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Vale a pena ler de novo! Coprocultura: um exame importante no controle de verminose

POR JORDANA ANDRIOLI SALGADO

E FERNANDA ROSALINSKI MORAES

PRODUÇÃO

EM 25/09/2014

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As endoparasitoses em ovinos e caprinos são um problema sério devido à alta susceptibilidade dos animais, ao manejo inadequado dos sistemas de produção e à resistência anti-helmíntica. Erros de manejo no controle parasitário (vermifugar simultaneamente todos os animais do rebanho, sem calcular a dose correta por indivíduo, utilizar via de administração inadequada, com intervalos curtos, alternância rápida de princípios e muitas vezes utilizando medicamentos inadequados) ocasionaram a seleção de vermes resistentes. As perdas zootécnicas (ganho de peso, rendimento de carcaça, características reprodutivas, índice de mortalidade) juntamente com o gasto com vermífugos oneram drasticamente os custos de produção. Frente a essa situação, o diagnóstico completo do grau de infecção parasitária, dos sinais clínicos no animal e dos gêneros de nematoides predominantes é de fundamental importância no controle de verminose.

No artigo "Sistemas de produção e verminose parte I" foi possível ver que a verminose é um assunto muito mais amplo do que somente a simples administração de anti-helmínticos. Fatores ambientais (clima, umidade, tipo de pasto), nutricionais (exigências nutricionais), a categoria e o bem-estar animal influenciam não só em toda a epidemiologia parasitária, mas também na resposta dos animais ao parasitismo. Além disso, a genética do animal também é fator determinante na resistência à doença.

Com uma visão mais ampla das endoparasitoses, é possível reconhecer a impossibilidade de erradicar os parasitos gastrintestinais e a necessidade de promover ações de controle que visem equilibrar a relação parasito-hospedeiro. Isto pressupõe a necessidade de correto diagnóstico do gênero de parasito envolvido, bem como da resposta do hospedeiro. Por isso, atualmente é dada a devida importância ao diagnóstico da verminose por meio de exames clínicos (método FAMACHA©, sinais clínicos) e exames de fezes (OPG, coprocultura e outros), exame de sangue (hemograma) além de outros exames mais detalhados que englobam biologia molecular. 

O método FAMACHA©, amplamente comentado e discutido aqui, é um aliado no controle das endoparasitoses ocasionadas pelo Haemonchus contortus, principal parasito hematófago (suga sangue) de pequenos ruminantes durante a estação chuvosa, na maioria dos rebanhos brasileiros. Esse método baseia-se no tratamento apenas de animais que são acometidos clinicamente, diminuindo drasticamente o uso desnecessário de vermífugos. No entanto, o FAMACHA© somente é efetivo quando o Haemonchus contortus corresponde a mais que 70% da carga parasitária dos animais. 

Além do grau de anemia, outros sinais clínicos podem ser auxiliares no diagnóstico e auxilio de tratamento das verminoses, como a presença de diarreias e da perda de condição corporal. Embora estes sinais possam estar relacionados com outros parasitos gastrintestinais além do Haemonchus contortus, eles também podem estar relacionados a outras doenças não-parasitárias e a causas nutricionais. Isto dificulta o seu emprego como critério de diagnóstico parasitário e de vermifugação.

O exame da contagem de ovos por grama de fezes (OPG) dá a possibilidade de obter uma estimativa do grau de infecção parasitária, que pode inclusive ser utilizado como critério de tratamento individual, mesmo se o Haemonchus não for o principal parasito. Além disso, o OPG é muito importante no teste de eficácia de anti-helmínticos que compara os resultados antes e após tratamento (comentado no artigo: "TRCOF teste de redução na contagem de ovos nas fezes"). Porém, não é possível com exatidão determinar quais os gêneros de vermes que predominam no rebanho, pois o OPG é quantitativo para a ordem Strongylida de parasitos (estrongilídeos) e qualitativos para alguns outros parasitos (Moniezia sp., Eimeria spp., Strongyloides papillosus e Nematodirus spp.).

