A formação de clusters de produção leiteira como forma de retomada da competitividade
Editorial: O Projeto Porteira Adentro tem me permitido rodar o Brasil e conhecer projetos inovadores, bem gerenciados e, acima de tudo, rentáveis envolvendo a pecuária leiteira. Em um momento em que o leite tem ganho as manchetes com temas geralmente negativos (fraude, dificuldades em laticínios, perda de competitividade), é salutar e inspirador nos depararmos com projetos que mostram como a atividade pode ser competitiva e altamente rentável. Por Marcelo Carvalho
Publicado em: - 7 minutos de leitura
No entanto, uma coisa me chama a atenção nestas breves andanças. Nos 3 projetos que visitamos, notamos que são casos isolados nas regiões em que estão localizados. Claro que não se pode exigir de todos os produtores o grau de inovação e ousadia daqueles que se destacam, mas o que notei é algo mais contundente: em alguns casos, sequer há produtores de leite próximos, sendo as fazendas virtuais oásis de prosperidade leiteira em meio a outras atividades.
O caso mais recente – ainda não publicado – foi o da Fazenda Santa Thereza, em Aparecida do Rio Doce, em Goiás, região de gado de corte extensivo. Em meio a paisagem seca desta época, encontra-se um projeto em franco desenvolvimento, com um pivô central instalado sobre pasto e mais 7 projetados até 2019. Ocupando cada espaço útil entre os pivôs, 1.100 hectares de eucaliptos que camuflam 48 granjas de suínos e aves. Um verdadeiro oásis.
O cenário de ilhas de prosperidade leiteira contrasta-se com o que temos visto em outro projeto nosso – o das viagens internacionais (a propósito, faremos nova edição da viagem ao meio-oeste dos Estados Unidos em final de setembro – apesar do dólar em elevação, vale a pena conferir!). Em países como a Nova Zelândia e Estados Unidos, nota-se uma forte concentração da produção em áreas específicas do país. Veja abaixo o mapa de coleta de fazendas da Fonterra em uma região da Nova Zelândia.
Mas qual é a relevância disso? Quais são as vantagens que se tem ao reunir diversos produtores em uma mesma região? O argumento central desse artigo é que a existência de um grande número de propriedades na região, com grau de tecnificação semelhante, é fundamental para que tenhamos maior eficência na cadeia produtiva do leite.
A concentração geográfica de fazendas leiteiras tende a trazer inúmeras sinergias. Com grande número de fazendas na mesma região, a oferta de serviços de qualidade tende a ser maior: colheita terceirizada de forragem, serviços terceirizados de criação de bezerras e novilhas, assistência em ordenha e outros maquinários, serviços de informação e assistência técnica, universidades e centros de pesquisa com programas voltados para a realidade da região, mão-de-obra qualificada e treinada na atividade, compartilhamento de maquinário e atividades entre fazendas, associações que viabilizam ações conjuntas de forma mais efetiva, e assim por diante.
Assim, regiões com grande concentração na produção tendem a ter em seu entorno uma maior gama de serviços e produtos que são essenciais para que se tenha maior competitividade. Em função disso e da proximidade entre os produtores, a tendência é que o aprendizado seja mais rápido, de forma que regiões com concentração tendem a se destacar de outras em que prevalecem produtores isolados. Cabe bem aqui o velho ditado que diz que “uma andorinha não faz verão”.
Além disso, há a questão logística, tanto para a entrega de insumos como para a compra de leite. De acordo com estatísticas que vimos na Nova Zelândia, a Fonterra capta 6 vezes mais leite por km do que os melhores laticínios brasileiros. Isso, claro, impacta no preço a ser pago pelo leite que nosso produtor recebe, se considerarmos que, em um ambiente de competição global, o mercado a ser conquistado é o mesmo para as regiões mais competitivas e menos competitivas. No que se refere à venda de leite, faz sentido assumir também que regiões com grande concentração na produção tendem a ter mais laticínios atuando, acentuando a concorrência e levando a preços mais altos.
Em suma, regiões com maior concentração tendem a ter custos mais baixos e/ou serviços melhores e melhor preço de venda. Talvez não seja coincidência o fato de que Castro, no Paraná, tenha se destacado como município com maior produção de leite no país. São centenas de produtores em uma área restrita, o que configura o que se chama de cluster produtivo (“aglomeração produtiva”).
