Muito provavelmente quase todos veterinários e muitos criadores já presenciaram a morte de bezerras por úlcera no abomaso. A úlcera penetra a parede abomasal. O conteúdo intestinal é liberado na cavidade abdominal, o que culmina em infecção seguida de morte.
Por que isto ocorre? Existe algum tipo de medida preventiva?
Infelizmente parece que o conhecimento sobre isso ainda é bastante restrito. Até mesmo a ocorrência não segue um padrão.
No presente momento parece não haver evidência científica que prove conclusivamente que qualquer condição específica sempre irá causar úlceras de abomaso em bezerras de reposição. Atualmente só se pode especular sobre as possíveis causas.
Uma delas é que materiais grosseiros ingeridos pelo animal causariam abrasão e enfraqueceriam o tecido. Outra é que patógenos como bactérias ou fungos crescem no abomaso e, de alguma forma, destroem o tecido. Uma terceira hipótese é que os bezerros acometidos estariam deficientes de algum micro mineral ainda não identificado. Finalmente, algumas pessoas têm sugerido que as úlceras são causadas por estresse.
O problema com todas estas possíveis explicações é que se podem encontrar muitas exceções. Por exemplo: vitelos criados em dietas exclusivamente líquidas, sem grãos ou forragens (grosseiras) também apresentam úlceras. Nenhum patógeno foi consistentemente associado a úlceras. Não existem estudos clínicos disponíveis, comparando as taxas de ocorrência de úlcera entre bezerros com alguma deficiência mineral conhecida, com outros recebendo níveis adequados dos mesmos minerais. É sabido que estresse aumenta os níveis de certas substâncias no sangue mas elas ainda não foram diretamente relacionadas com úlceras.
Numa pesquisa recente, foi observado que quando o abomaso de bezerros se esvazia, após a digestão do leite, sua acidez aumenta. Isto foi comprovado no experimento. A condição é denominada hiperacidez. A hipótese sugerida por estes pesquisadores é que condições mais ácidas favorecem a penetração do tecido abomasal por enzimas destrutivas, que favorecem a formação das úlceras.
Baseados nesta hipótese, outro experimento foi conduzido para constatar o que aconteceria se o abomaso dos bezerros ficasse vazio com menor freqüência. Isto foi obtido através de alimentações mais freqüentes ao longo do dia. Cinco bezerros de cinco dias de vida foram alternados em esquemas de aleitamento 2X, 3X, 4X e 8X ao dia por várias semanas. As mamadas tinham horário rígido, de maneira que os intervalos fossem sempre constantes. Eles mediram as mudanças de pH abomasal para cada esquema testado.
A quantidade de tempo que o pH permaneceu em níveis que favorecem a ação de enzimas que podem ferir o abomaso variou em função da freqüência de alimentação. Oito mamadas diárias (a cada 3 horas), resultaram em menor acidez. Todavia, para os outros três esquemas (2X, 3X e 4X), o nível de acidez foi similar. Isto ocorreu mesmo considerando que os esquemas de 3X, 4X e 8X apresentaram acidez ligeiramente menor que o sistema de 2 mamadas diárias.
Sendo assim, a adoção de mamadas mais freqüentes (de difícil execução na prática de fazendas) para solucionar eventuais problemas de úlceras tem pouca chance de sucesso, a menos que se adote um esquema de 8 mamadas diárias, a intervalos regulares.
Estes resultados não permitem concluir que esta é a causa das úlceras abomasais. Continuamos portanto sem ter evidências científicas sólidas sobre os fatores que aumentam sua taxa de ocorrência.
Se, todavia, você tiver uma ocorrência anormal de úlceras abomasais nos bezerros, tente algumas providências. Alguns conselhos começariam pelo fornecimento de colostro de boa qualidade, rico em anticorpos, imediatamente após o nascimento. A manutenção de todo o equipamento de alimentação estritamente limpo deve ajudar. O fornecimento de quantidade adequada de leite ou sucedâneo também deve ajudar, mantendo o bezerro bem nutrido.
O fato é que não se sabe quais os fatores envolvidos no processo e que poderiam evitar sua ocorrência.
Fonte: Leadley, S. e Pam Sodja, 2002. Abomasal Ulcers. Calving Ease. September 2002.
Úlceras abomasais em bezerros
Úlceras abomasais em bezerros
Publicado por: José Roberto Peres
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