Portanto, apenas com o OPG não é possível saber quais dos gêneros de estrongilídeos (Haemonchus sp. Trichsotrongylus sp., Cooperia spp. ou outros) estão presentes no rebanho e em que proporções (Figura 1).

Figura 1 - Ovos identificáveis no OPG e larvas identificáveis na coprocultura.

Para saber se o controle parasitário pode ser realizado adequadamente pelo FAMACHA©, OPG ou ambos, é imprescindível saber qual(is) verme(s) estão presentes no rebanho, inclusive os tipos de estrongilídeos. Para isso existe um exame chamado coprocultura ou cultura de larvas de nematoides que permite identificar os gêneros dos vermes e propor estratégias de manejo adequadas a cada rebanho. Portanto, é um exame auxiliar que ajuda na decisão dos critérios de tratamento, estratégias de controle e também no teste de eficácia de anti-helmínticos.

Para entender como funciona a coprocultura, é necessário relembrar o ciclo dos principais vermes gastrintestinais dos ovinos e caprinos. Os animais liberam os ovos dos vermes nas fezes, que contaminam o ambiente. Esses ovos eclodem, liberando a larva de 1º estádio (L1). Em condições de umidade, temperatura e oxigenação adequada, estas evoluem para larvas de 2º e de 3º estágio (infectante). Todo esse ciclo é dependente de fatores climáticos e ambientais (Figura 2).

Figura 2 - Ciclo biológico e influência de fatores climáticos e ambientais dos principais nematoides gastrintestinais de pequenos ruminantes.

 

Quando as fezes são coletadas diretamente do reto dos ovinos ou caprinos, é possível obter uma amostra fecal com ovos de parasitos que serão contados no exame de OPG. Porém, para a identificação dos gêneros dos estrongilídeos, é necessário fazer com que estes ovos evoluam até a fase infectante (L3), pois esta é passível de identificação por gênero. Sendo assim, a coprocultura se baseia em fornecer em laboratório as condições adequadas para que ovos presentes nas amostras de fezes possam evoluir até L3 e ser identificados. (Figura 3). O resultado final será dado em percentagem de gêneros encontrados, e possibilita saber qual(is) o(s) parasito (s) presente(s) no rebanho. 

Figura 3 - Larva de Trichostrongylus sp. identificada por sua morfologia no exame de coprocultura.

A coprocultura pode ser feita com um "mix" de fezes do rebanho. Para isto, coleta-se fezes de alguns animais (pelo menos 10% de cada lote de manejo), que posteriormente são misturadas e destinadas ao exame (Figura 4). É possível fazer exames individuais ou de grupos de animais dependendo do intuito da utilização da coprocultura.

Figura 4 - Coleta de fezes intra-retal de ovelha e posterior homogeneização com as fezes do restante do rebanho para a realização da coprocultura.

 

A seguir, alguns exemplos práticos da utilização da coprocultura no manejo parasitário do rebanho:

Rebanho 1:

Coprocultura: 90% Haemonchus sp. e 10 % Trichostrongylus sp.

Nesse caso, é possível utilizar um controle parasitário por meio do método FAMACHA©, pois o Haemonchus sp., parasito predominante, é hematófago (suga sangue) e pode ser diagnosticado clinicamente. Juntamente com FAMACHA©, outros critérios podem ser adotados de acordo com o sistema de produção e indicação do médico veterinário.

Rebanho 2:

-Coprocultura: 80% de Trichostrongylus sp. e 20% de Haemonchus sp.

Nesse caso, o FAMACHA© não é indicado como única ferramenta de controle, pois o Trichostrongylusnão é um parasito hematófago. Este parasita causa lesões intestinais e diarréia; a anemia aparece quando o quadro já está muito agravado. A contagem de OPG e o grau de diarréia podem ser importantes indicativos de tratamento individual dos indivíduos mais parasitados.

