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Melhorando a reprodução de vacas leiteiras e mantendo alta produção de leite - Parte 1

POR RICARDA MARIA DOS SANTOS

E JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS E RICARDA MARIA DOS SANTOS

EM 03/07/2018

10 MIN DE LEITURA

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Este texto é a parte da palestra apresentada pelo Dr. José Eduardo Santos, da Universidade da Florida, no XXII Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, realizado em Uberlândia de 22 e 23 de março de 2018.

Resumo:

A seleção genética com ênfase somente em produção de leite e dos componentes do leite até o meio dos anos 1990 foi responsabilizada como um grande componente do declínio histórico na fertilidade do gado leiteiro nos EUA e em outras partes do mundo. Sabe-se que as características reprodutivas são negativamente correlacionadas com as características de produção, e a ênfase em produção de leite e componentes lácteos provavelmente aumentou o pool de genes que são deletérios para a reprodução adequada.

Dados epidemiológicos resumidos por Butler (1998) demonstraram claramente a relação fenotípica inversa entre a produção de leite e a prenhez por inseminação artificial (IA) em rebanhos leiteiros no estado de Nova York. No entanto, os esforços combinados na gestão, nutrição, saúde no periparto, manejo reprodutivo, e, mais recentemente, a seleção genética para a saúde e fertilidade mudaram esta imagem de declínio contínuo no desempenho reprodutivo dos rebanhos leiteiros nos EUA. De fato, na raça Holandesa, que compreende mais de 90% de todo o gado leiteiro nos EUA, o intervalo médio de parto diminuiu em média de 2,7 dias por ano nos últimos 10 anos, de aproximadamente 423 dias em 2005 para 401 dias em 2014. Tal redução no intervalo de parto significa que os dias em aberto (intervalo do parto a concepção) para o rebanho leiteiro dos EUA está agora em aproximadamente 123 dias, ao mesmo tempo que a produção de leite média continua a aumentar em cerca de 1,3% por ano, sem qualquer sinal de redução do ritmo de crescimento.

Reprodução tem grande impacto econômico na fazenda leiteira

A reprodução tem numerosos impactos na economia de uma fazenda leiteira, como a alteração das decisões sobre o descarte para melhorar o ganho genético e a produção de leite. Na maioria das fazendas nos EUA, a venda de leite representa quase 90% do rendimento bruto (Santos et al., 2010); portanto, não é uma surpresa que a maioria dos produtores de leite dediquem atenção para melhorar o desempenho reprodutivo, porque eles entendem que a gestação no momento adequado influencia a produção de leite durante a vida produtiva da vaca.

A premissa geral é que reduzir ao intervalo de parto, melhorando o desempenho reprodutivo reduzirá os dias médios em lactação (DEL) do rebanho e aumentará a proporção de vacas na fase mais produtiva da curva de lactação, reduzindo assim o número de vacas com lactação avançada quando a produção é tipicamente menor. Esta estratégia torna-se ainda mais importante quando a persistência da lactação é baixa, como a observada em raças menos selecionadas de gado leiteiro.

Ribeiro et al. (2012) ilustraram a importância de encurtar o intervalo de parto, reduzindo os dias abertos em vacas leiteiras de alta produção. Os autores mostraram que a renda sobre os custos da alimentação declina como aumento do DEL, e esta resposta era independente da produção de leite por vaca e cenários de custo de alimentação por kg de matéria seca, a menos que grandes mudanças na persistência de lactação ocorresse. Por exemplo, para um rebanho que produza 12.500 kg de leite/vaca em 305 dias de lactação (média de 41 kg de leite/vaca/dia), os autores mostraram que a redução do intervalo de parto de 440 a 377 dias representaria um aumento de 7% na renda sobre o custo da alimentação e adicional de 498 kg de leite por vaca por ano (Ribeiro et al., 2012).

Quando os autores modelaram a mesma mudança no intervalo de parto em um rebanho com média de 9.000 kg de leite/vaca em 305 dias de lactação (média de 29,5 kg de leite/vaca/dia), a redução nos mesmos 63 dias de intervalo de parto representaria um aumento de 8% nos rendimentos sobre o custo de alimentação e um adicional de 366 kg de leite/vaca/ano. É interessante notar que o impacto da reprodução sobre a influência na produção de leite por dia de intervalo de parto depende da persistência da lactação. Vacas menos produtivas e menos persistentes sofrem mais dramaticamente em termos de perda econômica se a gestação não for obtida no período de tempo adequado pós-parto. Assim, quanto menor persistência da lactação maior é o incremento do leite diário com melhorias no desempenho reprodutivo.

