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Preferência por local de parição e comportamento de vacas leiteiras no pré-parto

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E GIOVANA SIMÃO SLANZON

CARLA BITTAR

EM 29/04/2020

7 MIN DE LEITURA

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O manejo de piquetes e baias maternidade tem grande impacto sobre o conforto da vaca, mas ainda maior na saúde do bezerro recém-nascido. Existem muitas pesquisas sobre nutrição, manejo e instalações para vacas leiteiras antes e após o parto (Sepúlveda-Varas et al., 2013). No entanto, poucos estudos realmente investigaram as instalações mais adequadas para vacas antes e durante o parto. O melhor entendimento sobre o comportamento das vacas logo antes do trabalho de parto é uma ferramenta muito importante para adequarmos as instalações de maternidade, de forma a beneficiar a vaca e também os bezerros.

Apesar desse assunto já ter sido abordado em edições passadas, ainda pouco se sabe sobre a preferência das vacas sobre o local para parir. Sabe-se que existem diferenças no comportamento de vacas leiteiras em relação ao parto quando são mantidas em local fechado ou com acesso ao pasto. Por exemplo, algumas vacas se separam do rebanho e escolhem um local isolado para parir (Proudfoot et al., 2014) e quando vacas são mantidas a pasto, elas tendem a se distanciar no dia parto, sugerindo que buscam alguma privacidade e procurar locais cobertos por árvores ou arbustos, com solo seco e macio (Flörcke and Grandin, 2014). Além disso, vacas apresentam mudanças em seu comportamento quando se aproximam do momento da parição. Quando parem em baias maternidades, em locais fechados, ficam mais inquietas à medida que o momento se aproxima (Mainau and Manteca, 2011), talvez devido a necessidade de procurar por um local mais adequado para parir (Rørvang et al., 2018b). Dessa forma, os autores Black and Krawczel (2016) sugerem que o pasto proporciona um ambiente mais confortável em comparação com locais fechados para parição, já que as vacas podem expressar seus comportamentos mais livremente. 

Ainda assim é necessário determinar se vacas leiteiras preferem parir em locais fechados ou com acesso a pastagem. Dessa forma, um estudo realizado pela Universidade do Tenesse, nos Estados Unidos, em colaboração com outros pesquisadores, teve como intuito determinar a preferência pelo local de parição quando vacas têm acesso a ambas opções: um galpão fechado e ao pasto. Os autores também estudaram os fatores que estão associados com a preferência pelo local de parição e o comportamento de explorar ou deitar das vacas nas 24 horas que antecedem o parto.

Esse estudo utilizou 65 vacas Holandesas (32 novilhas nulíparas e 33 vacas primíparas e multíparas) mantidas em um galpão com cama de palha, mas com livre acesso ao pasto. O ambiente foi divido em sessões conforme a Figura 1.

Figura 1. Esquema das sessões utilizadas para avaliação do comportamento das vacas nos dias que antecederam o parto. Galpão (sessão 1); pasto aberto sem nenhuma cobertura de árvore (sessão 2 a 8); e pasto sem manutenção, com uma pastagem mais alta e árvores em seu perímetro, proporcionando maior cobertura (sessão 9).

piquetes parição vacas leiteiras

Dos 65 partos avaliados, 39% ocorreram no galpão, 35% na área com foragem natural que permitia cobertura e 26% no pasto aberto (Figura 1).

Figura 1. Número de novilhas nulíparas e vacas primípara e multíparas combinadas que pariram em cada local. O galpão incluía uma cama de palha, o pasto aberto não tinha nenhuma árvore e a área com cobertura natural incluía um pasto alto e árvores.

preferencia de local de parição vacas leiteiras

No dia do parto, todos animais passaram maior porcentagem do seu tempo no local escolhido para parir. Essa comparação foi feita com um determinado dia, denominado de dia controle, em média 7 dias antes do parto, com temperatura e umidade similares ao dia em que o animal pariu. Vacas primíparas e multíparas selecionaram o galpão mais frequentemente para parir e nulíparas selecionaram o pasto com cobertura natural mais vezes. Ao ajustar os dados de acordo com o índice de temperatura e umidade (ITU ou THI em inglês), foi observado que as vacas eram mais propensas a parir no pasto com cobertura natural quando o ITU era menor o igual a 68.

Para registrar o comportando de deitar das vacas, os autores utilizaram um acelerômetro em cada animal. O tempo em que os animais gastaram deitados foi menor no dia do parto em comparação com o dia controle. Vacas nulíparas permaneceram 2 horas a menos deitadas em comparação com vacas multíparas (7.6 vs. 9.7 ± 0.3 horas/dia) e animais em estresse térmico passaram mais tempo deitadas em comparação com aquelas que não estavam nesta condição (7.7 vs. 9.6 ± 0.3 horas/dia). O número de episódios de deitar-se e também a duração média de cada episódio foi menor no dia de parição, em comparação com o dia determinado como controle (Figura 2).