O ideal é realizar a coprocultura bimestral ou trimestralmente em um rebanho, conforme a região do território nacional onde a criação esteja localizada. Isto é importante devido às variações sazonais na proporção de gêneros na população parasitária. Na impossibilidade disso ser realizado, indica-se fazer pelo menos uma coprocultura de larvas de nematoides gastrintestinais no rebanho para saber quais os vermes predominantes, juntamente com o teste de redução da contagem de ovos nas fezes (TRCOF). Como os gêneros de estrongilídeos podem apresentar diferenças na susceptibilidade aos grupos químicos de vermífugos, a coprocultura auxilia muito na escolha do medicamento. Alguns laboratórios veterinários fazem o exame, mas é importante especificar que é coprocultura de larvas de nematoides, para evitar ser confundido com coprocultura de bactérias. Profissionais habilitados e universidades que tenham cursos de veterinária também podem fazer o exame.

Sendo assim, percebe-se que a coprocultura é um exame importantíssimo na decisão de critérios de tratamento, na visualização do grau de infecção parasitária e na escolha de medicamentos anti-helmínticos junto ao teste de eficácia, devendo ser incluído no controle parasitário periódico do rebanho.

JORDANA ANDRIOLI SALGADO

Médica Veterinária (UFPR).
Mestre em Ciências Veterinárias (UFPR/LAPOC).
Doutora em Biociências e Biotecnologia (UENF).
Pós doutoranda em Ciência Animal (PUCPR)
Consultora em ovino/caprinocultura e doenças parasitárias.

FERNANDA ROSALINSKI MORAES

Médica Veterinária (UFPR/1999), Mestre em Ciencias Veterinárias (UFPR/2002) e Doutora em Processos Biotecnológicos (UFPR 2007) Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal de Uberlândia, MG.

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ÉRICA SENNA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - ESTUDANTE

EM 09/09/2019

Dra bom dia estamos fazendo um pesquisa referente ao trichostrongylus.
Gostaria de saber até aonde esse parasita afeta o homem e o meio ambiente?
PAULO EUSTAQUIO MACEDO

BETIM - MINAS GERAIS

EM 02/06/2015

Parabéns e obrigado pela atenção, são pessoas como vocês que fazem a diferença.
JORDANA ANDRIOLI SALGADO

CURITIBA - PARANÁ - OVINOS/CAPRINOS

EM 01/06/2015

Prezado Paulo Eustaquio.

O ciclo parasitário ocorre principalmente nas pastagens, mas animais confinados onde há acúmulo de fezes e matéria orgânica (feno, capim...) também estão propícios a tais infecções se o ambiente não for limpo periodicamente.

Indico a leitura dos artigos:

Sistemas de produção e verminose Partes e I e II.



http://www.farmpoint.com.br/radares-tecnicos/sistemas-de-producao/sistemas-de-producao-e-verminose-parte-ii-de-ii-77790n.aspx.

Att.
PAULO EUSTAQUIO MACEDO

BETIM - MINAS GERAIS

EM 29/05/2015

Boa tarde! gostaria de saber se os carneiros são infectados só no pasto ou também  nas instalações onde dormem sobre o esterco?

Obrigado.
BÁRBARA CAROLINA VEIGA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 03/10/2014

Olá Pessoal,



Ainda dá tempo de participar do curso online sobre Controle Parasitário em Ovinos e Caprinos.

Está sendo ministrado pelo Dr. Marcelo Beltrão Molento que trouxe o método FAMACHA para o Brasil.



Se inscrevam, acessando: http://www.agripoint.com.br/curso/controle-parasitas/

Maiores informações no e-mail: barbara@agripoint.com.br.



Obrigada.

Abs.



MARCIO RODRIGUES DE SOUZA

MATO GROSSO DO SUL - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 26/09/2014

Parabéns pelo bom trabalho, material objetivo e claro...
GENIVAN DE JESUS SILVA

LINHARES - ESPÍRITO SANTO - ESTUDANTE

EM 17/06/2013

muito bom mesmo me  auxiliou muito em meus estudos e pesquisas.....
CRISTIANE DIAS

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 29/05/2013

Muito bom o artigo. Na nossa propriedade usamos o método Willis e ele acusou ovo da Ancylostoma sp. Esse método é adequado? Esse parasita é importante? Não achei quase nenhum texto sobre ele em ovinos.
WALTER

BANABUIÚ - CEARÁ - PRODUÇÃO DE CAPRINOS DE LEITE

EM 01/02/2013

parabens pelo artigo muito enriquecedor
EGBERTO DA CUNHA GRELLERT

SÃO LOURENÇO DO SUL - RIO GRANDE DO SUL

EM 22/05/2012

Muto Bom e esclarecedor este artigo colegas. Nota 10!
CARLA ARMENIO PRETTO

SOROCABA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE OVINOS DE LEITE

EM 11/05/2012

Jordana,

gostaria, sim, que vc me enviasse alguns artigos que achar interessantes sobre o assunto.

