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O local de um parto influencia a escolha do local das futuras parições

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E GIOVANA SIMÃO SLANZON

CARLA BITTAR

EM 28/04/2017

6 MIN DE LEITURA

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Uma vaca recém parida e seu bezerro aparentam ter um efeito atrativo sobre as vacas que logo vão parir. Em um trabalho realizado pela Universidade Aarhus localizada na Dinamarca juntamente com a Universidade Paris – Saclay, foi possível observar a influência do local do parto de uma vaca na escolha do local onde uma próxima vaca terá seu bezerro.


A utilização de áreas para o parto que consideram questões de bem-estar animal aumenta o conforto das vacas que estão prestes a parir. Entretanto, o local específico escolhido para o parto pode ser influenciado por fatores além da motivação por isolamento, o que pode sugerir mudanças futuras na forma como as instalações para o pré-parto serão escolhidas.

Edwards (1983) identificou que tanto as vacas gestantes como os bezerros recém-nascidos parecem ter efeito atrativo sobre as outras vacas gestantes, o que pode ser explicado devido a presença do fluido amniótico e fatores olfativos que facilitam o comportamento maternal dos mamíferos. Este comportamento é observado não apenas em vacas, mas também em cavalos, porcos e cabras.

O estudo de Rørvang e colaboradores (2017) teve como objetivo entender se a escolha do local para a parição em um grupo é influenciada pela atividade da vaca que pariu anteriormente. No experimento, as vacas foram alocadas em dois grupos, com semelhantes datas previstas de parição. Cada grupo mudou para a área aproximadamente uma semana antes da data prevista do nascimento do primeiro bezerro do grupo. Cada área possuía um local aberto e seis áreas isoladas adjacentes com acesso livre as áreas isoladas, o que permitiu que as vacas escolhessem o local da parição.

Doze horas após o parto a vaca e o bezerro eram removidos do local e no grupo I era realizada uma leve limpeza na área, retirando o sangue, a cama molhada e os restos da placenta. Já no grupo II foi feita uma limpeza profunda após o nascimento do primeiro bezerro, sendo toda a areia e palha removidas e substituídas por uma nova, no raio de 1 metro onde a bolsa havia estourado. Isso foi feito para observar e testar os possíveis efeitos na escolha do local para o parto da vaca seguinte. O comportamento de cada vaca foi observado por vídeo durante 24 horas antes de parir e também foi analisado a localização precisa do parto e onde a placenta se rompeu, para entender se as vacas parem em locais aleatórios ou previamente escolhidos.

No grupo I todas as vacas pariram em locais bastante próximos, com raio de aproximadamente 2,5m (Tabela 1; Figura 1a). Já no grupo II, a primeira vaca pariu na área aberta, sendo realizada a limpeza profunda. A segunda vaca pariu em uma área isolada, 8 metros distantes da primeira vaca (Figura 1b). Mas as 3 vacas subsequentes deram à luz em um raio de 2,5m próximo ao local que a segunda vaca pariu. Foi identificado que a terceira vaca do grupo II escolheu parir atrás da barreira física (Figura 1b), mas isso ocorreu porque as duas outras vacas estavam em pé no local do parto anterior no momento em que ela estava em trabalho de parto. Ainda assim, esta vaca procurou parir no local mais próximo que encontrou da anterior, mantendo a distância de aproximadamente 2,5m.

Tabela 1. Diferença de tempo e distância física entre partos no grupo I e II, respectivamente. 

Diferença de tempo e distância física entre partos de vacas

Nos casos em que nenhuma limpeza rígida foi realizada todas as vacas pariram em um raio de no máximo de 2,5 m de distância, indicando que elas não escolhem o local aleatoriamente, mas sim de acordo com a parição anterior. A presença visual e física de restos e a presença do liquido amniótico da última parição afeta a escolha do local. Interessante que não todas as vacas, mas somente aquelas bem próximas do parto foram atraídas para o local. Isso se deve provavelmente por que a atração da vaca em direção a restos de fluído amniótico ocorre somente 12h antes do parto (Pinheiro Machado et al., 1997). Neste trabalho as vacas pariram sempre com mais de 12h de intervalo umas das outras (Table 1), o que sugere que a escolha do local do parto não tem relação com nenhuma “dica olfativa”.

