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Uso do colostrômetro e do refratômetro para avaliação da qualidade do colostro e da transferência de imunidade passiva

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E MARÍLIA RIBEIRO DE PAULA

CARLA BITTAR

EM 25/06/2014

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O bezerro recém-nascido é dependente do colostro principalmente para a aquisição de imunidade, pois existe uma separação do sangue materno e do sangue fetal, evitando a transferência uterina de fatores imunes. Consequentemente, o bezerro nasce sem adequada imunidade humoral e é inteiramente dependente da transferência passiva de imunoglobulinas maternas presentes no colostro após o nascimento. Esta absorção de imunoglobulinas maternas através do intestino delgado durante as primeiras 24 horas é chamada transferência de imunidade passiva, e ajuda a proteger o bezerro contra organismos patogênicos até seu próprio sistema imune estar funcional.

A ingestão adequada de colostro de alta qualidade o mais cedo possível é amplamente reconhecida como fator determinante na saúde e sobrevivência do bezerro neonato. Além de redução do risco de morbidade e mortalidade durante o aleitamento, os benefícios adicionais em longo prazo associados com a transferência passiva de sucesso incluem redução da mortalidade no período pós-desaleitamento, melhores ganhos e eficiência alimentar, redução da idade ao primeiro parto e aumento da produção de leite durante a primeira e segunda lactação.

Sendo assim, a avaliação da qualidade do colostro a ser oferecido para os animais, bem como a avaliação da eficiência de absorção de imunoglobulinas pelo recém-nascido, através de amostra de sangue, são de extrema importância.

Avaliação da qualidade do colostro

A qualidade do colostro pode ser medida com o auxílio de um colostrômetro (hidrômetro), pois existe uma forte correlação entre a gravidade específica do colostro e a concentração de imunoglobulinas (Ig). Por ser rápida e fácil esta avaliação é ainda o teste mais utilizado em fazendas comerciais. No entanto, existe uma faixa de temperatura adequada para o teste ser realizado, (20 a 25ºC), que nem sempre é seguida. Se a temperatura do colostro a ser avaliado estiver abaixo desta faixa, a leitura superestimará a quantidade de Ig, indicando erroneamente ser um colostro de alta qualidade; quando a temperatura for maior que esta faixa, a leitura será subestimada, indicando erroneamente ser um colostro de baixa qualidade. O colostrômetro está calibrado em intervalos de 5 mg/mL e classifica o colostro como de baixa qualidade (vermelho) quando Ig < 20 mg/mL; moderado (amarelo) para o intervalo de 20 – 50 mg/ mL; e excelente (verde) para valores de Ig maiores que 50 mg/mL (Figura 1).

Figura 1. Classificação do colostro utilizando o colostrômetro.

Outra maneira de medir a qualidade do colostro, que independe da temperatura do mesmo, é através do refratômetro de brix. A porcentagem de brix é uma medida da concentração de sacarose em líquidos como suco de frutas, melaço e vinho. Quando utilizado em líquidos que não contém sacarose, há uma alta correlação entre a porcentagem de brix e o teor de sólidos totais do líquido. A porcentagem de brix pode ser correlacionada com a concentração de IgG do colostro e o valor limite que indica que o colostro é de alta qualidade (> 50 mg de Ig/mL) é 21% de brix.

Existem dois equipamentos que utilizam este princípio para avaliar a qualidade do colostro, o refratômetro de brix óptico (Figura 2) e o refratômetro de brix digital (Figura 3). Ambos devem ser colocados perpendicularmente à luz para a obtenção do resultado. No entanto, no refratômetro óptico o resultado é observado na lente do aparelho, onde o resultado em brix é obtido pela separação entre a área clara e a área escura formada após a colocação da amostra. Já no refratômetro digital, o resultado aparece em uma tela.

Figura 2. Refratômetro de brix óptico (esquerda). Escala interna do refratômetro, onde se avalia a qualidade do colostro (direita).

Figura 3. Avaliação da qualidade do colostro através do refratômetro de brix digital.

Como fazer a avaliação?

