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Milchhof Johanning: conheça a fazenda alemã que vem inovando para sobreviver à crise europeia

POR GUILHERME RISTOW

LEITE NO MUNDO

EM 08/06/2016

6 MIN DE LEITURA

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Vivendo há quase 11 meses em uma fazenda de gado leiteiro no estado da Baixa Saxônia, cidade de Rehden, Alemanha, fui convidado a compartilhar com os leitores do MilkPoint um pouco da minha experiência e ponto de vista com relação as práticas realizadas pelo setor leiteiro alemão. Na fazenda, minhas atividades são variadas, indo desde a alimentação dos animais, ajuda na ordenha e manejo do silo, até o manejo reprodutivo, aplicação de medicamentos, casqueamento e atividades operacionais da fazenda. A propriedade produz 3.400 litros de leite por dia e no momento, 115 vacas estão em lactação, com média de 30 litros/vaca/dia. 



Todos nós sabemos das dificuldades encontradas pelos produtores da cadeia leiteira - tanto brasileira quanto internacional. Os custos para produzir um simples litro de leite são altos e vão desde produzir o alimento das vacas até os gastos com funcionários, assistência técnica veterinária, aquisição ou criação de animais para a reposição do plantel, custos operacionais da propriedade entre vários outros.

O litro do leite vendido diretamente do fazendeiro para a leiteria custa - nesse exato momento que escrevo - pífios € 0,19 (acredite ou não, o leite está mais barato que água), tornando a lucratividade da atividade extremamente baixa. Além do alto custo de produção, desde 15 de abril de 2015, acabaram as cotas que impunham limite de litros de leite produzidos por produtor, levando muitos do setor a adquirirem novas terras e mais animais em busca de novos mercados consumidores. A nova realidade levou o continente europeu a uma "superprodução", aumentando drasticamente a oferta de produtos lácteos, despencado os preços. A situação agravou-se com a diminuição da importação de leite em pó pela China, cujo mercado era expressivo para o escoamento do produto alemão.

Indo na contramão da realidade de muitos produtores que não conseguem ser eficientes, a fazenda Milchhof Johanning na qual eu trabalho – que possui 120 hectares 100% destinados à atividade leiteira - resolveu inovar e começou a comercializar o seu próprio leite não pasteurizado direto ao consumidor. Pelo valor de € 1,00 o litro, oferece um produto fresco, higiênico, barato e delicioso, tudo isso por um preço justo, tanto para quem compra, quanto para quem vende.

Em termos de novidade, a máquina, que é chamada de "Milchtankstelle” (e que admiro muito!) teve um investimento inicial de € 9.000. O valor é relativamente alto, porém, ela pôde ser paga rapidamente já que uma média de 60 litros por dia é vendida. A máquina é uma forma muito interessante de elevar a rentabilidade da fazenda e, sua utilização, seria muito positiva na cadeia leiteira brasileira, mas, resta saber se nossa legislação um dia permitiria a venda do leite não pasteurizado.

Muitos talvez estejam se perguntando como é feita a fiscalização desse leite. Ela simplesmente não acontece, pois cada produtor preza por sua dignidade e não seria do interesse deles vender algo estragado para a sua "própria vizinhança”, sendo assim, para a realidade alemã, a "Milchtankstelle" vai bem, obrigado!



Números da fazenda e estrutura física

A fazenda possui três galpões de animais:

1) vacas em lactação;
2) final da recria e vacas não lactentes;
3) maternidade, bezerreiro, animais desmamados, enfermaria e início da recria.

O galpão do leite aloja 120 vacas, as quais são ordenhadas três vezes ao dia pelo sistema robótico "Sac-Insentec” (marca holandesa) e possui também um semiconfinamento durante os meses que temos oferta de pasto (primavera e verão).

Os alimentos das vacas são servidos duas vezes ao dia. Eles são frescos e são fornecidos no período da manhã e no fim da tarde. A silagem fornecida é composta basicamente por cinco ingredientes: 63% grassilage (silagem de pastagem), 21% maissilage (silagem de milho), 9% lieschkolbenschrot (silagem de espiga do milho), 6% maismehl (grão úmido do milho) e 1% mineralfutter (mineral). A silagem de pasto usada na dieta total constitui-se de quatro espécies de pastagem, as quais se chamam Deutsches weidelgras (Lolium perenne - azevém), Wiesenschwingel (Festuca pratensis - festuca), Lieschgras (Phleum – capim timóteo) e Knaulgras (Dactylis glomerata – capim dos pomares ou dátilo), sendo a espécie predominante a “Deutsches Weidelgras” que possui características de rápido crescimento.