A reprodução também influencia as decisões de descarte e reposição. Rebanhos com melhor desempenho reprodutivo têm maior flexibilidade nessas decisões por causa do aumento da disponibilidade de novilhas de reposição e vacas gestantes. Tais alterações permitem que os gestores tomem decisões programadas baseadas em aspectos econômicos e não em considerações biológicas. A ineficiência reprodutiva aumenta o custo por gestação, aumenta a retenção de vacas de baixa produção por estarem gestante, e reduz o número de reposições, o que diminui os ganhos genéticos do rebanho. Manter a mesma pressão de reposição quando a reprodução é pobre torna-se, em muitos casos, dispendioso e arriscado, uma vez que exige a compra de novilhas que podem ser de menor mérito genético e resulta em rupturas na biossegurança da fazenda.

Dado um tipo específico de vaca leiteira e sistema de produção, há um intervalo ideal do parto a concepção em que a rentabilidade é maximizada. As vacas não gestantes além deste período ótimo tornam-se economicamente menos atrativas. O custo de um dia aberto varia de $0 no dia ótimo pós-parto na concepção a $6 dólares dependendo das circunstâncias (de Vries, 2011). Portanto, a maioria dos produtores visa aproveitar esta janela ideal de quando as vacas devem ficar gestantes. Pois, além do custo de um dia aberto, há um valor substancial da nova gestação. Por outro lado, a perda de gestação, que normalmente afeta 12 a 18% das gestações após 32 dias (Santos et al., 2004), é extremamente cara, e segue padrões semelhantes e aumenta com a progressão da lactação ou estágio de gestação. O valor médio de uma gestação nova para uma vaca da Holandesa nos Estados Unidos foi estimado em $278 dólares, e o custo de uma perda da gestação em $555 (de Vries, 2006).

Condição da reprodução dos rebanhos leiteiros dos EUA

Historicamente, a maioria dos artigos da literatura descrevem o desempenho reprodutivo em vacas leiteiras lactantes como declinando nos EUA. Na verdade, Butler (1998) demonstrou a relação fenotípica inversa entre a produção de leite e prenhez por IA (P/IA) em rebanhos leiteiros no estado de Nova York de 1951 a 1996. Ao mesmo tempo, o desempenho reprodutivo em novilhas em crescimento não foi relatado como declinando, indicando que os possíveis mecanismos que levam a menor fertilidade, são observados somente quando a lactação é iniciada. Relatórios do departamento de agricultura dos Estados Unidos indicam que tanto a fertilidade da filha fenotípica e genotípica atingiram o ponto mais baixo no início dos anos 2000 e, desde então, uma tendência ascendente começou, com ganhos fenotípicos observados muito mais rápido do que os ganhos genotípicos, que não é surpreendente dado a baixa herdabilidade (somente 4%) para a característica fertilidade da filha. Na verdade, a fertilidade da filha fenotípica hoje é compatível com valores observados na década de 1980 (Figura 1a).

Figura 1. Tendências para a fertilidade da filha representada pela taxa de prenhez da filha (DPR) Fenotípica (A) e Genética (B) e produção de leite em libras por ano de acordo com o ano de nascimento. O eixo Y esquerdo representa DPR calculado como a proporção (%) de vacas elegíveis gestantes a cada 21 dias após 60 dias em lactação. O eixo Y direito representa a produção de leite em libras por ano. É claro que a fertilidade da filha melhorou começando no meio dos anos 2000 e o ganho fenotípico foi mais rápido do que o ganho genótipo.

A medida chave utilizada para avaliar a reprodução nos EUA é a taxa de prenhez. Taxa de prenhez é a taxa em que as vacas elegíveis ficam prenhas e é tipicamente medido em intervalos de 21 dias. Uma vaca elegível é uma vaca que saiu do período voluntário de espera, ela não está prenha, e o produtor quer fazê-la ficar gestante. Por exemplo, imagine que o período voluntário de espera para um rebanho de 100 vacas é de 50 em lactação. A cada 21 dias, uma vaca não-prenha é esperada para retornar ao estro e pode ser potencialmente inseminada. Se ela mostra estro e é inseminada é uma função de sua biologia, do ambiente, e da capacidade do produtor para detectar a vaca a ser inseminada.

