Um longo caminho a seguir

Blog Porteira Adentro: O trabalho de assistência técnica foi desenvolvido por uma equipe ao longo deste ano e teve como objetivo a realização de apenas uma visita à cada propriedade participante do projeto para que fosse elaborado um diagnóstico "pontual" do momento vivido pelo produtor, e com isso, foi proposto um direcionamento de trabalho a ser iniciado. Por João Paulo V. Alves dos Santos (Consultor da Manejo - Assessoria, Consultoria e Planejamento Ltda.)

Publicado por: MilkPoint

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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O trabalho de assistência técnica do prefácio deste post, foi desenvolvido por uma equipe de três técnicos ao longo deste ano. Um agrônomo (eu), um médico veterinário e um zootecnista. O objetivo do trabalho foi a realização de apenas uma visita à cada propriedade participante do projeto (gratuito) em que os três técnicos participantes viessem a elaborar um diagnóstico "pontual" do momento vivido pelo produtor, coletar dados referentes ao sistema de produção de cada produtor e, posteriormente elaborar relatório sobre cada propriedade que foi entregue em reunião individual com cada participante-produtor, para mencionar aspectos positivos e negativos de cada sistema de produção bem como propor um direcionamento de trabalho a ser iniciado. Tal projeto, não teve como prioridade nem objetivo, claro, resolver a situação de cada propriedade, mas sim, de apenas diagnosticar e oferecer a cada produtor um caminho a seguir ("norte").

Pessoalmente, acredito que o maior problema envolvendo a questão da assistência técnica para produtores em nosso país não esteja associado à falta de técnicos capacitados no mercado, mas sim a enormidade de programas assistencialistas gratuitos, difusos e, no entanto, com um mesmo objetivo, ou seja: oferecer assistência técnica a um dado produtor ou grupo de produtores. Atualmente, um produtor sem recursos financeiros pode lançar mão de diferentes canais de assistência. Pode procurar a Casa da Agricultura (e através desta ter acesso ao programa: CATI-Leite). Caso julgue ser interessante, pode ainda contar com a assistência de técnicos da cooperativa agropecuária da sua região ou ainda ter acesso à programas esporádicos como o trabalho desenvolvido por grupos de extensão de Universidades ou programas de cursos e assessoria de entidades como os sistema FAESP-Senar. Caso o mesmo julgue que os programas gratuitos não esteja "resolvendo" seu problema pode ainda, investir um pouco e pagar por consultoria particular (indicação de outro pecuarista que: "conseguiu resolver seu problema com esse cara") ou ser seduzido pela assistência técnica "gratuita" oferecida por empresas do segmento veterinário ou nutrição animal.

Cabe então a pergunta: o que o produtor pode fazer ou deve fazer mediante tal cenário? Qual caminho a seguir? Qual assistência escolher? A independente? A de órgãos públicos? A particular? Enfim, realmente, o mesmo pode é ficar muito confuso. Ao visitar as propriedades participantes deste projeto me deparei com esta realidade. Sinceramente esperava encontrar pequenos produtores carentes de assistência técnica (motivo pelo qual se credenciaram e procuraram a oportunidade de receber a consultoria deste grupo de trabalho que desenvolvemos) e qual não foi minha surpresa de que muitos deles estavam recebendo assistência simultânea de diferentes frentes de trabalho. Novamente faço questionamento e peço a sua interação e participação, leitor/usuário. É possível um dado pequeno pecuarista ter sucesso recebendo assistência veterinária do médico veterinário da Casa da Agricultura que visita sua propriedade a cada três meses (a frequencia não é maior devido ao grande número de visitas e propriedades que a maioria destes técnicos acabam por atender)? É possível ter sucesso na atividade coletanto opinião de médico veterinário particular do vizinho, escutando os médicos veterinários de programas do Senar, participando e oferencendo sua propriedade para a realização de cursos, escutando o agrônomo, também da Casa da Agricultura que se especializou em café, mas que no caso do referido "suposto produtor", acaba por elaborar e atender sua demanda na elaboração de um projeto e implantação de programa de: "pastejo rotacionado intensivo"...? Nossa, quanta assistência técnica!! Para onde vamos?! Partindo do pressuposto de que o produtor em questão tenha uma elevada capacidade de absorção de conhecimento e nível intelectual compatível com a "avalanche" de conhecimentos técnicos e "receitas de bolo" que chegam ou chegarão aos seus ouvidos, tenho certeza (como comprovei na prática) de que a assimilação e implantação da gama de técnicas propostas é muito baixa. Infelizmente, muitos (não todos, claro!) pequenos produtores carentes são batalhadores e pessoas sofridas, com pouca escolaridade... o que pude comprovar foi um grande "mix" de técnicas (algumas muito boas, até), projetos inacabados, produtores desacreditados e inseguros. No final tudo isso gera um grande descrédito na capacidade e obtenção de resultados e possibilidade de mudanças nos índicadores técnicos-financeiros das propriedades à partir da adoção e implantação de uma assistência ou programa de assessoria técnica capacitada. Desta forma, infelizmente, chegamos à conclusão de que tudo está errado mas ao mesmo tempo de que todos estão certos!!!(??!!). Em outras palavras, cada profissional, dentro do seu campo de atuação acaba por exercer sua função corretamente. Muitos deles (conheço vários casos, pessoalmente) acabam por fazer até mais do que deveriam ou poderiam. O que eu questiono no presente momento é: há sinergia? temos resultados efetivos?