A recria é 100% realizada dentro da fazenda "Milchhof Johanning”. Nas duas primeiras semanas de vida os bezerros são alimentados exclusivamente com leite e depois passam a ocupar um bezerreiro coletivo com uma máquina automática de aleitamento, a qual mistura o sucedâneo à água, fornecendo leite ao animal até os 60 ou 70 dias de vida.



Durante o pré-desaleitamento os animais consomem alimento concentrado à vontade juntamente com o feno. A área da fazenda é dividida em pastos, trigo, centeio, triticale e milho. A preparação do solo, adubação, espalhamento dos dejetos dos animais no campo e o monitoramento são realizados pelos próprios funcionários. A única fase terceirizada é a da colheita.



O manejo reprodutivo é muito eficiente, o cio é frequentemente detectado com a ajuda do transpônder que contabiliza os picos de atividade do cio da vaca, indicando com relativa precisão a hora adequada para inseminar. O protocolo reprodutivo usado nos animais "problema" (que não são identificados nas atividades reprodutivas) é o OVYSINC, o qual apresenta resultados satisfatórios.

Prioriza-se a primeira inseminação entre os 15 e 18 meses de idade. As vacas parem o primeiro bezerro entre os 24 e 27 meses. A média de duração da lactação é de 305 dias, secando-as 60 dias antes do parto. Durante a secagem, o alimento total fornecido é prioritariamente fibroso, fazendo com que as vacas entrem na lactação com ECC (Escore de Condição Corporal) entre 3,5-4. Três vezes por ano, todas as vacas são casqueadas e a cada 2 meses, todo o rebanho passa pelo pedilúvio de desinfecção de cascos, fazendo com que haja uma baixa incidência de problemas relacionados aos membros locomotores.





A segunda inovação que mais me impressiona no sistema implementado é o funcionamento do robô. A instalação e início das atividades custaram em torno de € 120.000, dos quais 30% do valor foram pago com o auxílio de empréstimo do governo do estado, facilitando a aquisição pelos produtores.

O robô trabalha 24 horas por dia, ordenha duas vacas ao mesmo tempo e possui apenas um braço automático para a colocação das teteiras no animal. Um percentual de 90% das vacas é ordenhado sem a ajuda de funcionários, sendo que as vacas que não se dirigem a ordenha devem ser buscadas e encaminhadas para a mesma, demandando 3 horas de atividade diariamente - metade do tempo pela manhã e o restante no final do dia.

Há varias vantagens que o robô proporciona, entre elas, está o índice de detecção de mastite, o qual funciona com um valor formado por quatro parâmetros: condutividade do leite, presença de sangue, intervalo entre ordenhas e fluxo de leite. Todos os fatores estão relacionados com a possibilidade de alguma infecção no animal.

Outras vantagens ainda são a separação do leite fora dos padrões de qualidade (colostro, leite com medicamento e leite de vacas com mastite), diminuição da mão de obra, higiene e principalmente, melhora no aspecto do bem estar animal, haja vista que as vacas se dirigem para a ordenha por livre e espontânea vontade, diminuindo o estresse consideravelmente. O sistema que rege o robô está atrelado a uma porteira automática que dá acesso ao pasto (tornando o sistema um semiconfinamento nos meses quentes do ano). A porteira faz a leitura do transpônder na vaca, dando acesso a pastagem para as vacas que já foram ordenhadas, funcionando como um esquema de feed back positivo pelo leite produzido.

A terceira e última inovação que vale ressaltar foi a construção da própria leiteria da "Milchhof Johanning", evitando assim a venda do leite por preços injustos para as leiterias concorrentes. O litro de leite que seria vendido por € 0,19, agora é transformado em iogurte, queijo, leite pasteurizado e sorvete, sendo revendido com um alto valor agregado ao consumidor.