O fato é que, não só no agronegócio, mas em diversas áreas da economia, os clusters são uma realidade e atuam no sentido de elevar a competitividade, o empreendedorismo e o aprendizado. Um exemplo evidente é o Silicon Valley, na Califórnia, polo de tecnologia e onde nasceram empresas como o Google e Facebook. No agronegócio brasileiro, temos, entre outros, o polo de frutas de Juazeiro e Petrolina, o polo de vitivinicultura no Sul do país, bem como o polo de avicultura e suinocultura no Oeste Catarinense e em Rio Verde, Goiás, próximo da Fazenda Santa Thereza, que é inclusive uma integrada da BRF na região. As próprias montadoras de veículos hoje operam no formato de “cluster”, com vários fornecedores inclusive tendo unidades dentro das próprias fábricas, acelerando a inovação e reduzindo custos com estoques e transporte.
E porque não temos clusters no leite brasileiro? Talvez fosse interessante fazer um estudo mais aprofundado, mas arrisco-me a tecer algumas hipóteses. A primeira é que, de certa forma, tínhamos polos no passado, quando o consumo era restrito a leite pasteurizado que, por definição, precisava ter produção próxima ao consumo. Assim, as regiões com maior população (à exceção do Nordeste) desenvolveram bacias leiteiras relevantes – Sul de Minas, Campinas, Vale do Paraíba, Vale do Taquari, etc. Com o tempo e com o crescimento do leite UHT, a vantagem comparativa dessas regiões tradicionais se perdeu, com novos arranjos ainda em formação.
No entanto, nesse ponto é oportuno diferenciar uma bacia leiteira de um cluster, que pressupõe uma organização, uma coordenação que, numa bacia, não necessariamente ocorre. Daí surge a segunda razão para a existência de quase nenhum cluster produtivo de leite no Brasil: falta coordenação e aproximação entre indústria e produção, impedindo que de fato haja a formação de um cluster. Dentro disso, um dos aspectos críticos para a formação de clusters pressupõe relacionamento de longo prazo que, por sua vez, pressupõe confiança, regras claras e transparência, características que não exatamente tem feito parte das relações comerciais no setor como um todo.
Porém, dada a necessidade de aproximação entre os elos para aumento de competitividade, é de se esperar que a força dessa barreira contrária tenda a ser cada vez menor no futuro. Afinal, como já escreveu Michael Porter em 1990, a articulação vertical na cadeia produtiva afeta diretamente o desempenho das empresas. Mais do que chegou a hora de colocar a mão nessa ferida.
Um terceiro possível motivo é o fato do leite não ter ainda o mesmo grau de padronização e profissionalização da atividade daquele verificado em outras atividades. Na verdade, é impossível caracterizar a produção brasileira sob a ótica de um sistema ou de um perfil produtivo único. Há diferenças de qualidade e de custo de oportunidade do trabalho e terra, refletindo em preços distintos.
Exemplificando, em determinado momento do mercado, pode ser mais barato comprar leite spot oriundo de regiões com preço mais baixo, ainda que distantes, do que de um cluster produtivo, de alta qualidade, na porta da fábrica. E porque isso? Porque hoje, no Brasil, percebe-se uma discrepância significativa de preços, mesmo considerando que a diferença de preços entre alguns estados tem diminuído (entre Sul e Sudeste, por exemplo). Mato Grosso, Tocantins, Pará, Rondônia, todos têm preços cerca de 30% mais baixos do que os verificados em Goiás, São Paulo, Minas Gerais, e os estados do Sul.
Em função disso, não há necessariamente uma ligação forte entre a produção local e a planta de industrialização. Em outras palavras, as vantagens do conceito tradicional de cluster não são válidas de forma generalizada como em outras atividades, isto é, nem sempre há claras vantagens competitivas do ponto de vista do articulador, no caso a indústria. Mas isso irá mudar com o tempo.
Por fim, acredito que há um aspecto cultural também envolvido nessa questão. O produtor de leite dificilmente migra para outras regiões mais propícias ou que encontram um ambiente de negócios mais favorável. Via de regra, o produtor quer viabilizar sua atividade onde nasceu, ou onde escolheu viver ou ter sua propriedade, sem muitas vezes seguir critérios técnicos. A rigor, não há nada de errado nisso sob o ponto de vista pessoal, mas talvez sim, do ponto de vista do negócio. Isso ajuda a explicar a existência de projetos de produção espalhados geograficamente, muitas vezes em regiões sem um ambiente de negócios ou mesmo natural favorável à exploração rentável da atividade.