Sobre o trabalho realizado em nosso grupo técnico (agrônomo/veterinário e zootecnista) destacamos os seguintes desafios em comum, dentro do grupo de pequenos produtores assistidos:

1-) Coleta de dados: poucos dados coletados e/ou ausência dos mesmos (maioria dos produtores não trabalha com escrituração zootécnica). Em outras palavras praticamente todo o grupo avaliado tem trabalhado "às escuras", sem saber a idade dos animais, data de parto, n° de partos, data da cobertura, controle leiteiro, data de vacinações, vermifugações, etc.

2-) Ausência ou muito pouca preocupação com os aspectos produtivos e reprodutivos do rebanho. A maioria dos produtores não soube avaliar ou dizer a produção individual dos animais, o estágio de lactação, o n° de crias, o intervalo entre partos e data de cobertura de vacas e/ou novilhas

3-) Má distribuição do rebanho: dentre os rebanhos avaliados, a proporção de vacas em produção em relação aos animais secos sempre foi indesejada, ou seja, em muitos casos encontramos menos animais produzindo leite do que animais gerando receita

4-) Inexistência de planejamento da produção de alimentos e recursos forrageiros: em 100% das propriedades avaliadas, a relação oferta x demanda de alimentos esteve em situação de desequilíbrio. A maioria dos produtores não realizava planejamento da produção de alimentos volumosos (principalmente) e, em muitos casos, manejados de modo incorreto (pastejo)

Em nosso trabalho de direcionamento e orientação aos produtores, o que nos chamou atenção foi a miscigenação de tecnologias empregadas de modo inadequado, ou seja, em muitas propriedades verificamos a aplicação de sistemas tecnificados em momento inadequado. Foi possível, por exemplo, verificar a implantação de um módulo rotacionado de mombaça (1 ha) com irrigação com os piquetes montados e inativo, isso mesmo, inativo! Motivo: ausência e descontinuidade do programa de assessoria técnica pós-implantação do projeto... Em outro caso, também numa área de 1 ha foi implantado pastejo rotacionado com forrageira muito exigente em fertilidade em solo de baixíssima fertilidade para um produtor desprovido de recurso suficiente para a manutenção do mesmo. Temos muitos outros exemplos que não caberiam neste espaço, infelizmente.

A conclusão final, particularmente falando, é de que temos excelentes cabeças, excelentes idéias, excelentes programas em andamento, no entanto sem a menor sinergia. Não sou contra programas de assistência, muito pelo contrário, considero que muitos que estão em prática há alguns anos alcançaram grandes resultados. Acredito que seja muito importante a divulgação e discussão de pontos de estragulamento como os mencionados acima. O que podemos fazer para melhorar?Antes de recomendar e agir é importante que cada profissional avalie a realidade e a situação de cada propriedade como um todo. Podemos implantar um dado programa para "este" produtor? Será que traremos benefícios?!

Da maneira como estamos prosseguindo, parece que temos produzido mais confusão do que esclarecimentos.

Não basta ser técnico ou dar assistência técnica cumprindo programas pré-estabelecidos. É preciso saber oferecer assistência. Orientar.

Ainda temos um longo caminho a seguir...
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