Uma questão intrigante - 2
O Marcelo Carvalho me enviou um e-mail com um comentário muito pertinente, que resumo a seguir: há um ponto que não pode ser ignorado quando se analisa a questão do preço da Nova Zelândia x preço brasileiro. 95% do leite da NZ é para exportação, onde o teor de sólidos é fundamental e vem sendo trabalhado há décadas. O leite da NZ tem 20% a mais de sólidos do que o nosso. Isso quer dizer que se você eliminasse o leite da NZ e o substituísse por leite padrão brasileiro (sem falar em CCS e CBT, apenas sólidos), o máximo preço a ser pago seria 20% menor do que o leite deles. O leite da NZ não é o mesmo leite que temos aqui, de forma que comparações diretas de custos não me parecem corretas.
Realmente no problema de qualidade do leite no Brasil, o teor de sólidos e de proteína é mais crítico do que o de CCS e CBT, aliás o Paulo Machado já há algum tempo tem alertado para isso.
O padrão mínimo de ESD pela IN51 é 8,4 g/100g. Considerando sua informação o leite da da NZ leite teria e 10,08 g/100g de ESD. Se fizermos a correção para teor de sólido de 8,4 g/100g, o produtor da NZ estaria recebendo US$ 0,4249/litro, que ao câmbio sobrevalorizado atual representaria R$ 0,773/litro e para um câmbio sem sobrevalorização representaria R$ 0,956/litro, ainda sim maior do quer o produtor esta recebendo aqui. Teríamos ainda que considerar um desconto em função de diferenças de CCS e CBT. Tudo bem. Mas a diferença do que o produtor recebe aqui e lá não me parecem tão grande para justificar que o Brasil não exporta leite por exclusivamente causa do preço do leite, como vemos frequente por parte de algumas indústrias fazendo de forma simplista uma comparação de preços pagos aos produtores em dólar, sem levar em conta a distorção cambial das taxas de câmbio nos diversos países, o que não é correto.
Reconheço que existe ineficácia na nossa pecuária de leite e que precisamos trabalhar para mudar isso. Mas no meu modo de ver é preciso também comparar a eficácia e as margens de lucro da nossa indústria de lacticínios com as da Nova Zelândia, o que infelizmente não é colocado para discussão, além do custo Brasil. O Governo e a indústria estão preocupados com isso?
Vejamos o caso da vigência dos novos limites da IN 51, que muitos produtores e algumas indústrias pretendem alterar. Concordo com o Paulo Machado que postergar a vigência da alteração d a IN 51 é um grande risco para a cadeia do leite. Mas por outro lado reconheço a dificuldade de implementar limites mais rígidos quando em 30 a 40 porcento das amostras pelo menos um item da IN 51 não é atendido. Talvez seja um risco maior implantar novos limites “no papel” e não fazer nada para que esses limites sejam atingidos. Não conseguimos cumprir a IN 51 vigente por culpa de quem? Não me venham querer colocar o produtor de leite como bode expiatório, quando muita indústria pega qualquer coisa que seja branca, algumas outras colocam coisas estranhas no precioso leite, e algumas dizem que pagam por qualidade mas na realidade usam a IN 51 para pagar menos ao produtor. Se a indústria de lacticínios e cooperativas, fizessem como outras industrias fazem, desenvolvessem seus fornecedores de leite, capacitando-os e realmente pagando por qualidade, o leite bom apareceria e não teríamos distorções tão grandes com relação aos padrões da IN 51. E houve tempo para isso, se não fizeram é por que não quiseram. Por outro lado o Governo se comporta como Poncio Pilatos, lava suas mãos sobre essa questão. Marcos Veiga disse com muita propriedade que não é a legislação e normas como a IN 51 que vão garantir a qualidade do leite, mas sim a capacitação do produtor para produzir leite de qualidade e o pagamento justo pelo leite de qualidade.
Produzir leite competitivo e de qualidade é uma questão complexa, e no meu modo de ver a IN 51 não pode ser discutida de forma isolada. É preciso discuti-la no contexto global do setor leiteiro
O fato do Brasil se caracterizar como importador de leite a mais de 20 anos para mim é realmente uma questão intrigante, que julgo que precisa ser debatida com transparência, seriedade e de forma abrangente pelo Governo e a cadeia produtiva, se quisermos implementar uma estratégia público-privada para corrigir nossas deficiências e mudar esse quadro - e essa foi a motivação do artigo “Uma questão intrigante”.
No dia 28/04, no auditório da Fazenda Lageado na UNESP/Botucatu, a Leite São Paulo realizará o Workshop "Pontos para aumentar a produtividade, Reduzir Custos e aumentar Margens na Pecuária de Leite. Convido os técnicos e produtores a comparecerem e participarem das discussões, ". que tem por objetivo encontrar caminhos aumentar a competitividade de nossa pecuária leiteira e melhorar a qualidade do nosso leite.
Marcello de Moura Campos Filho
Presidente da Leite São Paulo
Uma questão intrigante 2
Dá continuidade ao artigo "Uma questão intrigante" a partir de uma considerãção de Marcelo Carvalho e da discussão sobre alteração da vigência de novos limites da IN 51.
Publicado por: MilkPoint
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