Figura 2. Média dos quadrados mínimos para (A) o tempo deitada, (B) número de ações para deitar-se, e (C) duração do episódio de deitar-se, para os dias de parição e o dia determinado como controle. Barras com letras diferentes diferem entre si (P ≤ 0.05).

Para determinar como as vacas usaram o espaço disponibilizado antes do parto, foi registrado a cada 10 min em qual das 9 sessões o animal se encontrava. Assim, foi calculado o número mínimo de seções que precisavam ser cruzadas para um animal passar da seção anterior para uma nova seção a cada avaliação de 10 minutos, e os dados foram somados para cada animal. Por exemplo, se na primeira observação o animal estava na sessão 2 e na observação seguinte estava na sessão 6, teve que cruzar 3 sessões (3, 4 e 5) entre uma observação e outra. Assim, foi observado que mais sessões foram cruzadas no dia de parição em comparação com o dia determinado como controle para cada animal (61 vs. 40 ± 2 no./dia) (Figura 3). Essa observação sugere que vacas desempenham um maior comportamento exploratório próximo a chegada do bezerro.

Figura 3. O número de sessões cruzadas em média para novilhas nulíparas e para vacas primíparas e multíparas no dia do parto e também nos dias determinados como controle. Barras com letras diferentes diferem entre si (P ≤ 0.05).

Os autores também comentam que, curiosamente, alguns animais foram observados andando "para lá e para cá" entre as pastagens, talvez tentando aumentar seus exercícios em resposta ao trabalho de parto, ou procurando por áreas que reduzem o risco de predadores ou perturbações de outros animais. De uma forma geral, esses resultados indicam que vacas e novilhas possuem preferências distintas pelo ambiente que vão parir e, quando o acesso ao pasto é disponibilizado, ambas mudaram seus comportamentos de deitar-se, assim como comportamentos exploratórios, no dia de parição comparada com o dia anterior.

Comentários:

Apesar de não haver muito estudos sobre esse importante evento tanto para a vaca como para o bezerro, é necessário levar em consideração que experiências prévias, como por exemplo o quão familiar o ambiente é para o animal, além da própria experiência de parto, pode também influenciar a escolha do local para parição. Nesse caso, os animais foram transferidos para o local de estudo em média 20 dias antes do dia do parto, o que pode também ter influenciado na escolha do local e em suas respostas de comportamento.

Como ressaltado pelos autores, quando possível, é importante oferecer acesso ao pasto para que os animais tenham a possibilidade de escolher o seu local de preferência de acordo com as condições climáticas e também de acordo com seu número de partos. Os animais buscam além do conforto térmico, possibilidade de proteger suas crias de presas e um local com maior privacidade para o parto, evidenciado pelo afastamento do resto do lote.

Trabalhos como esse são ferramentas valiosas para um melhor entendimento do comportamento animal. Por meio desses estudos, é possível oferecermos aos animais instalação e manejo adequado durante o período na maternidade. A observação de alterações no comportamento deve ser utilizada para prever a parição e realizar por exemplo transferência do animal em lote pré-parto para uma baia maternidade com acesso ao pasto. Por fim, independentemente do local escolhido pelo animal, vale a pena ressaltar a importância de manter a limpeza do local para diminuir o contato do bezerro com patógenos. 

Referências

E.M. Edwards, P.D. Krawczel, H.M. Dann, L.G. Schneider, B. Whitlock, K.L. Proudfoot. Calving location preference and changes in lying and exploratory behavior of preparturient dairy cattle with access to pasture, Journal of Dairy Science, 2020. https://doi.org/10.3168/jds.2019-17218.

P. Sepúlveda-Varas, D.M. Weary, M.A.G. von Keyserlingk. Lying behavior and postpartum health status in grazing dairy cows. J. Dairy Sci., 97 (2014), pp. 6334-6343. https://doi.org/10.3168/jds.2014-8357

K.L. Proudfoot, M.B. Jensen, D.M. Weary, M.A. von Keyserlingk. Dairy cows seek isolation at calving and when ill. J. Dairy Sci., 97 (2014), pp. 2731-2739. https://doi.org/10.3168/jds.2013-7274

C. Flörcke, T. Grandin. Separation behavior for parturition of Red Angus beef cows. Anim. Sci., 4 (2014), pp. 43-50. https://doi.org/10.4236/ojas.2014.42007

E. Mainau, X. Manteca. Pain and discomfort caused by parturition in cows and sows. Appl. Anim. Behav. Sci., 135 (2011), pp. 241-251. https://doi.org/10.1016/j.applanim.2011.10.020

M.V. Rørvang, B.L. Nielsen, M.S. Herskin, M.B. Jensen. Prepartum maternal behavior of domesticated cattle: A comparison with managed, feral, and wild ungulates. Front. Vet. Sci., 5 (2018), p. 45. https://doi.org/10.3389/fvets.2018.00045

R.A. Black, P.D. Krawczel. A case study of behaviour and performance of confined or pastured cows during the dry period. Animals (Basel), 6 (2016), p. 41. https://doi.org/10.3390/ani607004

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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