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Alta produção de leite é compatível com boa reprodução? Parte 2

POR RICARDA MARIA DOS SANTOS

E JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS E RICARDA MARIA DOS SANTOS

EM 18/05/2012

8 MIN DE LEITURA

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Este texto é parte da palestra apresentada por Stephen LeBlanc (University of Guelph, Canada), no XVI Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, realizado em Uberlândia de 15 e 16 de março de 2012.

Mensuração da associação entre produção de leite e desempenho reprodutivo

Medidas de produção

A produção de leite é mensurada de várias maneiras, cada uma com pontos fracos e fortes. A produção de leite no início da lactação, baseada na produção de leite no primeiro dia de avaliação ou na produção ao longo de 60 dias, tem a vantagem de incluir número maior de animais na análise, mas pode não ser capaz de prever os resultados da lactação completa com precisão. A produção de leite de 60 dias pode ser usada para medir a produção antes do início da reprodução, evitando a interferência de fatores de confundimento relacionados à reprodução, como o descarte ou a falha na concepção. A produção total de leite de 305 dias ajustada para parição é uma medida mais precisa de produção, mas a limitação da análise ao desempenho reprodutivo de vacas com registros completos de lactação introduz um viés devido à exclusão da informação referente a vacas removidas até os 304 dias de lactação (DIM), por motivos de baixa produção ou baixo desempenho reprodutivo.

A produção de leite por vaca aumentou aproximadamente 2% ao ano em muitos países com sistemas distintos de produção. Uma vaca criada a pasto que produz 8.000 litros de leite em 305 dias pode ser considerada de alta produção ou sob risco de necessidades metabólicas excessivas, enquanto uma vaca com o mesmo nível de produção criada em sistema intensivo pode ser considerada média em um rebanho e candidata ao descarte por baixa produção em outro rebanho da mesma região.

Medidas de reprodução

Medidas fenotípicas de fertilidade devem refletir a capacidade da vaca de emprenhar em um intervalo pós-parto ideal do ponto de vista econômico. Apesar das dificuldades envolvidas, é importante diferenciar a função fisiológica e capacidade de emprenhar de problemas de manejo como confinamento, piso escorregadio, grande número de vacas por tratador ou falta de observação, que podem fazer com que animais férteis deixem de expressar os principais sinais de estro, resultando na ausência de detecção ou em baixa probabilidade de prenhez à inseminação. Os métodos tradicionais de mensuração da reprodução em vacas leiteiras se baseiam em medidas indiretas ou tendenciosas, como o intervalo até a primeira inseminação, as taxas de não-retorno e o intervalo entre partos.

O intervalo até a primeira inseminação pode sofrer grande interferência do manejo do rebanho, principalmente da baixa taxa de detecção de cio em muitos deles (a taxa média de detecção de cio nos rebanhos leiteiros canadenses é de aproximadamente 35% por período de 21 dias [11]), mas também das decisões referentes ao momento de inseminação de parte ou de todas as vacas do rebanho. Quando não se detecta estro em uma vaca até o dia 100 da lactação, isso significa que ela não entrou em estro até então ou que, apesar de vários ciclos estrais e ovulações, aquele foi o primeiro cio detectado?

O risco de concepção (RC) é a probabilidade de que uma vaca inseminada receba diagnóstico positivo de prenhez naquele serviço, geralmente por exame veterinário. O estágio em que a prenhez é diagnosticada é importante para a comparação entre estudos, pois a taxa de perda de prenhez é alta entre os 28 e os 50 dias após a inseminação [12]. Alguns relatos empregaram o risco de concepção como medida de fertilidade, o que, na melhor das hipóteses, reflete apenas parcialmente o processo de obtenção de prenhez em vacas vazias, uma vez que não leva em conta as vacas que não foram inseminadas, nem o momento da inseminação. O risco de concepção reflete a eficiência do uso do sêmen e pode refletir a acuidade da detecção de cio, a técnica de inseminação ou a adesão ao protocolo de sincronização, mas não é necessariamente uma medida da fertilidade básica das vacas.

A taxa de não-retorno é uma superestimativa grosseira da proporção real de vacas prenhes, mas é muito acessível, fácil de medir e não sofre influência do intervalo entre partos, uma vez que não depende de um parto subsequente. Surpreende que inferências baseadas em dados claramente incorretos tenham sido feitas por tanto tempo. A análise da TC com base em partos subsequentes elimina o viés introduzido pela suposição de prenhez, mas introduz um novo viés quando somente as vacas que levam a gestação a termo são incluídas.

Tanto o intervalo entre partos quanto o "tempo de serviço" (número de dias entre o parto e a concepção) são muito influenciados pela inclusão apenas das vacas que emprenham. É difícil justificar o uso do intervalo entre partos como medida do desempenho reprodutivo se todas as vacas que não emprenham são excluídas. O intervalo entre partos é influenciado também pela consideração apenas de animais multíparos. A probabilidade de descarte de vacas prenhes é baixa em todos os níveis de produção [15], mas as vacas de alta produção tendem a ser inseminadas mais vezes e por mais tempo do que as de baixa produção [16]. O descarte mais precoce de vacas de baixa produção que não emprenham rapidamente gera um conjunto de dados que parece conter um número maior de vacas de alta produção com maior número de inseminações e maior intervalo entre partos.

