para esta vantagem.

Em ambos países a escala de produção por produtor é relativamente elevada quando comparada com o Brasil, por exemplo. Mas isto não significa ainda que estão trabalhando no ótimo econômico. As fazendas americanas e neozelandesas têm produções por fazenda mais elevadas ainda que Holanda e Argentina, por exemplo.

O leite é um negócio bastante significativo para a economia da Holanda. Cerca de 65% da produção nacional é exportada na forma de produtos processados.

Entretanto, a condição de solo associada a topografia nas quatro províncias argentinas onde o leite se concentra (Buenos Aires, Córdoba, Santa Fé e Entre Rios), o custo da mão de obra mais baixo e um menor investimento em instalações ainda proporcionam ao país latino vantagens comparativas e competitivas quando se trata de mercado internacional.

Outro ponto bastante relevante para a competitividade internacional é a escala de produção das fábricas. A indústria holandesa é muito mais concentrada, o que lhe confere custos fixos mais baixos.

Aproveito aqui para fazer um agradecimento especial aos amigos Fabio Homero Diniz (Embrapa Gado de Leite) e Marcia Thaís Melo Carvalho (Embrapa Arroz e Feijão) que fizeram seus doutorados na WUR e que me deram muitas dicas interessantes para que minha estada lá fosse tão rica.

Você também possui alguma experiência com a produção leiteira fora do Brasil? Compartilhe conosco! Envie um e-mail para contato@milkpoint.com.br e participe da Coluna Leite no Mundo. 

ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

A SL Consultoria em Agronegócios é uma empresa criada em agosto de 2014, com sede em Goiânia, tendo a expertise em negócios relacionados com a Cadeia do Leite como seu pilar central. Ela foi projetada pelo seu sócio proprietário, que atuou por 23 ano

21

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

MÁRCIO ROBERTO DE MACÊDO OLIVEIRA

SÃO GABRIEL DO OESTE - MATO GROSSO DO SUL - TÉCNICO

EM 12/06/2018

BOM DIA.

EXCELENTE ARTIGO, EM QUE PODEMOS SABER E ENTENDER COMO É A REALIDADE DA PECUÁRIA LEITEIRA EM OUTRO PAÍS E OUTRA CULTURA.
SR ANTONIO CARLOS É SEMPRE UM APRENDIZADO MUITO GRANDE LER OS SEUS TEXTOS E ARTIGOS, EM QUE TIVE O PRAZER DE CONHECER E TRABALHAR.
GRANDE ABRAÇO
ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 12/06/2018

Caro Marcio,
Foi grande prazer para mim também trabalhar com o amigo. Obrigado pelos comentários. Acredito também que é bom a gente entender como os nossos "pares" estão trabalhando. Abraço, grande.
ALEXANDRE BUENO DA SILVA FONSECA

PIRANHAS - GOIÁS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 11/06/2018

boa tarde, amigo Antonio Carlos, grande artigo que nos faz meditar sobre o leite para planejamento do futuro.
abraço!
Paulo César
Lactosul - Piranhas/Go.
ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/06/2018

Caro Paulo César,
Obrigado pelo comentário. Satisfação reencontrá-lo. Parabéns ao Alcides pela eleição para a presidência do Sindileite. Grande abraço.
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 11/06/2018

Excelente artigo! Panorâmico e inspirador.
ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/06/2018

Obrigado Paulo! Abraço grande.
SÁVIO SANTIAGO

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 11/06/2018

Meu caro amigo e professor,

Só o fato de uma pessoa com o seu conhecimento e com a sua história no leite ter essa disposição pra conhecer novos lugares e aprender mais já é admirável, e é uma motivação para nós que estamos de fato na fase de aprendizagem;

Seu texto tem, como de costume, uma riqueza de detalhes e de informações da mais alta relevância;

Para a minha satisfação, vejo dados que corroboram o nosso projeto de genética e que me motiva mais a levar projetos e novos conhecimentos aos nossos produtores,

Se com todas as limitações naturais os produtores holandeses conseguem esse nível de eficiência, o Brasil tem tudo para se tornar a maior potência mundial na pecuária de leite,

Parabéns professor e obrigado por compartilhar essa experiência !
ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/06/2018

Obrigado meu caro Sávio. Temos que olhar também para "fora da nossa porteira". Cada vez que tenho esta oportunidade aumenta minha convicção que somos o país que precisa assumir a vocação que tem para suprir o mundo de alimentos. Como dizia um saudoso gestor com o qual trabalhei, Dr. Vicente Luiz Dias Júnior", país como este é "bananeira que já deu cacho". Acreditemos e vamos em frente!
JOSE DA CUNHA JUNIOR

COROMANDEL - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 11/06/2018

Com muita satisfação vi sua reportagem feita na Holanda. Como sempre com maestria. Que lhe é peculiar.
Att
José da Cunha Júnior
ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/06/2018

Caro Zé Cunha, obrigado pela maestria. Realmente foi muito interessante a experiência que vivi. Abraços.
JOSÉ ANTÔNIO RIBEIRO

PRATA - MINAS GERAIS - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 11/06/2018

Caro Antônio Carlos ,você sempre tá frente do tempo. Quando assistente sempre te admirei pela qualidade das informações que nós trazia.
Sucesso sempre.
ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/06/2018

José Antônio, obrigado pelos comentários. É muito gratificante compartilhar, especialmente com quem é interessado. Abraço.
JOSE DOS REIS RDO

PATOS DE MINAS - MINAS GERAIS - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 11/06/2018

Parabéns, meu amigo e mestre pela competência e que sirva de exemplo para todos nós .
ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/06/2018

Obrigado amigo Zé dos Reis.
Minha intenção foi essa mesmo de mostrar coisas boas e, acima de tudo, o quanto podemos ainda fazer melhor. Abraço.
JOSE DOS REIS RDO

PATOS DE MINAS - MINAS GERAIS - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 11/06/2018

Parabéns, meu amigo e mestre.
FLÁVIA ELIAS GOMES DE DEUS

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/06/2018

Olá Professor Antônio Carlos, pois assim o considero, Professor, um excelente trabalho desenvolvido, Parabéns. É muito bom ver resultados como esses da Holanda, dentro da Produção Leiteira, ganho genético, produtividade, e mesmo em rentabilidade. Muito bom conhecer outras realidades e poder ver o quanto temos que caminhar dentro da nossa Produção Leiteira com tantas peculiaridades e desafios.
ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/06/2018

Querida Flávia, obrigado pelos comentários. Fico feliz de saber que as informações possam agregar. Isso mesmo, temos múltiplos e bons desafios. Trabalhos como o que você tem feito junto aos produtores estão contribuindo para superá-los. Abraço.
VANJA VIANA

EM 08/06/2018

É uma grande felicidade ver as pessoas que se esforçam de verdade receberem a merecida recompensa. Parabens pelo seu trabalho.
ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 08/06/2018

Obrigado Vanja pelo comentário e também pelo apoio para minha estada em Wageningen. Abraço.
ANDREIA

GOIÂNIA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/06/2018

Mto interessante!! Dados bastante relevantes! Parabéns pelo artigo e pela disposição em fazer este estágio na Holanda e compartilhar sua experiência.
ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 08/06/2018

Obrigado Andreia pelos comentários e estímulo. Abraço.