Você ganhou da Inflação?

dados mostram que, entre janeiro de 2009 e abril de 2011, preço do leite ao produtor subiu mais do que o custo de produção.

Publicado por: MilkPoint

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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No artigo anterior, demonstrei que os preços dos derivados lácteos cresceram menos que a inflação, entre janeiro de 2009 e abril 2011. Uma exceção foi o preço do Leite Longa Vida. Para maiores detalhes, clique aqui. Agora, vamos fazer o inverso. Vamos investigar como foi o comportamento dos insumos em relação ao preço do leite e verificar se o comportamento foi favorável ou não ao produtor de leite.

No Gráfico 1 é representado o comportamento dos preços da Soja em Grão, do Farelo de Soja e do Milho. Também é representado o preço médio recebido pelo produtor, de janeiro de 2009 até maio de 2011. Resolvi escolher este período de tempo, pois janeiro de 2009 corresponde ao auge das incertezas geradas pela crise financeira iniciada nos Estados Unidos. Para permitir comparações, todos os preços estão representados em formato de números- índices.

Os produtores de soja não escondem a satisfação com os ganhos que estão obtendo. De janeiro a agosto de 2009 o preço apresentou pequenas oscilações para baixo e para cima, até que registrou queda contínua e, somente em novembro de 2010 o saco da soja voltou a ser comercializado ao preço de novembro de 2009. Mas, logo os preços voltaram a cair e o fato é que hoje a soja vale menos que há 28 meses. A situação do farelo de soja é semelhante, mas com queda mais intensa de preços. Somente nos meses de maio e junho de 2009 este insumo teve preços acima do praticado em janeiro daquele ano. Em todos os outros meses os preços foram bem menores e, em maio, este insumo era encontrado a preços 30% inferiores os preços do início da série.

Já o milho apresentou dois momentos distintos. Até setembro de 2010 foi vendido a preços inferiores a janeiro de 2009. Mas, a partir daí, recuperou tendência de elevação de preços e, em maio deste ano foi comercializado a preços 22% superiores aos preços de janeiro de 2009. Quanto ao preço do leite ao produtor, perceba que houve uma forte oscilação. Ele chegou a ser 29% mais caro em agosto de 2009, em dezembro daquele ano voltou aos mesmos preços que os de janeiro de 2009 e, a partir daí, mesmo apresentando volatilidade, sempre esteve em patamares superiores. Em maio o produtor recebeu preços médios 41% superiores aos preços de janeiro de 2009. A primeira conclusão é obvia: o preço ao produtor se elevou mais que os preços destes importantes insumos.

Quando eu ainda era Chefe Geral da Embrapa Gado de Leite liderei uma experiência exitosa, que foi a criação do Índice de Custo de Produção de Leite, o ICPLeite da Embrapa. Este indicador veio preencher uma importante lacuna para a análise de comportamento do mercado de leite. Ele tem similaridade com a metodologia usada pelo IBGE para a formulação do IPCA e objetiva medir as variações nos preços dos insumos que compõem a produção de leite.

Todos nós sabemos que a atividade leiteira demanda muita mão-de-obra e, por conseqüência, o peso deste fator no custo de produção é elevado. Todos nós sabemos, também, que o Governo vem dando reajustes ao salário acima da inflação, nos últimos anos. Não bastasse isso, o fato da economia estar aquecida tem feito com que a mão-de-obra fique cada vez mais cara. O Gráfico 2 mostra que estes fenômenos impactaram o custo da mão-de-obra. Em abril de 2011 o trabalhador que se dedica à atividade recebeu 32% a mais que recebeu em janeiro de 2009. Houve ganho real expressivo do salário, pois a inflação no período foi de 13,5%. Considerando o mês de janeiro de 2009 como referência, a variação do preço do leite ao produtor ganhou da mão-de-obra somente em 10 meses, perdeu 17 e empatou em um mês.

O Gráfico 3 reproduz o comportamento de preços de três itens relacionados à alimentação do rebanho. O custo de se produzir volumoso apresentou variações pouco significativas entre janeiro de 2009 e dezembro de 2010. A partir daí, os custos começaram a se elevar e em abril estava 13,5% mais caro produzir volumoso que em janeiro de 2009. Comportamento similar ocorreu com os custos do concentrado, que fechou a série de dados analisados com custos, em abril, 9,5% superiores a janeiro de 2009. Já os preços de sal mineral tiveram forte queda até maio de 2010, quando começaram a recuperar perdas, mantendo este comportamento até os dias atuais. Todavia, em abril foi comercializado a preços 4% superiores aos de janeiro de 2009. Como o preço ao produtor subiu pouco mais de 33% no período, percebe-se que estes insumos não impactaram negativamente a rentabilidade do produtor de leite, nos últimos 28 meses.

