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Fatores estressores na produção de cordeiros

VÁRIOS AUTORES

PRODUÇÃO

EM 30/09/2010

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Alterações ambientais como exposição ao calor ou frio intenso, introdução de novos indivíduos no rebanho e mudanças bruscas na alimentação, assim como a ocorrência de doenças infecciosas e parasitárias podem provocar uma série de reações no organismo, levando os animais ao estresse. Além disso, as práticas de manejo realizadas nos sistemas de produção podem influenciar no grau de estresse dos animais, principalmente dos cordeiros. Dessa forma, decisões tomadas por produtores e técnicos na condução das atividades de manejo do rebanho podem favorecer a exposição dos animais a fatores estressores, influenciando o desempenho produtivo dos mesmos.

Entre as práticas de maior impacto na condição de estresse de cordeiros destaca-se o desmame precoce, que é indicado e utilizado como estratégia em programas visando controle parasitário e manejo reprodutivo acelerado do rebanho ovino, além do uso do desmame para terminação dos cordeiros em confinamento. O objetivo deste artigo é descrever alguns aspectos relacionados ao desmame precoce que afetam o grau de estresse e o desempenho dos cordeiros em pastejo.

As reações que ocorrem no organismo em condições de alto estresse resultam na liberação de neurotransmissores (adrenalina), opióides endógenos (-endorfinas) e glicocorticóides (cortisol) na corrente sanguínea. Quando os animais permanecem por período prolongado sob alto estresse, a ação dos glicocorticóides reduz a imunidade e aumenta a suscetibilidade a doenças (Eloy, 2007). Esse quadro é denominado estresse crônico. O desmame precoce, realizado entre 45 e 60 dias de idade, e a oferta de alimentos no período pós desmame que por algum motivo não atendam às necessidades nutricionais, se destacam como fatores estressores que afetam os cordeiros nas fases de recria e terminação.

Em experimento conduzido no Laboratório de Produção de Ovinos e Caprinos da Universidade Federal do Paraná (LAPOC-UFPR) entre 2008 e 2009, registrou-se ocorrência de estresse crônico em cordeiros desmamados aos 45 dias de idade e mantidos em pastagem de Tifton-85 durante o verão (Figura 1). O ganho médio diário destes animais foi de 69 g/animal/dia e de cordeiros não desmamados foi de 173 g/animal/dia (Salgado et al., 2009). Outros resultados de desempenho de cordeiros foram relatados em manejo de desmame precoce e terminação em pasto (Tabela 1).

A ausência da mãe, a falta do leite como fonte de nutrientes, a pouca experiência de pastejo e a baixa eficiência de aproveitamento da forragem consumida constituem os principais fatores que contribuem para a manutenção do alto grau de estresse em cordeiros mantidos em pastagem após o desmame. Além disso, a permanência desta condição por período prolongado resulta em diminuição da resposta imune, aumentando a suscetibilidade a doenças infecciosas e a parasitoses. Quando estes fatores atuam em conjunto, o desempenho dos cordeiros pode ser comprometido.

Figura 1 - Estresse crônico reduz o desempenho de cordeiros terminados em pastagem: cordeiro desmamado (à frente da cerca) e cordeiros não desmamados (atrás da cerca) apresentam a mesma idade, próxima de quatro meses.





No experimento realizado entre 2008-2009 no LAPOC-UFPR, registraram-se níveis elevados de cortisol na corrente sanguínea 21 dias após o desmame, e permanência de alta relação neutrófilo:linfócito por 42 dias em cordeiros desmamados precocemente e mantidos em pastagem (Figura 2).

Ressalta-se que alterações no leucograma como neutrofilia (aumento de neutrófilos), linfopenia (diminuição de lifócitos) e eosinopenia (diminuição de eosinófilos) é normal sob condições de estresse prolongado, o que determina aumento da relação neutrófilo:linfócito em ruminantes (Jones e Allison, 2007). Portanto, este resultado indicou provável redução da resposta imune nos cordeiros, o que favoreceu o aumento da contaminação parasitária e resultou no ganho de peso insatisfatório observado nestes animais, conforme relatado por Salgado et al. (2009).

Figura 2 - Estresse crônico ocasionado pelo desmame aumenta a liberação de cortisol na corrente sanguínea (A) e prejudica a resposta imune (B) dos cordeiros. A linha representa a média para concentração sérica de cortisol (11,44 nmol/L) e para relação neutrófilo:linfócito (0,79). Fonte: Fernandes (2010).



Embora a prática de desmame precoce determine alto grau de estresse aos cordeiros, isso não significa que ela deva ser descartada dos sistemas intensivos de produção de ovinos. No entanto, a melhoria da dieta ofertada aos cordeiros no pré e pós-desmame deverá acompanhar a utilização desta prática. O uso de pastagens de alta qualidade com elevada quantidade de folhas e a oferta de alimentos concentrados em creep feeding logo após o nascimento, seja em pastejo ou confinamento, favorecem o desempenho dos cordeiros no período pré-desmame, resultando em animais mais pesados para o desmame entre 45 e 60 dias de idade.

