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Os fungos e a contaminação com micotoxinas em alimentos de uso zootécnico: parte 2

POR RAFAEL CAMARGO DO AMARAL

E THIAGO FERNANDES BERNARDES

PRODUÇÃO

EM 13/03/2007

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As micotoxinas e a cultura do milho

O ambiente tropical favorece o desenvolvimento e a proliferação da maioria dos fungos ligados a produção de micotoxinas com importância na agropecuária. Portanto, a adoção de determinadas medidas na fase de cultivo, na colheita e no armazenamento dos grãos pode reduzir a concentração destas no produto final.

1. O Cultivo

A capacidade do fungo de infestar a planta e as circunstâncias que o induzem a produzir a micotoxina em quantidades elevadas são determinadas pelas condições ambientais (picos de temperatura muito elevados, ambiente quente e úmido durante a maturação) e por todas as causas comuns de stress ou de desequilíbrio que ocorrem com a cultura ao longo do período de cultivo, como carência de água (stress hídrico), ataque de patógenos e pragas e carência ou desequilíbrio de elementos nutritivos.

a) Híbrido:

Quanto à escolha do híbrido, não há na literatura uma indicação conclusiva de genótipos que sejam resistentes ao desenvolvimento das toxinas. Mas algumas características morfológicas da espiga e dos grãos podem apresentar vantagens para que não ocorra o ataque do fungo, como:

-completa cobertura da espiga e brácteas consistentes contra o ataque de insetos e de outros patógenos;
-porte não ereto da espiga para evitar o acúmulo de água da chuva e a reidratação dos grãos;
-grãos menos susceptíveis aos danos mecânicos, os quais ocorrem principalmente durante a colheita.

b) Adubação:

Um aporte de nutrientes sub-ótimo ou o desequilíbrio dos mesmos está correlacionado positivamente com a intensidade de infestação do fungo e a produção de micotoxina.

c) Carência hídrica:

Em relação ao stress hídrico, a colonização e o sucessivo desenvolvimento do fungo se encontra quando a planta apresenta desequilíbrio na evapotranspiração, causada pelo inadequado fornecimento de água e temperaturas excessivas, situação típica dos veranicos ocorridos no Brasil.

d) Ataque de pragas:

O ataque de larvas de determinados insetos também provoca injúrias nos tecidos da espiga, o que serve de porta de entrada para a colonização do fungo. O acompanhamento da infestação causada por pragas e os seus possíveis danos, também pode reduzir a presença da micotoxina no grão.

e) Antecipação da colheita:

Quando o milho completa a maturidade fisiológica, cessa a translocação de nutrientes da planta para os grãos, momento em que os mesmos apresentam a máxima concentração de amido, proteína e óleo, com umidade média de 30%. A fase sucessiva de perda de umidade no campo, até os grãos atingirem 18-20% (época de colheita), se torna crítica, pois o isolamento dos grãos da planta mãe os torna extremamente susceptíveis ao ataque de fungos.

2. A Colheita e o armazenamento

Ao regular com acurácia a colhedora, se reduz o rompimento e a quebra dos grãos e a pré-limpeza destes dos materiais com menor peso específico, também é importante.

Os grãos com lesões e microfissuras constituem um substrato ideal para o desenvolvimento de fungos, tornando a etapa de armazenamento e de conservação mais preocupante. Os grãos provenientes da ponta da espiga também são mais atacados, pois são menores, mais leves e mais sujeitos as injúrias.

Portanto, durante a colheita, o agricultor deve estar atento à velocidade excessiva da colhedora, regular a distância e a velocidade dos batedores em função do tipo de produto que está colhendo (variedade; umidade; forma dos grãos), aumentar o fluxo de ar na colhedora e colher antecipadamente a área da cultura particularmente estressada, se existir.

A redução do intervalo de tempo entre a colheita e a secagem previne a proliferação dos fungos, pois nas primeiras horas após a colheita se ativa o processo de oxidação e de fermentação, com perda de MS e aumento de temperatura da massa.

A umidade final do grão adequada ao tempo de armazenamento é a condição primária para inibir a atividade fúngica durante a fase de conservação.

As micotoxinas nas silagens

A ensilagem deveria ser a princípio, o método ideal para conservar a forragem ou os grãos da contaminação com micotoxinas, pois após a colheita a massa é estocada em condições de anaerobiose e baixo pH, ambiente incompatível para o desenvolvimento de fungos filamentosos.

Entretanto, a silagem é potencialmente sujeita a deterioração aeróbia, preferencialmente nas áreas periféricas do silo. Os fungos filamentosos se desenvolvem em grande quantidade quando a silagem permanece em contato com o ar por um longo período de tempo. A proteção contra a infiltração de ar durante a estocagem e a correta gestão do silo durante a fase de utilização evitam o fenômeno de deterioração aeróbia e inibe a proliferação dos microrganismos produtores de micotoxinas.

Cavallarin et al. (2004) realizaram o monitoramento em 20 fazendas localizadas no norte da Itália sobre a distribuição espacial de micotoxinas (zearalenona, aflatoxina B1 (AFB1) e fumosina B1) presentes em silagens de milho (Tabela 1). Nas zonas periféricas que estavam evidentemente deterioradas foram observados valores até 40 vezes superiores àqueles relacionados com a forragem que deu entrada no silo, entretanto nas zonas centrais e nas áreas não deterioradas os valores se mantiveram semelhantes à forragem original.

Elevados conteúdos de zearalenona também foram observados nas áreas próximas aquelas com presença evidente de mofos, sendo que estas zonas apresentavam temperatura elevada indicando forte atividade microbiológica naquele momento. Em 20% dos casos a contaminação com esta micotoxina excedeu o valor de 200 ppb, que representa a concentração máxima admitida por alguns paises (por exemplo, a França) com a contaminação de alimentos para o consumo humano.

Quanto a AFB1, do total das amostras analisadas, 22% apresentavam valor acima de 4 ppb, o que determina risco de contaminação do leite com aflatoxina M1 quando os animais são mantidos em sistemas intensivos, consumindo mais de 25 kg de silagem/dia (Veldman et al., 1992).

Tabela 1. Ocorrência de zearalenona, aflatoxina B1 e fumosina B1 em silagens de milho, expresso em relação ao numero total de amostras (n=186).


AND = não detectado; BC = centro do silo; CT = topo do silo
Fonte: Cavallarin et al. (2004)

Portanto, as áreas do silo mais próximas à atmosfera são por natureza, mais sujeitas a infiltração de ar, freqüentemente devido a maior porosidade da massa e aos materiais utilizados na cobertura. Desse modo, a multiplicação dos fungos pode continuar lentamente durante todo o período de estocagem e chegar ao momento de abertura do silo com elevada população, o que pode vir acompanhado da produção de micotoxinas.

Desse modo, antes da ensilagem, é necessário dimensionar adequadamente os silos em relação à demanda diária, pois se esta etapa for negligenciada a silagem deixa de se comportar como eficiente opção na conservação de alimentos por problemas relacionados às perdas e desenvolvimento de microrganismos indesejáveis.

RAFAEL CAMARGO DO AMARAL

Zootecnista pela Unesp/Jaboticabal.
Mestre e Doutor em Ciência Animal e Pastagens pela ESALQ/USP.
Gerente de Nutrição na DeLaval.
www.facebook.com.br/doctorsilage

THIAGO FERNANDES BERNARDES

Professor do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Lavras (UFLA) - MG.
www.tfbernardes.com

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