Os custos com reprodução e com sanidade apresentaram pouca variação no período analisado e não impactaram os custos de produção de leite de modo significativo. No Gráfico 4, perceba que o comportamento dos custos ficaram bem abaixo da curva que retrata o comportamento dos preços recebidos pelo produtor de leite. Os custos com Energia e Combustível e insumos utilizados para uso na obtenção da Qualidade do Leite também apresentaram comportamento similar. Em abril de 2011 os preços estiveram superiores a janeiro de 2009 na seguinte escala: 1,7% para energia e combustível, 6,5% para reprodução, 7,9% para qualidade e 13,2% para sanidade.

Uma última comparação está representada no gráfico 5. Perceba que os custos de produção de leite ficaram abaixo dos custos verificados em janeiro de 2009 na maioria dos meses analisados, até setembro de 2010. A partir daí, os custos começaram a crescer. Mas, vale registrar que até dezembro de 2010 foi possível produzir leite com custos menores ou no máximo iguais a janeiro de 2009. Portanto, durante dois anos contínuos, o que é um feito raro e maravilhoso. Neste ano de 2011 os custos estão crescendo a uma velocidade razoável, como mostra a mudança de inclinação da curva vermelha. Já o Custo de vida do brasileiro subiu continuamente, enquanto que o preço do leite mostrou grande volatilidade, mas superou de longe o custo de produção e o custo de vida. E qual é a síntese de tudo isso?

A síntese é que os custos dos principais grupos de insumos usados na produção de leite cresceram abaixo do preço de leite, excetuando o custo da mão-de-obra, o que permitiu ao produtor ter uma melhoria de renda no período analisado, que foi de janeiro de 2009 a abril de 2011. Além disso, o custo de vida, que mede os custos que o produtor tem para adquirir produtos e serviços para manter sua família, subiu bem menos que o preço que o produtor recebeu pelo leite. Enquanto o IPCA acumulou crescimento de 13,5%, os preços recebidos subiram 33,2% em igual período.

Portanto, o empregado que trabalhou nestes 28 meses na atividade leiteira foi quem teve o melhor ganho de renda, seguido pelo produtor de leite, que também ganhou. Já a indústria patinou neste período e teve desempenho desfavorável, de acordo com os dados de preços do IBGE, que analisei no artigo anterior. O preço de leite ao produtor ganhou da inflação e a inflação ganhou do preço dos derivados ao nível do consumidor.

Os preços praticados subiram menos que a inflação para a maioria dos produtos, excetuando o leite fluido. As margens de comercialização ficaram muito curtas e as empresas de laticínios tentaram ganhar no volume, já que o mercado está aquecido. Não há, no Brasil, um ranking do faturamento das empresas. Portanto, não é possível afirmar com segurança se estas empresas tem tido um bom desempenho financeiro. Mas, a julgar pelos dados disponíveis e apresentados e, por dedução, pode ser que desta vez esteja saindo dinheiro do bolso do empresário de laticínio para o bolso do produtor de leite, por meio de transferência de renda via mercado.

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Paulo Martins
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 21/06/2011

Caro José Humberto,

concordo com as 4 apropriadas observações que você fez!
José Humberto Alves dos Santos
JOSÉ HUMBERTO ALVES DOS SANTOS

AREIÓPOLIS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 21/06/2011

Olá Paulo
Tenho muito prazer em ler seus pensamentos e análises: sempre pertinentes.

Com relação ao custo de mão de obra, gostaria de acrescentar que:
1- todo produtor de leite sempre esperou que houvesse uma redistribuição de renda que permitisse um maior consumo de lácteos em geral;
2 - é claro que, como consequencia dessa redistribuição, os custos de mão de obra também afetem o produtor
3 - o volume de produção, a partir de um determinado estágio, minimiza este acréscimo (homem/litros de leite)
4 - prefiro lidar com esse problema; é um bom problema.
Paulo Martins
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/06/2011

Obrigado, Almério. Temos que estar atento quanto ao segundo semestre, pois o preço do milho pode subir e o preço do leite ao produtor pode cair, retirando os ganhos atuais. Nada ainda garante que isso vá acontecer, mas é bom estar atento.
Almério Ivo Rodrigues
ALMÉRIO IVO RODRIGUES

PELOTAS - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/06/2011

Parabens pelo trabalho tão rico em detalhes, levando-nos a continuar produzindo leite com a certeza de ganhos razoáveis. Sugiro que pesquisas desta grandeza sejam divulgadas semestralmente, para que possamos avaliar os custos de produção e as possíveis correções.
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