Após a ordenha da vaca recém-parida, retire uma amostra do colostro já homogeneizado utilizando um recipiente limpo. O refratômetro deve ser calibrado antes de cada uso com água destilada, conforme a recomendação do fabricante. Coloque uma gota do colostro sobre o prisma e realize a leitura. O valor a ser considerado como limite é de 21,0% de Brix. Assim, o colostro que apresentar leitura inferior a 21% de brix não deve ser fornecido aos bezerros com menos de 12h de vida. No exemplo demonstrado com o refratômetro digital (Figura 3), o colostro possui 25,7% de brix, sendo um colostro considerado de alta qualidade.

Após a avaliação, os prismas de ambos os equipamentos devem ser limpos cuidadosamente, com água destilada e papel macio, pois eventuais resíduos podem comprometer a próxima leitura.

Avaliação da transferência de imunidade passiva

O passo seguinte a colostragem é avaliação da transferência de imunidade passiva no sangue dos animais, que pode ser feito utilizando o refratômetro de brix, embora o de proteínas séricas seja mais utilizado (Figura 4).

Figura 4. Refratômetro de proteínas séricas.

O funcionamento deste instrumento consiste na passagem de um feixe de luz pela lente do equipamento e quanto desta luz é refratada. Quando utilizamos uma amostra de sangue, as proteínas do soro irão refratar a luz, de forma que quanto maior a concentração de proteína, mais luz é refratada.

É importante entender que o refratômetro não mede a quantidade de IgG no soro e sim a proteína total, de forma que a idade com que a avaliação é feita afeta o resultado. Em bezerros neonatos há uma estreita correlação entre a proteína total e a IgG sérica, uma vez que que a proteína consumida em maior parte no colostro é a IgG. A correlação entre proteína sérica total e IgG em bezerros de 24 horas de idade é de 0,71. Cerca de 50% da variação na quantidade de proteínas totais no sangue de bezerros nas primeiras 24 horas, pode ser atribuído a fração IgG. No entanto, conforme o animal termina o período de colostragem e passa a receber a dieta líquida, esta correlação é diminuída. Assim, a recomendação é fazer avaliações até 48h após o primeiro consumo de colostro.

O refratômetro de proteínas séricas possui uma escala cujo valor obtido indica a proteína total no soro dos animais (Figura 5).

Figura 5. Avaliação de uma amostra de soro com o refratômetro de proteínas séricas.

Como fazer a avaliação?

No período entre 24 e 48 horas de vida do bezerro, uma amostra de sangue deve ser coletada com tubo sem anticoagulante, para que seja obtido o soro. A amostra pode ficar descansando para dessorar, ou pode ser centrifugada.

Antes da utilização do refratômetro, deve-se calibrar o equipamento com água destilada, conforme recomendação do fabricante.

Retira-se uma alíquota do soro, a qual é dispensada sobre a lente do equipamento.

O refratômetro e colocado contra a luz para a observação na escala dentro do equipamento do valor indicado na linha que divide a área clara e a escura.

A interpretação do resultado é descrita abaixo:
• > 5,5 g/dL: Sucesso na transferência de imunidade passiva;
• 5,0 – 5,4 g/dL: Transferência de imunidade passiva moderada;
• < 5,0 g/dL: Falha na transferência de imunidade passiva.

Na Figura 5, o valor observado é de aproximadamente 6,2 g/dL, indicando sucesso na transferência de imunidade passiva.

Alguns cuidados devem ser tomados na realização da análise da amostra:

É ideal que se faça a coleta do sangue com no mínimo 24 horas, para garantir a absorção total das imunoglobulinas, antes deste período pode ser que ainda haja absorção intestinal.

Não realizar a amostragem em animais acima de 3 dias de vida, pois a quantidade de proteína sérica pode ser confundida com a absorvida de outras proteínas da dieta que não as do colostro.

Valores de proteína sérica acima de 8,0 g/dL devem ser avaliados com cautela, pois podem não indicar sucesso na transferência e sim que o animal está desidratado ou que o equipamento possa estar descalibrado.

Valores abaixo de 5,5 g/dL também devem ser avaliados cuidadosamente pois podem indicar que o equipamento está descalibrado. Outro aspecto importante na leitura é a temperatura da amostra, avalie sempre a amostra em temperatura ambiente, pois os refratômetros de proteínas séricas são sensíveis a mudanças na temperatura da amostra.