Após o desmame, a melhoria da qualidade da dieta poderá ser realizada por meio da oferta de suplementos concentrados em pastejo ou do aumento do teor de alimentos concentrados da ração fornecida em confinamento. Em ambos os casos, o balanceamento adequado do suplemento ofertado em pastejo e da ração fornecida em confinamento poderá resultar em ganho médio diário semelhante aos sistemas em que os cordeiros não são desmamados, conforme demonstrado por Poli et al. (2008), Ribeiro et al. (2009) e Salgado et al. (2009) e já publicados em colunas anteriores de nossa autoria.

Os resultados obtidos permitem concluir que o grau de estresse após o desmame é atribuído, principalmente, a condição nutricional ofertada aos cordeiros. Portanto, a oferta de alimentos de alta qualidade e em quantidade suficiente é necessária para que cordeiros desmamados precocemente possam superar o estresse ocasionado pelo desmame, e apresentar desempenho satisfatório, e respeitando-se essa condição, vários modelos produtivos, em pasto ou em confinamento poderiam ser empregados.


Referências bibliográficas

CARVALHO, S.; BROCHIER, M.A.; PIVATO, J.; TEIXEIRA, R.C.; KIELING, R. Ganho de peso, características da carcaça e componentes não-carcaça de cordeiros da raça Texel terminados em diferentes sistemas alimentares. Ciência Rural, v.37, n.3, p.821-827, 2007.

ELOY, A.M.X. Estresse na produção animal. Sobral-CE: Embrapa Caprinos, 2007 (Comunicado Técnico).

FERNANDES, M.A.M.; MONTEIRO, A.L.G.; POLI, C.H.E.C.; BARROS, C.S.; RIBEIRO, T.M.D.; SILVA, A.L.P. Características das carcaças e componentes do peso vivo de cordeiros terminados em pastagem ou confinamento. Acta Scientiarum Animal Science, v.30, n.1, p.75-81, 2008.

FERNANDES, S.R. Perfis bioquímicos, hematológicos e características de carcaça de cordeiros em diferentes sistemas de terminação. 2010. 98f. Dissertação (Mestrado em Ciências Veterinárias) - Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2010.

JONES, M.L.; ALLISON, R.W. Evaluation of the ruminant complete blood cell count. Veterinary Clinics Food Animal Practice, v.23, p.377-402, 2007.

MACEDO, F.A.F.; SIQUEIRA, E.R.; MARTINS, E.L. Análise econômica da produção de carne de cordeiros sob dois sistemas de terminação: pastagem e confinamento. Ciência Rural, v.30, n.4, p.677-680, 2000.

POLI, C.H.E.C.; MONTEIRO, A.L.G.: BARROS, C.S.; MORAES, A.; FERNANDES, M.A.M.; PIAZZETTA, H.V.L. Produção de ovinos de corte em quarto sistemas de produção. Revista Brasileira de Zootecnia, v.37, n.4, p.666-673, 2008.

RIBEIRO, T.M.D.; MONTEIRO, A.L.G.; PRADO, O.R.; NATEL, A.S.; SALGADO, J.A.; PIAZZETTA, H.L.; FERNANDES, S.R. Desempenho e características das carcaças de cordeiros em quatro sistemas de produção. Revista Brasileira de Saúde e Produção Animal, v.10, n.2, p.366-378, 2009.

SALGADO, J.A., SOUZA, D.F., MONTEIRO, A.L.G., HENTZ, F., SILVA, M.G.B., PAULA, E.F.E., CRUZ, T.A. Efeito do desmame e da suplementação sobre a infecção parasitária e desenvolvimento ponderal de cordeiros terminados em sistemas na pastagem. In: Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, 46., 2009, Maringá. Anais... Viçosa: SBZ, [2009]. (CDROM).

SERGIO RODRIGO FERNANDES

Zootecnista pela UFPR. Mestre e atualmente doutorando em Ciências Veterinárias na UFPR. Participa de pesquisas com sistemas de produção de bovinos (LAPBOV-UFPR), caprinos e ovinos para corte (LAPOC-UFPR). Atua na área de nutriçao de ruminantes.

ALDA LÚCIA GOMES MONTEIRO

Coordena o Laboratório de Produção e Pesquisa em Ovinos e Caprinos (LAPOC) da UFPR

LUCIANA HELENA KOWALSKI

Médica Veterinária pela UFPR. Mestranda em Nutrição e Produção Animal pela UFPR- Campus Palotina. Tem experiência e atua na área de produção e reprodução de ovinos e caprinos.

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