Voltando ao início do artigo, acredito que a formação de clusters tende a ser uma realidade cada vez mais presente no setor, ainda que demore para ser a regra. Afinal, como já colocamos em diversas oportunidades, é necessário atuar na retomada da competitividade e a criação de polos de eficiência produtiva e industrial é um dos pilares dessa retomada, até porque atividades concorrentes já o fazem, com resultados mais do que comprovados. Nesse sentido, é importante a articulação das empresas, tendo também os governos um papel importante ao fomentar e apoiar a instalação de clusters, com serviços de infra-estrutura de qualidade e incentivos, entre outros.
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ARAPIRACA - ALAGOAS - ESTUDANTE
EM 17/12/2024
PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 07/02/2014
MATO GROSSO - PESQUISA/ENSINO
EM 05/02/2014
Gledisson Fleury
Adm de Empresas
Prof. Universitário
Mestre em Desenvolvimento Regional
Cuiaba/MT
E-mail: geldissonfleury@yahoo.com.br
Celular: 65.9978-0877
JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 25/06/2013
Um abraço,
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
=HÁ OITO ANOS CONFINANDO QUALIDADE=
PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 17/06/2013
Wagner, concordo contigo sobre a nova aurora e acho também que o projeto no oeste da Bahia tem elementos para gerar um cluster moderno.
JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 16/06/2013
O mais grave, todavia, é que, em verdade, inexiste uma "concentração geográfica de fazendas", estando as mesmas espalhadas por diversas regiões e, portanto, com realidades muito diferentes entre si.
Por fim, não entendo que seja melhor a migração de produtores para regiões mais propícias antes de tentar, pelo menos, transformar o local onde se desenvolve o empreendimento original, mesmo que seja para implantar os multicitados "oásis".
Concebo esta migração tão nefasta quanto a que motiva o indivíduo a deixar o campo e se dirigir às grandes cidades, engrossando a massa de desvalidos, de favelados, de habitantes da linha abaixo da pobreza, posto que, nem sempre, um lugar que é bom para muitos o é para todos.
É necessário mais estudo das condições locais, de suas potencialidades e de adequação de manejos antes de abandonar o barco para tentar, a nado, atingir a outras costas, muitas vezes, ilusoriamente melhores.
Um abraço,
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
=HÁ OITO ANOS CONFINANDIO QUALIDADE=
CRUZ ALTA - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO
EM 15/06/2013
Foste muito feliz em levantar este tema. Me permita comentar a seguinte pergunta: "porque não temos clusters no leite brasileiro?"
Nós temos, o problema é que grande parte deles pertence ao passado, mas o leite se desenvolveu no Brasil justamente em clusters formados por cooperativas de produtores. Todas as regiões produtoras de leite formadas até 10 anos atrás tiveram por trás uma ou mais cooperativas fomentando o desenvolvimento, provendo assistência técnica, ensinando como fazer mais e melhor e torno delas se criaram modelos (sim, isso já foi muito avançado em nosso, por incrível que pareça hoje).
O que hoje criticamos por sabermos não ter escala, qualidade nem viabilidade econômica já foi moderno, por incrível que pareça. Só que parou nos anos 1910-1920. A maior bacia leiteira do RS não se desenvolveu perto de nenhum centro de consumo, por exemplo, mas sim em torno da força do cooperativismo da época.
Eu perguntaria "porque não temos clusters do novo perfil de produtor, agrupamentos do novo paradigma, o paradigma do leite como negócio rentável, de qualidade e com escala?" E me arrisco numa resposta: creio que justamente porque nos encontramos na aurora de uma nova fase. Esse paradigma ainda está sentando na cabeça das pessoas e, infelizmente, será a dor, o sofrimento e a inviabilidade do atual modelo que levará a uma nova organização dos negócios e suas malhas locais.
O investimento no oeste baiano pelos neozelandeses parece estar vindo no sentido do que colocas, não? Embora com características comerciais e organizacionais muito específicas (não vejo a solução deles, inclusive com industrialização própria, como modelo geral).
Concordo quanto ao produtor de leite dificilmente migrar para procurar o melhor, mas agora algumas das mentes empreendedoras do tipo que sim migra em busca do melhor, estão se voltando ao leite. Há exemplos de sulinos (especialmente gaúchos) idos para o Centro Oeste produzir soja que estão começando no leite. São outras cabeças. Quem sabe ali não veremos algo do tipo que provocas no artigo?
Belo artigo. Dá bastante o que pensar e discutir. Parabéns!

