Nutrição e Sobrevivência Embrionária
A dieta pode afetar a sobrevivência embrionária de varias maneiras. As deficiências nutricionais podem afetar diversos aspectos da reprodução, inclusive sobrevivência embrionária. Além disso, constituintes específicos da dieta podem ter efeito direto sobre a vaca ou o embrião, promovendo ou inibindo a sobrevida embrionária.
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A dieta pode afetar a sobrevivência embrionária de varias maneiras. As deficiências nutricionais podem afetar diversos aspectos da reprodução, inclusive sobrevivência embrionária. Além disso, constituintes específicos da dieta podem ter efeito direto sobre a vaca ou o embrião, promovendo ou inibindo a sobrevida embrionária.
Balanço energético
Assim como outros mamíferos, a vaca desenvolveu mecanismos para limitar a reprodução durante períodos de déficit nutricional (Lucy, 2003). Embora a dieta fornecida a vacas leiteiras de alta produção seja geralmente de alta qualidade, as demandas nutricionais da lactação podem resultar em uma situação em que a vaca não consegue ingerir alimento suficiente para satisfazer plenamente as necessidades de energia da lactação. Como resultado, acaba mobilizando reservas e perde condição corporal. Sabe-se que vacas em má condição corporal ou em balanço energético negativo não retomam a ciclicidade tão rapidamente após o parto (Lucy, 2003; Diskin et al., 2006).
A sobrevivência embrionária também pode ser comprometida quando as vacas estão em déficit de energia antes da IA. Recentemente, foi demonstrado que a probabilidade de concepção ao primeiro serviço aumenta à medida que aumenta o balanço de energia nos primeiros 28 dias depois do parto (Patton et al., 2006). Este efeito da energia sobre a sobrevivência embrionária pode refletir, em parte, alteração da função folicular levando à produção de ovócitos de baixa competência para a formação de embriões com alto potencial de desenvolvimento (Snijders et al., 2000).
Com base nestas observações, o manejo nutricional das vacas deve evitar grandes variações de peso corporal e perda de condição durante a fase inicial da lactação. Existe, entretanto, uma possível conseqüência negativa de se manter as vacas em boa condição corporal. Um estudo recente indica que a proporção de bezerros machos aumenta quando a variação no escore de condição corporal entre o parto e a concepção é mínima (Roche et al., 2006). Foi estimado que a porcentagem de bezerros machos passou de 54% para vacas que perderam uma unidade de escore de condição corporal para 68% para vacas que não apresentaram redução no ECC. A explicação pode estar no fato de que altos teores de glicose são tóxicos para embriões do sexo feminino (Kimura et al., 2005).
Nutracêuticos
O termo nutracêutico se refere a produtos químicos específicos da dieta que têm efeitos sobre a saúde e fisiologia. Por exemplo, a adição de gordura à dieta pode elevar o teor de energia, que é um efeito nutricional, mas a adição de ácidos graxos específicos pode regular a fisiologia de maneira a beneficiar a saúde.
O uso da gordura como exemplo de nutracêutico é adequado, pois muitas pesquisas avaliaram o fornecimento de dietas ricas em ácidos graxos insaturados modificados para escapar à degradação ruminal e aumentar a fertilidade. Foram identificados ácidos graxos insaturados específicos que podem reduzir a síntese de prostaglandinas no útero (Mattos et al., 2000) e estas moléculas podem atuar inibindo a luteólise e promovendo a sobrevida embrionária.
Diversos estudos indicam que o fornecimento de dietas ricas em ácidos graxos insaturados pode aumentar a taxa de concepção. Usando um total de 121 vacas, Ambrose et al. (2006) observaram que o fornecimento de dieta suplementada com linhaça (rica no ácido graxo insaturado - ácido α-linolênico) tendeu (P<0,07) a resultar em taxas mais elevadas de taxa de concepção ao primeiro serviço se comparado a dieta suplementada com sementes de girassol (com baixo teor de ácido α-linolênico).
As taxas de concepção aos 32 dias depois da IA foram 48% para o grupo que recebeu linhaça e 32% para o grupo alimentado com óleo de semente de girassol. A perda de prenhez entre o dia 32 e o parto foi mais baixa (P<0,05) nas vacas alimentadas com linhaça (10% vs 27%). Não houve efeito do tratamento sobre a taxa de concepção no segundo serviço. Em outro estudo na Califórnia usando 397 vacas, Juchem et al. (2004) observaram que o grupo alimentado com uma dieta contendo 2% (em base de matéria seca) de sais de cálcio de uma mistura de gorduras rica em ácido linolênico e ácidos monoenóicos tendeu (P<0,09) a maior taxa de prenhez ao primeiro serviço (34%) que as vacas alimentadas com uma dieta contendo 2% de sais de cálcio de óleo de palma (26%).
Existe também interesse em promover elevação das taxas de concepção pela utilização de formas mais biodisponíveis de selênio (Silvestre et al., 2006) e pela administração de cobre e selênio em formas de liberação lenta por via intra-ruminal (Black e French, 2004).
Promoção da sanidade e bem estar animal
Para uma condição sanitária ideal, as vacas devem ser submetidas a condições ideais de manejo. Muitas doenças estão associadas à redução da taxa de concepção ou maior perda embrionária, inclusive a mastite (Risco et al., 1999; Chebel et al., 2004; Jousan et al., 2005), a febre do leite (Chebel et al., 2004), retenção de placenta (Chebel et al., 2004), claudicação (Melendez et al., 2003) e endometrite (McDougall et al., 2006). Existem evidências de que o medo de seres humanos também possa afetar negativamente as taxas de concepção (Hemsworth et al., 2000).
Uma questão ainda em aberto está relacionada ao uso de pesticidas e outros produtos químicos na fazenda e possíveis efeitos sobre a sobrevida embrionária. Sabe-se que muitos produtos químicos interferem com os processos reprodutivos e são tóxicos para ovócitos e embriões (MeEvoy et al., 2001; Brevini et al., 2005).
Estes dados mostram que a reprodução é um processo complexo e delicado, e que todas as ações dentro da fazenda podem afetar a eficiência reprodutiva.
Material escrito por:
Ricarda Maria dos Santos
Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia. Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.
Acessar todos os materiaisJosé Luiz Moraes Vasconcelos
Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu
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BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS
EM 08/08/2016
Não há milagre:DEDICAÇÃO, CONHECIMENTO E ATUALIZAÇÃO/INOVAÇÃO, não faz
mal a ninguém.O Gado e o BOLSO agradecem.

SANTA HELENA - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 06/05/2016

ARAGUAÍNA - TOCANTINS - ESTUDANTE
EM 08/10/2007

POPULINA - SÃO PAULO
EM 08/10/2007

UBERABA - MINAS GERAIS
EM 02/10/2007
Compreender os efeitos de uma boa nutrição para com os bons índices reprodutivos sem dúvida se faz necessário e acredito que quanto mais elucidações práticas na área melhores serão os resultados.
Muito interessante o assunto que se refere às oscilações do EEC seus efeitos na determinação de nascimentos de machos. Confesso que não havia conhecimento da minha parte por este fator.
Novamente meus parabéns à dupla.
Atenciosamente.