Desde já, obrigada

clinvet2004@yahoo.com.br
JORDANA ANDRIOLI SALGADO

CURITIBA - PARANÁ - OVINOS/CAPRINOS

EM 10/05/2012

Prezada Carla Pretto, nos artigos aqui do Farmpoint " Sistemas de Produção e Verminose partes 1 e 2" você já encontra bastante informações sobre nutrição e verminose. Ainda aqui no site, há um artigo sobre" Proteína na alimentação de ovinos e verminose", também muito interessante.

Se quiser algo mais científico tenho inúmeros artigos e revisões e  lhe envio por e-mail.



Abraços.



CARLA ARMENIO PRETTO

SOROCABA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE OVINOS DE LEITE

EM 09/05/2012

Jordana,

como disse, estou estudando bastante sobre toda a produção de ovinos de leite, e me interessei por essa sua observação de manejo nutricional para controle da verminose... será que você poderia me mandar alguns artigos que tratem do assunto?

obrigada

CARLA ARMENIO PRETTO

SOROCABA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE OVINOS DE LEITE

EM 09/05/2012

Pedro,

com certeza, informação nunca é demais... ainda mais para mim que estou começando... mande- me seu contato. O meu é clinvet2004@yahoo.com.br.

Abs

Carla
LUANA FROSSARD

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - ESTUDANTE

EM 08/05/2012

Parabéns pelo artigo. Muito enrriquecedor.
TIAGO SCHULTZ

MAFRA - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 08/05/2012

PARABENS! Exelentes informaçoes, sao certos "detalhes" que fazem a diferença. Quantas vezes apliquei vermifugos e foi mesma coisa que aplicar agua. Hj nao deixo de fazer o OPG.
JORDANA ANDRIOLI SALGADO

CURITIBA - PARANÁ - OVINOS/CAPRINOS

EM 08/05/2012

Prezado Pedro, obrigada pelas considerações.

Infelizmente o controle das endoparasitoses em pequenos rumiantes não é simples. Porém, os exames laboratoriais e clínicos nos ajudam a entender melhor o problema e a propor estratégias de manejo.

Na ovino/caprinocultura leiteira, em especial, ainda há a dificuldade com os resíduos no leite, mas muitos estudos estão sendo direcionados para  propor formas alternativas de controle. O manejo nutricional, por exemplo, interfere na resposta imunológica ao parasitismo podendo realmente ajudar no controle da verminose.

Att.
JORDANA ANDRIOLI SALGADO

CURITIBA - PARANÁ - OVINOS/CAPRINOS

EM 08/05/2012

Prezada Giselle Cutrim de Oliveira, obrigada por acompanhar os artigos e pelos comentários. O método Famacha tem se mostrado importante aliado no controle de verminose por Haemonchus contortus, diminuindo drasticamente o uso desnecessário de anti-helmínticos. É muito bom saber que está tendo bons resultados aí no Maranhão.

Att.
JORDANA ANDRIOLI SALGADO

CURITIBA - PARANÁ - OVINOS/CAPRINOS

EM 08/05/2012

Prezada Carla Armenio Pretto, obrigada pelas considerações. A ovinocultura leiteira está crescendo e ganhando seu espaço, fico contente de poder ajudar de alguma forma para que tenha sucesso em sua produção. Estou à disposição.
PEDRO PORTO

VASSOURAS - RIO DE JANEIRO

EM 07/05/2012

Carla  Pretto! se desejar trocar algumas informacoes sobre ovinocultura leitera, estou a disposicao.

Abs,Pedro.