Uma vaca que não está gestante aos 150 dias pós-parto teve vários intervalos de 21 dias e contribuiu várias vezes com o cálculo da taxa de prenhez. Agora, vamos supor que este rebanho insemina 65% das vacas elegíveis nos primeiros 21 dias após o período voluntário de espera, e P/IA nesta janela do tempo é de 38%. Depois disso, são inseminadas de 45 a 55% das vacas elegíveis com P/IA entre 30 e 33% (tabela 1). Este rebanho exemplo tem uma taxa média de inseminação (estimativa para a taxa de detecção de estro) de 53,4%, média P/IA de 32,5% e média de taxa de prenhez em 21 dias de 17,3%. Estes resultados representam os valores médios para a indústria leiteiras dos EUA hoje. No entanto, alguns milhares de rebanhos de hoje, atingem taxas de inseminação de 65 a 70%, P/IA de 45 a 50%, e mantêm taxa de prenhez em 21 dias acima de 28%. De fato, os rebanhos com a maior taxa de prenhez em 21 dias também são rebanhos com maior produção de leite por vaca por ano (Figura 2).

Tabela 1. Exemplo de desempenho reprodutivo de um rebanho leiteiro típico.

Figura 2. Média do rebanho (RHA) para produção de leite (kg/vaca/ano) e taxa de prenhez em 21 dias (21-d PR) para rebanhos nos EUA categorizados de acordo com a taxa de prenhez em 21 dias. Rebanhos com maior 21-d PR também têm maior produção de leite. Fonte DRMS, Dairy Metrics, EUA.

Embora o cálculo da taxa de prenhez seja baseado na proporção de todas as gestações em potencial obtidos em intervalos específicos pós-parto, como representado na tabela 1, nos rebanhos dos EUA, usa-se a seguinte fórmula para calcular a taxa de prenhez:

•Taxa de prenhez = 21/(dias em aberto – período voluntário de espera + 11)     

Para este cálculo, o período voluntário de espera é fixado em 60 dias em lactação e o fator de + 11 na fórmula ajusta-se ao dia médio do ciclo de 21 dias de modo que as vacas que concebem durante o primeiro ciclo recebam o crédito de 100% na média. Usando esta fórmula, que é baseada em dias abertos (intervalo de parto a concepção), pode-se ver quanto progresso tem sido feito nos últimos anos (Figura 3).

De fato, o intervalo de parto declinou de 423 dias em 2005 a 400 dias em 2015 ao mesmo tempo que a prenhez na primeira IA subiu de 31 a 34% na raça Holandesa (Figura 3). Foram observadas alterações positivas semelhantes em todas as outras raças leiteiras. Por conseguinte, foram realizados grandes progressos na reprodução da vaca leiteira, concomitantes com incrementos constantes na produção de leite, de 120 kg/vaca/ano. As mudanças observadas nos últimos 10 anos representam um aumento de 13,2% na produção por vaca nos EUA. Outros países detectaram o mesmo padrão de incremento na produção por vaca. Um exemplo é a Austrália, tipicamente conhecida por um sistema de produção fortemente dependente de pastagens com suplementação. A produção por vaca na Austrália subiu 9,4% no mesmo período.

Figura 3. Tendências no desempenho reprodutivo da raça Holandesa nos EUA. Dados extraídos do Council on Dairy Cattle Breeding. Inclui 9,3 milhões registros de intervalo de parto e 16,8 milhões registros para a prenhez na primeira inseminação entre 2005 e 2015.

Figura 4. Mudanças na produção de leite por vaca por ano nos EUA (A) e Austrália (B) de 2007 a 2016. Fontes: Departamento de Agricultura dos EUA e Laticínios da Austrália. As mudanças observadas nos últimos 10 anos representam um aumento de 13,2% na produção por vaca nos EUA e o aumento de 9,4% na produção por vaca na Austrália.

RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu

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ALUISIO PUGLIA DE AZEVEDO

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Parabens pelas informa;oes,agradecido
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