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Perda embrionária em caprinos- Parte 1

POR ANDRÉ MACIEL CRESPILHO

PRODUÇÃO

EM 21/09/2009

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Um embrião pode ser definido como o produto das primeiras modificações que ocorrem após a fecundação do óvulo pelo espermatozóide, se desenvolvendo até o final da fase de organogênese (formação dos órgãos vitais que constituirão o organismo adulto) que se completa nos primeiros meses de gestação. Já o feto representa o concepto em um período mais avançado de desenvolvimento, que sofre a maturação necessária para originar a futura cria imediatamente após o parto (GIVENS & MARLEY, 2008). Durante todo esse percurso de desenvolvimento que culmina com a parição, muitos fatores externos e até mesmo internos (inerentes à fêmea gestante) podem atuar causando a morte embrionária.

Embora diversos trabalhos reportem uma maior incidência de mortes para o período pós-parto na espécie caprina, os abortos ou reabsorções fetais, sobretudo por problemas infecciosos maternos, podem acarretar grande prejuízo aos sistemas de produção, seja pelo impacto negativo sobre a taxa de desfrute do rebanho, como também pelo comprometimento da fertilidade futura da matriz (GIVENS & MARLEY, 2008).

O maior problema relacionado às perdas embrionárias, que comumente ocorrem em função de abortos ou falhas de concepção após cobertura ou inseminação artificial, é que na grande maioria das vezes tais episódios passam desapercebidos pelo criador, não sendo tão evidentes quanto as perdas após o nascimento (MEDEIROS et al., 2005). Em virtude dessa característica muitas vezes "silenciosa", grandes prejuízos econômicos estão associados às perdas pré-natais. Nesse sentido, o objetivo dessa matéria é abordar as principais causas que levam a morte embrionária e fetal em caprinos.

Mas o que é o aborto?

Aborto pode ser definido como a perda fetal durante qualquer momento da gestação, embora seja comumente observado nos últimos dois meses que antecedem o parto em caprinos (HASKELL, 2008). Geralmente quando as perdas fetais ocorrem do início a primeira metade da gestação não se observam manifestações clínicas (reabsorção fetal ocorre de forma assintomática), o que dificulta a detecção do problema por técnicos e funcionários das propriedades (MOBINI et al,. 2002).

As principais causas que levam ao aborto correspondem a problemas de origem infecciosa (contaminação do ambiente uterino materno por microorganismos), estresse severo (estresse térmico, estresse ambiental em função de problemas estruturais das propriedades como no caso da superlotação das áreas de manejo), deficiência nutricional (incluindo não apenas a baixa disponibilidade de alimento, como também as falhas na "mineralização" das fêmeas gestantes), além da ingestão de plantas tóxicas.

Segundo Smith & Sherman (1994), índices de aborto de até 5% são considerados normais dentro de uma propriedade salientando-se, no entanto, que taxas ao redor de 2% representam o panorama ideal para a produção de caprinos.

Dentre os diferentes fatores que podem ocasionar o aborto, as causas infecciosas representam as de maior incidência, e provavelmente, as que acarretam maior prejuízo econômico ao pecuarista (MOBINI et al,. 2002).

Os principais agentes infecciosos responsáveis por abortos na espécie caprina encontram-se relacionados na Tabela-1.

Tabela 1. Principais enfermidades infecciosas causadoras de abortos em caprinos.



A transmissão do aborto infeccioso varia na dependência do tipo de agente causador. No entanto, para a grande maioria das doenças a contaminação se dá pela ingestão de água ou alimento contaminado pelos microorganismos causadores. Geralmente essa contaminação se dá por fezes de animais enfermos (Toxoplasmose, Samonelose, Clamidiose), urina (especialmente importante no caso da Leptospirose) e restos placentários, secreções ou fetos abortados (Brucelose, Leptospirose, Micoplasmose).

A grande maioria dos agentes etiológicos envolvidos no aborto caprino possuem hospedeiros intermediários (outros animais, sobretudo silvestres, que abrigam os microorganismos) com importante papel na transmissão das doenças, como é o caso dos roedores e pombos que atuam decisivamente na disseminação da Leptospirose e Clamidiose, respectivamente.

Causas não infecciosas para o aborto

Tão importante quanto as causas infecciosas, uma gama de outros fatores podem desencadear o aborto em caprinos. Segundo Vanroose et al., (2000), as causas não infecciosas podem ser responsáveis por cerca de 70% dos casos de perda embrionária. Em virtude de tão expressiva casuística, os tópicos abaixo sumarizam as principais causas não infecciosas envolvidas nas perdas embrionárias e fetais em caprinos.