A realidade de muitos não permitiria o investimento em maquinário e infraestrutura para abrir sua própria leiteria, no entanto, aqui a realidade é essa, pois o preço do leite vem caindo e, para o produtor continuar competindo, ele deve encontrar saídas estratégicas para se manter no mercado. Caso contrário, apenas os produtores realmente eficientes sobreviverão.

GUILHERME RISTOW

veterinario formado no CAV-UDESC LAGES,atualmente trabalha em uma fazenda de gado leiteiro no estado de Canterbury-Nova Zelândia.

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EDEMILSON MARANGON

EM 14/02/2017

na europa o robo custa 120000 euros ,ou cerca de 480000 reais e aqui custa mais de um milhão de reais
DARCI OTTO

OUTRO - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/01/2017

Caro, Guilherme, muito bem elaborada sua matéria, gostei muito, nos da um parâmetro comparativo de nossa realidade, no que tange ao custo de produção, mercado, bem como, nos demais componentes que diariamente devemos estar atentos para que possamos continuar na atividade de produção de leite.
VERÔNICA KÜHLE

EM 18/08/2016

Oi, Guilherme! podemos publicar o teu artigo na página do Facebook do Consulado da Alemanha?
Por favor, envie sua concordância também para o uso das fotos, caso sejam da tua autoria, para o e-mail: info@porto-alegre.diplo.de (a/c Verônica)
Obrigada!

Verônica Kühle
GUILHERME RISTOW

CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 17/07/2016

Carlos, o concentrado e servido durante a ordenha, ele e composto de milho,trigo e centeio. Todo o alimento e produzido na fazenda (silagem e grãos). E sim, a alternativa de produzir na propria fazenda e uma otima forma de otimizar custos. Abracos
GUILHERME RISTOW

CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 17/07/2016

Prezado Ricardo, o leite eh vendido sem embalagem propria,basta voce trazer a sua propria garrafa de casa e enche-la com um litro de leite.
CARLOS VILLANOVA

PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 14/07/2016

Muito boa reportagem.

Quanto a alimentação do rebanho, qual é o uso de concentrados, os alimentos citados são todos produzidos na propriedade?
Vejo no uso de produtos produzidos na propriedade boa alternativa de eficiencia alimentar e economica.

Abraços!!
JACKSON ROBERTO RISTOW

JOINVILLE - SANTA CATARINA

EM 14/07/2016

Muito orgulho de você filho, parabéns pela iniciativa, e pelo seu compromisso e comprometimento junto a esta fazenda!
Graças a você pudemos, eu, sua mãe e seu irmão, estarmos aí em Abril/2016, vendo de perto o quanto esta fazenda leiteira investe em tecnologia, e da continuidade dos negócios através varias gerações.
Com certeza uma experiência valiosa, onde poderás ajudar em muitos aqui no Brasil no seu retorno, quanto à mecanização dos processos produtores do leite.
Um abraço e ate Agosto onde nos vemos pessoalmente no seu retorno!
RICARDO PEÇANHA PAEZ

TRÊS CORAÇÕES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/07/2016

Prezado Guilherme: poderia me informar em qual embalagem esse leite é comercializado.
Grato. Ricardo.
CELCIDINA PIRES GOMES

OEIRAS - LISBOA - PESQUISA/ENSINO

EM 14/07/2016

Fantástico !
EDEMILSON MARANGON

EM 14/07/2016

na europa o robo custa 120000 euros ,ou cerca de 480000 reais e aqui custa mais de um milhão de reais
ROELOF HERMANNES RABBERS

CASTRO - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/06/2016

Ótimo artigo, gostaria ter mais informações sobre MASTER RIND, me parece sistema muito interessante. Provavelmente a maioria dos machos leiteiros são abatidos após periodo de engorda, com quanto quilos são abatidos este animais e seu preço por quilo rende quanto?
GUILHERME RISTOW

CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/06/2016

Obrigado pelo feed back Gian,muito bom saber sobre a sua experiencia também!! O nosso intuito e sempre buscar novos conhecimentos e traze-los para o nosso dia a dia brasileiro. As autoridades alemãs autorizam a venda do leite não pasteurizado apenas na porteira da fazenda, fora dela apenas pasteurizado. Abraços!!
GIAN CARLO SEGANFREDO