CURITIBA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 14/06/2013

CANTAGALO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 14/06/2013
ARAÇATUBA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 14/06/2013
Mandei para você um texto antigo sobre matéria correlata. Ficaria muito honrado em receber um comentário seu sobre o assunto.
Parabéns!

VALENÇA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 14/06/2013
A aplisi continua se expandindo pelas regiões próximas do estado do Rio e de Minas Gerais.( 51 associados, 12 milhões de litros por contrato.)
O Sul de Minas de há muito tem grande concentração de produtores e processadores de leite.
A região do Vale do Paraíba e do Vale do Rio Preto no Estado do Rio de Janeiro, além dos incentivos tributários, tem no enorme mercado consumidor a sua maior vantagem competitiva. Não é atoa que DPA ( Tres Rios), BRF ( Barra do Piraí) e LBR ( Barra Mansa) estão aí instaladas , ou se instalando.
Relacionamento de longo prazo, regras claras nas relações comerciais, como vc mencionou, são os pilares de sustentação da aplisi.
Estamos as suas ordens para que vc nos conheça melhor.
Parabéns pela sua constante criatividade.
Abraço.
Paulo Fernando.

CAMPO GRANDE - MATO GROSSO DO SUL
EM 14/06/2013
Excelente seu artigo. Também acredito que este modelo é imprescindível para mudarmos a realidade da pecuária de leite brasileira. Temos acompanhado vários programas sendo implantados, mas de fato, não conseguimos observar as mudanças necessárias acontecerem. É preciso repensar nosso modelo de pecuária de leite. Tenho convicção que o cluster é uma saída.
Um abraço,
Adriana Mascarenhas
DRACENA - SÃO PAULO - ZOOTECNISTA
EM 14/06/2013
Gostaria de dizer que não só a formação de clusters, mas a organização da cadeia como um todo, se resumi na segunda causa que você apontou para a não formação de clusters.
Infelizmente, vivemos em um país de expertos, e com nenhum senso de crescimento em conjunto e fortalecimento de qualquer cadeia, onde a questão não é crescermos como nação e sim, tirar vantagem principalmente quando é em relação a finanças.
Enfim coordenação e organização numa nação onde a capacidade intelectual de sua população é péssima, com um ensino muito ruim, ou seja, incapaz. Então esquece.
Sabendo-se disso o que sobra? R - a expertise que já vem de berço do brasileiro, ou seja, sem regras claras e muito menos transparência, o que dirá confiança e menos ainda com tudo isso, relacionamento a longo prazo.
Acredito que um dia teremos bons exemplos como cadeia organizada na produção leiteira, mas isso ainda vai levar muito tempo, se comparada a outras atividades agropecuárias, devido a complexidade e a necessidade de profissionais capacitados e clareza que a atividade exige.
Um abraço.
SANTO ÂNGELO - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 14/06/2013
E COM CERTEZA com a ampliação dos clusters, teremos um incentivo a PROFISSIONALIZAÇÃO desta atividade APAIXONANTE!!!
SABEMOS QUE A PROFISSIONALIZAÇÃO É CRUCIAL PARA A SOBREVIVÊNCIA!
GRANDE ABRAÇO E SAUDAÇÕES MINHAS!
BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 14/06/2013

CANTAGALO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 14/06/2013

CASTRO - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO
EM 13/06/2013

CURITIBA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 13/06/2013
O Planalto Norte de Santa Catarina tem um potencial enorme para a produção de leite e está acordando agora.
LAVRAS - MINAS GERAIS
EM 13/06/2013
Excelente suas colocações. Precisamos levar o estudo e os incentivos aos clusters de forma mais responsável e profissional. O Brasil é gigantesco, mas uma política voltada para clusters regionais seria muito benéfica. Melhor do que continuar com o foco apenas na pessoa do produtor rural.
Um abraço,
Paulo Henrique Leme
PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 13/06/2013
Oxalá, os amplos recursos em disponibilização pelo governo federal à pecuária leiteira não sejam pulverizados demagogicamente e sigam o critério apresentado no artigo.
Um abraço,
Paulo R. F. Mühlbach