- Fatores genéticos: a raça Angorá é apontada como a mais predisposta geneticamente a apresentar abortos espontâneos. Segundo Romero et al., (1998), a raça sofreu uma grande pressão de seleção (incluindo acasalamentos muitas vezes consangüíneos entre animais com parentesco) priorizando o crescimento do velo, e outras características produtivas, como no caso a reprodução, foram deixadas em um segundo plano justificando a maior incidência de abortos em relação as demais (índices de perda embrionária espontânea de até 29%). Em outro estudo abordando a infertilidade em caprinos, foi observado que 51% dos animais que apresentaram problemas reprodutivos, como no caso o aborto, exibiam algum tipo de alteração nos cromossomos (DNA ou código genético animal), evidenciando o papel dos distúrbios genéticos como causa de infertilidade ou perda embrionária na espécie (BHATIA & SHANKER, 1996).

- Deficiência energética da fêmea gestante: a redução na disponibilidade ou na qualidade do alimento impactua diretamente na incidência de abortos. Reduzindo-se a energia metabolizável da dieta para 35% da taxa de mantença para cabras prenhes da raça Angorá foram observados índices de perda embrionária ao redor de 44%, frente aos 10% contabilizados para o grupo de animais recebendo dieta integral (CONWAY et al., 1996).

- Estresse ambiental: independente do estímulo estressante (escassez de forragem, insuficiente número de cochos levando a uma maior disputa por alimento, superlotação..) o organismo animal responde às condições adversas através do aumento da produção e secreção do hormônio cortisol (hormônio associado ao estresse). O aumento no cortisol sangüíneo, por sua vez, altera a produção dos hormônios progesterona (responsável pela manutenção da gestação em caprinos) e estradiol (hormônio diretamente envolvido no trabalho de parto) resultando em reabsorção fetal, aborto ou nascimento prematuro (ROMERO et al., 1998).

- Estresse térmico: em virtude das alterações hemodinâmicas ocorridas na fêmea gestante em condições de estresse térmico, o tamanho da placenta e dos anexos placentários (estruturas chamadas de cotilédones, responsáveis pelas trocas gasosas e de nutrientes entre a circulação materna e fetal), bem como o desenvolvimento dos diferentes órgãos vitais que compõe o feto ficam comprometidos, situação que pode induzir a abortos ou parição de produtos subdesenvolvidos em relação ao tamanho médio de cada raça (CRESPILHO, 2009).

- Mudanças climáticas: maiores índices de aborto são observados para animais criados em condições tropicais e que são submetidos a quedas abruptas na temperatura ambiental (ROMERO et al., 1998).

- Plantas tóxicas: são conhecidas cerca de 111 variedades de plantas tóxicas no Brasil, das quais destaca-se a espécie Aspidosperma pyrifolium, popularmente conhecida como "pereiro" como potencialmente tóxica para caprinos, levando a ocorrência de abortos ou nascimento de animais debilitados que morrem após o parto. O período de maior prevalência das intoxicações ocorre na época de queda da folhagem (SILVA et al., 2006), que por sua vez coincide com o período de estiagem no qual se observa uma menor disponibilidade de forragem que predispõe ao consumo de uma ampla variedade de plantas tóxicas.

- Deficiências minerais: Deficiências nutricionais específicas ou a desnutrição e subnutrição produzem efeitos negativos sobre o embrião, especialmente a severa deficiência de vitamina A e de minerais como cobre, zinco, iodo e manganês que funcionam como reguladores do metabolismo animal (MEDEIROS et al., 2005; VANROOSE et al., 2000).

- Insuficiência do Corpo Lúteo (CL): o CL é o principal responsável (sobretudo na espécie caprina) pela manutenção da gestação, atuando na produção do hormônio progesterona. Alterações na estrutura ou no tamanho do CL estão diretamente relacionadas a perda embrionária ou falhas na implantação das estruturas no útero materno, situação especialmente comum aos programas de transferência de embriões.

Medidas Preventivas

Segundo levantamentos de Pinheiro et al., (2000), os abortos representam a terceira principal síndrome apresentada por caprinos criados em sistemas extensivos e semi-intensivos do Ceará em número de casos/ano (atrás somente da verminose e diarréia), resultados em grande parte atribuídos ao baixo índice de utilização das práticas de manejo sanitário por parte dos criatórios.

