As decisões de descarte são tão importantes quanto as decisões de manutenção das vacas no rebanho. Por quanto tempo uma vaca deve permanecer em um rebanho leiteiro é uma questão complicada, sem uma resposta direta. Algumas pessoas argumentam que aumentar a longevidade do rebanho é algo positivo, pois pensam que a longevidade das vacas é resultado de vacas mais saudáveis, e isso reflete um melhor bem-estar animal, menor impacto ambiental (criar menos animais de reposição pode reduzir emissões de metano por quilo de leite) e pode-se melhorar a economia pela manutenção das vacas por mais tempo.
No entanto, se a avaliação for um pouco mais a fundo, esse raciocínio pode estar errado. Ao comparar rebanhos reais, há uma variedade de situações que podem explicar por que não existe uma taxa de descarte única para todas as fazendas leiteiras. Existem rebanhos com taxas de descarte baixas, com ótimo bem-estar e excelente saúde. Eles vendem novilhas ou aumentam o rebanho. Mas também há rebanhos com taxas de descarte baixas porque precisam manter vacas. Essas vacas podem ter alta contagem de células somáticas, serem vacas com mastite ou vacas com problemas de casco, e isso impacta o desempenho geral e a fertilidade do rebanho.
Por outro lado, alta taxa de descarte também pode refletir um bom manejo do rebanho. Existem rebanhos com alta taxa de descarte que conseguem manter essa taxa devido à boa saúde e boa fertilidade. Eles têm a oferta de animais de reposição suficiente.
Evite decisões precipitadas de descarte
Nos EUA, o tempo médio de permanência de uma vaca leiteira no rebanho é de 2,5 lactações. Nos últimos 10 anos, muitos avanços foram feitos nos rebanhos leiteiros: os animais estão produzindo mais leite com melhor composição, a fertilidade aumentou e a contagem de células somáticas diminuiu. Apesar dessas mudanças, a taxa de renovação do rebanho permaneceu relativamente constante. Isso ocorre, provavelmente, porque os produtores focam na manutenção e não necessariamente no descarte das vacas.
O processo e a decisão de descarte são extremamente variáveis. Poucas fazendas utilizam banco de dados bem-organizados e de alta qualidade para ajudá-las a selecionar as vacas cedo o suficiente durante a lactação para decidir qual vaca deve sair do rebanho. Essas vacas selecionadas no início da lactação para serem descartadas devem ser marcadas para que não entrem no manejo reprodutivo e não sejam inseminadas durante a lactação. Muitas fazendas colocam foco demais no histórico de produção imediato da vaca em vez de sua produção ao longo da vida. Se eles têm uma novilha e espaço, eles tomam a decisão naquele dia, sem muito planejamento prévio.
Isso pode levar a decisões precipitadas de descarte que talvez não sejam a melhor escolha para o rebanho como um todo. Isso foi confirmado em uma pesquisa não publicada com mais de 60 rebanhos de leite de Wisconsin. Dr. Cook e colaboradores descobriram que 29% das vacas descartadas por razões de produção eram melhores produtoras do que metade das vacas em seus próprios rebanhos.
Fator econômico x decisões de descarte
O fator econômico deve ser predominante na tomada de decisão de manter ou descartar as vacas. Quando se analisa decisões de descarte tenta-se substituir uma vaca inferior, e isso representa uma oportunidade de melhorar o rebanho, porém isso depende do momento. Se for feito tarde demais, custará dinheiro ao rebanho. Se for prematuro, também custará dinheiro ao rebanho.
Deve-se considerar o valor previsto dos animais que estão entrando no rebanho e dos que podem ser descartados. Se determinado animal for substituído, qual seria a melhoria na produção de leite? E quanto à melhoria na genética do rebanho? Uma consideração adicional é a receita gerada pela vaca ao ser vendida.
Quando se tem uma novilha parindo em um rebanho e o valor previsto dela é maior do que o da vaca de menor valor no rebanho, substitua essa vaca. Se o valor da novilha não for maior do que o das vacas, a novilha deve ir embora.
Alguns pesquisadores defendem estratégias de descarte mais agressivas. Existe o conceito de que a vaca que está saindo precisa ter ‘se pago’. A decisão de substituir a vaca nunca deve levar em conta se ela se pagou ou não. Isso é uma lógica falha. Esse tipo de pensamento pode funcionar para seus animais médios e acima da média, mas vacas de menor produção, aquelas que deveriam ser descartadas mais cedo, acabarão permanecendo no rebanho por mais tempo.
Deve-se também considerar que vacas mais velhas têm maior risco de complicações de saúde, além de um valor de mercado mais baixo por quilo no abate. O valor de residual de uma vaca deve influenciar a decisão de descarte.
A maioria das pessoas assume que uma taxa de reposição baixa significa maior lucratividade. Isso seria verdade se todas as vacas fossem iguais. Se você pensar que todas as vacas fossem saudáveis e iguais em produção e valor de mercado, e o único motivo para reposição fosse a mortalidade, uma taxa de reposição mais baixa seria melhor. Mas também sabemos que as vacas não são iguais em valor e produtividade.
Pode-se cair na armadilha de tentar atingir metas de longevidade, produtividade ou taxa de reposição; no entanto, isso pode fazer com que vacas de baixo desempenho fiquem no rebanho por mais tempo. As decisões de descarte devem ser bem fundamentadas e adaptadas a cada rebanho.
Não tenha medo de substituir animais de baixa produção, mesmo animais na primeira lactação, se você tiver novilhas disponíveis para colocar no lugar. Nunca restrinja a reposição apenas para tentar atingir uma meta.
Este texto é parte da publicação da Andrea Bedford, na revista Dairy Herd Management, em 19/11/2025.