Outro ponto a ser considerado é o tamanho do bezerro, geralmente animais maiores apresentam menores valores de proteína sérica quando comparados aos animais menores caso tenham recebido a mesma quantidade de colostro de mesma qualidade, isto porque o volume sanguíneo destes bezerros é maior, diluindo a proteína sérica.

Posso utilizar o refratômetro de Brix para avaliar o bezerro?

Pesquisas recentes demonstraram que o mesmo refratômetro utilizado para medir a qualidade do colostro, apresentado na Figura 3, pode ser utilizado para medir a proteína sérica no sangue dos animais. A calibração deve ser feita com água destilada, conforme a recomendação do fabricante. O procedimento com a amostra de sangue é o mesmo utilizado no refratômetro de proteínas séricas. Uma gota do soro deve ser colocada no prisma para a avaliação, porém o valor que indica adequada transferência de imunidade passiva é 8,4% de brix. A maior vantagem na utilização deste método é que um único aparelho pode ser utilizado na propriedade tanto para avaliar a qualidade do colostro quanto para monitorar a transferência de imunidade passiva.

A utilização de ferramentas que possibilitem a avaliação do colostro e da colostragem do animal, podem auxiliar na gestão da criação dos bezerros, bem como refletir na melhor produtividade futura do rebanho.

Referências

DEELEN, S.M., OLLIVETT, T.L., HAINES, D.M., LESLIE, K.E. Evaluation of a Brix refractometer to estimate sérum immunoglobulin G concentration in neonatal dairy calves. Journal of Dairy Science, v. 97, p. 3838–3844, 2014.

HEINRICHS, J., JONES, C. Colostrum Management Tools: Hydrometers and Refractometers. Penn State Extension. 2011.

McGUIRK, S.M., COLLINS M. Managing the production, storage and delivery of colostrum. Veterinarian Clinical North American Food Animal Practice, v. 20(3), p. 593–603, 2004.

PRITCHETT, L.C., GAY, C.C., HANCOCK, D.D., BESSER, T.E. Evaluation of the hydrometer for testing immunoglobulin G1 concentrations in Holstein colostrum. Journal of Dairy Science, v. 77, p. 1761-1767, 1994.

QUIGLEY, J. D., LAGO, A., CHAPMAN, C., ERICKSON, P., POLO, J. Evaluation of the Brix refractometer to estimate immunoglobulin G concentration in bovine colostrum. Journal of Dairy Science, v. 84, p. 2059-2065, 2013.

QUIGLEY, J. Using the Colostrometer to Measure Colostrum Quality. Calf notes #22. 1998.

QUIGLEY, J. Using a refractometer. Calf notes #39. 1998.
 

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

MARÍLIA RIBEIRO DE PAULA

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MARÍLIA RIBEIRO DE PAULA

PIRACICABA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 16/04/2019

Olá Daiane, muitos fatores podem interferir na absorção do colostro, tais como: partos distócicos, tempo para fornecimento do colostro, estresse por frio, vigor do animal, dentre outros. Não sei ao certo o que pode ter levado à esta falha na absorção, mas tente avaliar se houve algo diferente com esta bezerra. Att.
DAIANE IENSEN MAINARDE

ARAPOTI - PARANÁ

EM 16/04/2019

Oi trabalho com bezerra,tratei uma Bezerra com 2 litros colostro em pó,o mesmo ja usado para alimentar outras bezerras,mas na coleta de sangue deu um valor de brix bem baixo oque não aconteceu com as outras bezerras,tem alguma explicação para o ocorrido ?
FLAMARION TENORIO DE ALBUQUERQUE

LAVRAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/02/2019

COMO SE AVALIA A QUALIDADE DO COLOSTRO UTILIZANDO O REFRATOMETRO DE PROTEINAS SERICAS OU TEM QUE COMPRAR O DE BRIX TB. OBGD
MARÍLIA RIBEIRO DE PAULA