CONCÓRDIA - SANTA CATARINA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/06/2016

Parabéns Guilherme pelo artigo, é muito importante viver uma realidade fora do país, tive também essa oportunidade quando morei por 14 meses em uma fazenda leiteira com 780 vacas em lactação nos EUA. Nesse período de estadia pude presenciar o lançamento da ordenha robótica, a qual como descreveste está em pleno funcionamento nesse estabelecimento. Quanto a alternativa que o produtor encontrou para comercializar seu produto, qual a avaliação das autoridades sanitárias alemãs? Acredito que esse sistema em nosso país ainda esteja longe em razão da qualidade de nosso leite ainda ser inferior, porém isso serve de modelo para acreditarmos que existem alternativas para a produção leiteira, primeiramente deveríamos tratar o leite como alimento o produzindo com responsabilidade.
Abraço.
GUILHERME RISTOW

CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 09/06/2016

"Newton, em relação aos bezerros,todos são vendidos com 2 semanas de idade (45 Kg),sendo os mesmos colostrados e alimentados com a mesma importância que se da a fêmea! Esse é um ponto muito interessante a se comentar e o qual não mencionei no material. Ha uma empresa chamada MASTER RIND, a qual funciona como uma intermediadora na comercialização de animais entre fazendas. A cada semana envia-se um e-mail ou telefonema para a central de atendimento deles solicitando a busca de animais, basta enviar as informações referentes a venda (numero de animais, numero do brinco,peso e estado sanitário) que os mesmo vem ate a propriedade busca-los.Sempre ha demanda e desde que cheguei aqui ,ha 11 meses atras, 100% dos machos foram vendidos. O preço de venda é estipulado de acordo com o preço da semana . Nesse exato momento o macho sai por 120,00 euros e a bezerra por 30,00 euros. Os machos vendidos serão posteriormente revendidos para fazendas de engorda. Ainda sobre a Master Rind, a cada 2 ou 3 meses ela organiza leiloes de animais de rebanhos comerciais, ajudando o produtor que tem estrutura e espaço a vender categorias animais diferentes,entre elas vacas lactentes,novilhas e animais desmamados.
GUILHERME RISTOW

CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 09/06/2016

Humberto, acredito que não haja produtos similares no mercado brasileiro,haja vista que a comercialização do produto não pasteurizado não é permitida. E o diferencial competitivo seria, o valor o qual é pago pelo produto, dispensa mão de obra, leva-se 20 minutos para deixar o tanque pronto com o leite fresco do dia,extremamente higiênica e de fácil limpeza,manutenção 0,baixo consumo de energia e a criação de laços entre o produtor e o consumidor. Abracos
CELCIDINA PIRES GOMES

OEIRAS - LISBOA - PESQUISA/ENSINO

EM 09/06/2016

Muito bem feita esta reportagem ! Parabéns ! gostei do artigo !
RODRIGO LINS GOMES DE ARRUDA

NOVA ALVORADA DO SUL - MATO GROSSO DO SUL

EM 09/06/2016

Muito boa reportagem.Parabéns.
IRINALDO DE LIMA

PRESIDENTE PRUDENTE - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/06/2016

Bom dia Guilherme...em primeiro lugar, parabéns pela iniciativa de ir conhecer a realidade de uma leiteria no continente europeu. Olhando o preço de 0,19 euros por litro de leite com um sistema de produção caro, vai ser dificil para os produtores continuar produzindo e comercializando a produção com os laticinio na Alemanha. A realidade brasileira hoje é bem melhor ficando 0,37 euros aqui em SP. Os produtores brasileiros precisam ficar atentos ao cenário mundial e buscar sempre a máxima eficiência. Nem sempre produzir mais resolve o problema, no caso da europa estamos vendo exatamente o contrário.
NEWTON JODAS GONÇALVES

TAPEJARA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 09/06/2016

Em relação aos bezerros,qual o destino?
ISAIAS SANTIAGO SIQUEIRA

GRAMADO - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/06/2016

Interessante saber que, como poderia ser bem mais simples se as autoridades sanitárias liberassem este sistema aqui no Brasil. Haveria mais interesse no comercio e vendas deste nobre produto. É realmente frustrante produzir leite.