A melhor medida isolada de desempenho reprodutivo geral de um rebanho é a taxa de prenhez (TP), que mede a probabilidade de prenhez das vacas vazias por unidade de tempo [11]. Uma vez que o intervalo entre estros em vacas dura em média de 21 dias, a taxa de prenhez costuma ser calculada a cada 21 dias. Um valor de 15% deve ser interpretado como "em média, 15% das vacas vazias com expectativa de prenhez emprenharam no período de 21 dias". Além disso, a TP permite a comparação entre rebanhos que adotam a inseminação artificial e rebanhos que adotam a monta natural (desde que a data de passagem para a monta natural exclusiva seja documentada). A maior vantagem do emprego da taxa de prenhez de 21 dias é a inclusão das vacas vazias que, enquanto permanecem no rebanho, acrescentam tempo ao denominador, durante o qual a obtenção de prenhez é possível.

Métodos de análise da associação

Os parâmetros de desempenho reprodutivo dotados de valor econômico incluem a ocorrência de prenhez (ou o descarte devido à ausência de prenhez), o intervalo entre o parto e a prenhez subsequente e, em menor grau, o número de inseminações necessárias para obter a prenhez [14]. A prenhez é um evento dicótomo, o tempo de serviço não costuma ser bem distribuído e o número de inseminações nunca segue uma distribuição normal.

O método correto para análise de dados individuais de prenhez é a análise multivariada de sobrevivência [5, 13, 14, 17]. A análise de sobrevivência é uma metodologia estatística que mede o tempo decorrido até um determinado evento, considerando os sujeitos em que o evento de interesse não se verifica, ou que são perdidos durante o período de acompanhamento, chamados de observações censuradas. A análise de sobrevivência pode corrigir parte dos efeitos de confundimento das decisões de atrasar ou interromper a inseminação e de descarte. Ao contrário dos métodos de regressão padrão, informações de todas as vacas podem ser usadas, independente do status de inseminação ou prenhez no final do estudo.

A avaliação do impacto de um fator sobre o desempenho reprodutivo pode sofrer grande interferência de fatores individuais ou de rebanho que afetam a reprodução, como idade da vaca, estação do ano, doenças, nutrição, condição corporal, ambiente, manejo do rebanho, intensidade e acuidade de detecção de cio e uso de programas de manejo reprodutivo. Em muitos estudos, a maioria desses fatores não foi mensurada. A maior parte das pesquisas voltadas para a associação entre produção e reprodução emprega em um delineamento experimental transversal ou se baseia em dados longitudinais e retrospectivos. O ponto fraco de estudos observacionais retrospectivos é o uso de dados do histórico, que podem ser confundidos pela diferença entre a alta taxa de descarte de animais de baixa produção e a baixa taxa de descarte de vacas prenhes, independente do nível de produção [16].

Referências
1. Nebel RL, McGillard ML. Interactions of high milk yield and reproductive performance in dairy cows. J Dairy Sci. 1993; 76: 3257-3268.
2. Lucy MC. Reproductive loss in high-producing dairy cattle: Where will it end? J. Dairy Sci. 2001; 84:1277-1293.
3. Butler WR. Review: effect of protein nutrition on ovarian and uterine physiology in dairy cattle. J. Dairy Sci.1998; 81:2533-2539.
4. Royal MD, Darwash AO, Flint APF, Webb R, Woolliams JA, Lamming GE. Declining fertility in dairy cattle: changes in traditional and endocrine parameters of fertility. Anim. Sci.2000; 70:487-502.
5. Morton JM. Potential bias in observed associations between milk yield and reproductive performance in dairy cows. Proc 11th Intl. Symp. Vet Epidem. Econ. 2006;
6. Grohn YT, Rajala-Schultz PJ. Epidemiology of Reproductive Performance in Dairy Cows. Anim. Reprod. Sci.2000; 60-61: 605-614.
7. Marti CF, Funk DA. Relationship between production and days open at different levels of herd production. J.Dairy Sci. 1994; 77:1682-1690.
8. Kadarmideen HN, Thompson R, Coffey MP, Kossaibati MA. Genetic parameters and evaluations from single- and multiple trait analysis of dairy cow fertility and milk production. Livest. Prod. Sci.2003; 81:183- 195.
9. Jamrozik J, Fatehi J, Kistemaker GJ, Schaeffer LR. Estimates of genetic parameters for Canadian Holstein female reproduction traits. J. Dairy Sci. 2005; 88:c2199-2208.
10. Pryce JE, Royal MD, Garnsworthy PC, Mao IL. Fertility in the high producing dairy cow. Livest. Prod. Sci.2004; 86:125-135.
11. LeBlanc S. Using DHI Records On-farm to Evaluate Reproductive Performance. Adv. Dairy Technol. 2005; 17:319-330.
12. Santos JEP, Thatcher WW, Chebel RC, Cerri RLA, Galvao KN. The effect of embryonic death rates in cattleon the efficacy of estrus synchronization programs. Anim Reprod Sci 2004;82-83(SI):513-535.
13. Weigel K. Improving the reproductive efficiency of dairy cattle through genetic selection. J. Dairy Sci.2004; 87(E. Suppl.):E86-E92.
14. Ferguson JD, Galligan DT. Assessment of Reproductive Efficiency in Dairy Herds. Compend. Cont. Educ. Pract. Vet.2000; 22:S150-S158.
15. Grohn YT, Eicker SW, Ducrocq V, Hertl JA. Effect of diseases on the culling of Holstein dairy cows in New York State. J. Dairy Sci. 1998; 81(4): 966-978 XVI Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos - 2012
http://www.fca.unesp.br/conapecjr

RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu

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ADAUTO SILVA GOUVEIA FILHO

MATRINCHÃ - GOIÁS - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 11/06/2012

É pena que as referencias bibliográficas são todas estrangeiras. Sera como anda a nossa real produção leiteira?
FERNANDO DE L. AMORIM

MAGÉ - RIO DE JANEIRO - ESTUDANTE

EM 19/05/2012

Muito boa matéria, reprodução é muito interessante,parabéns aos autores.
MilkPoint AgriPoint