São necessários mais estudos para confirmar tais especulações, mas já é possível melhorar as instalações de acordo com os interesses das vacas no pré-parto, fornecendo um maior conforto e aumentando assim a eficiência das indústrias produtoras de leite da atualidade.

Figura 1. Locais de parição no grupo I (a) e II (b). O círculo cinza indica o local de nascimento do primeiro bezerro e a periferia desse círculo indica aproximadamente a distância de 2,5 metros. As vacas pretas indicam a posição subsequente de parição. No (b) a vaca cinza ilustra a posição da primeira vaca a dar à luz e as vacas pretas aquelas que pariram após uma severa limpeza e troca da areia da área.

 
parição de vacas

Referências bibliográficas

Pinheiro Machado, F. L. C., J. F. Hurnik, and G. King. 1997. Timing of the attraction towards the placenta and amniotic fluid by the parturient cow. Appl. Anim. Behav. Sci. 53:183–192.

Edwards, S. A. 1983. The behavior of dairy cows and their newborn calves in individual or group housing. Appl. Anim. Behav. Sci. 10:191–198.

Rørvang, M.V., Nielsen, B.L., Herskin, M.S., Jensen, M.B. 2017. Short communication: Calving site selection of multiparous, group-housed dairy cows is influenced by site of a previous calving. J. Dairy Sci. 100 :1467–1471

Comentários

O manejo de piquetes ou baias maternidade são de extrema importância para a saúde da vaca e também do bezerro. Baias que tragam bem-estar, considerando desde o conforto térmico até ausência de competição por cocho, têm efeitos positivos no processo de parição e consequentemente vão beneficiar também o bezerro recém-nascido.

Um dos aspectos mais importantes e que vai reduzir bastante o contato do recém-nascido com patógenos é a limpeza desse ambiente. Segundo um levantamento americano, embora a taxa de mortalidade de bezerros durante o período de aleitamento tenha sido reduzida, a taxa de mortalidade nas primeiras 48h tem aumentado. Embora esse fato tenha grande relação com partos que exigem auxílio e a forma como esse auxílio é feito, uma parte disso se deve ao ambiente em que o animal nasce.

De acordo com a Dra. McGuirck da Universidade de Wisconsin, dependendo da limpeza da baia maternidade, bezerros podem “consumir” esterco por até 4 vezes logo após o nascimento: da cama, da vaca quando está tentando mamar, do úbere e do colostro quando este é ordenhado sem adequada limpeza do úbere. Assim, a limpeza das baias é importante pare evitar este consumo, além do contato com outros patógenos que possa crescer por exemplo em decorrência de fluido amniótico e placenta de vacas que já pariram.

Por outro lado, a limpeza mais severa do ambiente entre os partos parece alterar o comportamento natural das vacas de escolherem o local para parir baseadas em partos anteriores. O grupo de pesquisa da Universidade de British Columbia, mostrou que muitos produtores mudam vacas de piquete onde estão em grupo para baias individuais, na maior parte das vezes quando o animal já está em processo de parição e que isso acaba atrasando o parto. Esse grupo também mostrou que quando os animais estão em grupo em uma grande área, escolhem áreas isoladas para os partos, principalmente quando o parto ocorre durante o dia, como se estivessem buscando mais privacidade.

Assim, para protegermos os bezerros de patógenos, mas respeitar o comportamento natural das vacas, seria interessante manter os animais em grupos, com áreas isoladas para os partos que ocorrem durante o dia, e realizar limpeza moderada entre os partos.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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