PIRACICABA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 26/02/2019

OLÁ FLAMARION. INFELIZMENTE NÃO É POSSÍVEL AVALIAR COLOSTRO UTILIZANDO O REFRATÔMETRO DE PROTEÍNAS SÉRICAS. EM SE TRATANDO DE REFRATÔMETRO, O DE BRIX É O ÚNICO QUE FAZ ESTA AVALIAÇÃO. ALÉM DISSO, COM O REFRATÔMETRO DE BRIX, É POSSÍVEL AVALIAR TAMBÉM A EFICIÊNCIA DA COLOSTRAGEM (ATRAVÉS DO SORO), SÓLIDOS DO LEITE OU DO SUCEDÂNEO. ATT.
ANSELMO

ORIZONA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/02/2017

Bom dia,

em relação a decantação ou centrífuga, fizemos por decantação em 10 animais e obtivemos valores muito altos. Passamos então na centrífuga e os resultados foram bem diferentes, logo, deve-se tomar cuidado para que a decantação fique bem feita para não interferir no resultado.
MARÍLIA RIBEIRO DE PAULA

PIRACICABA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 29/09/2016

Boa noite Celso, infelizmente não há o que se fazer em caso de falha na transferência de imunidade passiva. No entanto, podemos tomar maior cuidado com estes animais, em especial nos primeiros 20 dias de vida.
MARÍLIA RIBEIRO DE PAULA

PIRACICABA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 29/09/2016

Adriana desculpe a demora em responder, mas estes parâmetros são utilizados para bovinos.

Quanto a equinos, acredito ser diferente.
CELSO CARLOS

SÃO GOTARDO - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 29/09/2016

Boa tarde Carla e Marília!! Muito bom texto!! Tenho uma dúvida. Caso eu faça por exemplo, uma análise com refratometro no soro e pelo refratometro de brix seja aferido um valor de 7 por exemplo, ou seja, abaixo do esperado, existe alguma medida que eu possa fazer para melhorar a imunidade passiva da terneira ou serve apenas para ver que errei e tentar mudar nas próximas? Obrigado
ADRIANA

FORTALEZA - CEARÁ - ESTUDANTE

EM 25/03/2016

Adriana Rola ,sou estudante de veterinária e estou fazendo um estudo sobre colostro em equinos, gostaria de saber se esse colostromentro pode ser usado tambem par verificação do leite em equinos.
MARÍLIA RIBEIRO DE PAULA

PIRACICABA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 02/11/2015

Boa tarde Alexandre!

O soro pode ser obtido tanto por centrifugação quanto por decantação. A análise é possível com ambos.
ALEXANDRE DOS REIS E SILVA

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 01/11/2015

Uma pergunta,prezados: O soro que se refere para analise de proteína sérica no medidor de brix deve ser após centrifugação  ou somente por decantação?



Obrigado!
RODRIGO CANEDO VINHAL

LAGOA FORMOSA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/07/2015

Melissa,



Compramos um colostrômetro recentemente e o mesmo veio com um recipiente próprio, pelo que observamos o resultado está diretamente ligado ao tamanho do recipiente e ao volume de leite dentro do mesmo, pois o colostrômetro está calibrado para esses parâmetros.
MELISSA LOBATO DEFENSOR

PATOS DE MINAS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 29/09/2014

A mensuração com o colostrômetro pode ser feita em qualquer recipiente, com qualquer quantidade de colostro? Exemplo: a mensuração feita em um copo pela metade apresentará o mesmo resultado de uma feita em um balde cheio?
HIGOR CARNEIRO DE MAGALHÃES TOLENTINO

PATOS DE MINAS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 25/06/2014

Michel com avaliação boa do colostro (5.5 g/dl) se indica a colostragem com base em 10% do peso vivo da progênie, em casos de menor qualificação do colostro e ausência de um banco você poderá converter as unidades com regra de três básica.

Lembrando que o fornecimento total deve ser dividio e no máximo em 18 horas quando há fechamento dos poros absortivos.



Att
MICHEL KAZANOWSKI

QUEDAS DO IGUAÇU - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 25/06/2014

Utilizo o colostrometro na avaliação da qualidade do colostro. Posso usar a escala para avaliar a quantidade de imunoglobulinas existente no colostro?

Qual é a quantidade de imunoglobulinas que deve ser fornecido em relação ao peso vivo do animal para garantir uma boa imunização?