Independente da origem dos quadros de aborto (infeccioso ou não), medidas simples relacionadas a sanidade animal e a boas práticas de manejo podem atuar decisivamente na redução dos surtos nas propriedades, entre elas:

- Instituição de um período mínimo de 30 dias de quarentena (área especialmente designada para esse fim dentro da propriedade) antes da introdução de novos animais ao rebanho.
- Adequado aporte nutricional e correta "mineralização", permitindo a manutenção de bons escores de condição corporal e maior homogeneidade dos lotes de animais.
- Utilização de vacinas (quando disponíveis para a espécie), especialmente em regiões onde ocorre uma grande incidência de abortos.
- Proporcionar conforto ambiental, com adequado número de cochos e aguadas, formação de lotes específicos para fêmeas gestantes, evitando-se a superlotação, estresse térmico e conferindo, sobretudo, "tranqüilidade" na lida cotidiana com os animais.
- Combate a pragas (sobretudo em galpões e instalações utilizadas para armazenagem de alimento e insumos) como insetos, roedores e pássaros que apresentam papel importante na transmissão de doenças.
- Limpeza e manutenção de pastagens, atentando para o problema das plantas tóxicas.
- Evidenciando-se um feto abortado, proporcionar a limpeza do local com soluções desinfetantes, atuando dessa maneira, na prevenção do aparecimento de novos casos.
- Adoção de cuidados pessoais como a utilização de luvas para o auxílio durante um trabalho de parto ou na manipulação de restos fetais e placentários, já que a grande maioria das doenças que causam aborto representam zoonoses passíveis de transmissão aos seres humanos.
- Assessoria veterinária especializada para atuar nos casos de infertilidade do rebanho e na orientação quanto a remessa de material (restos fetais e placentários) aos laboratórios de referência, proporcionando um diagnóstico preciso para a resolução do problema de cada propriedade.

Referências

BHATIA, S.; SHANKER, V. Chromosome abnormalities in reproductively inefficient goats. Small Ruminant Research, v. 19, p.155-159, 1996.

CONWAY, M.L.T.; BLACKSHAW, J.K; DANIEL, R.C.W. The effect of agonistic behaviour and nutritional stress on both the success of pregnancy and various plasma constituents in Angora goats. Applied Animal Behaviour Science, v.48, p.1-13, 1996.

CRESPILHO, A.M. Efeito do estresse térmico durante a gestação e suas consequências no desenvolvimento das crias. Radar Técnico em Sanidade Animal, 2009. Disponível em: www.farmpoint.com.br

HASKELL, S.R.R. Keratoconjunctivitis/Conjunctivitis. In____.: Blackwell's Five Minute Veterinary Consult: Ruminant. ed.1. Ames: Iowa/USA: Wiley-Blackwell, p.450-453, 2008.

MOBINI, S.; HEATH, A.M.; PUGH, D.G. Theriogenology of Sheep and Goats. In:___. Sheep and Goats Medicine. 1.ed. Philadelphia: W.B. Saunders Company. v.1, p. 129-186, 2002.

PINHEIRO, R.R; GOUVEIA, A.M.G; ALVES, F.S.F. et al. Aspectos epidemiológicos da caprinocultura cearense. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v.52, n.5, 2000.

ROMERO, C.M.; LÓPEZ, G.; LUNA, M. Abortion in goats associated with increased maternal cortisol. Small Ruminant Research, v.30, p.7-12, 1998.

SILVA, D.M.; RIET-CORREA, F.; MEDEIROS, R.M.T. et al. Plantas tóxicas para ruminantes e eqüídeos no Seridó Ocidental e Oriental do Rio Grande do Norte. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 26, n.4, p.223-236, 2006.

SMITH, M.C.; SHERMAN, D.M. Ocular System. In____.: Goat Medicine. Ed.1. Baltimore/USA: Lippincott Williams & Wilkins, v.1, p.179-190, 1994.

VANROOSE, G.; KRUIF, A.; SOOM, A. Embryonic mortality and embryo-pathogen interactions. Animal Reproduction Science, v.60-61, p.131-143, 2000.

ANDRÉ MACIEL CRESPILHO

VetSemen - Primeiro laboratório privado especializado na análise de qualidade do sêmen utilizado em programas de inseminação artificial.

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GRANJA SUASSUMÉ

PIEDADE - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAPRINOS DE CORTE

EM 21/09/2009

Muito util o artigo: amplo, sem ser discursivo, abrangente, objetivo e claro!