Alice Deléo Rodrigues - Zootecnista (FZEA/USP), mestre em Zootecnia (FCAV/Unesp) e doutoranda em Zootecnia (FCAV/Unesp).
Laurinda Augusto - Médica Veterinária (FVET/UEM), mestre (UOFS/SA) e doutoranda em Zootecnia (FZEA/USP).
A prenhez de ovinos tem duração de 150 dias (±5 dias) e caracteriza-se por ser um período de grande relevância para o sistema produtivo, devendo o produtor atentar-se para uma série de cuidados especiais com o intuito de reduzir a mortalidade embrionária, má formação fetal, abortos e doenças. Dentre as doenças do período da prenhez, destaca-se a toxemia da prenhez, desordem metabólica que acomete fêmeas de várias espécies, inclusive a ovina (BRUÉRE, 1993), cujo impacto econômico da doença é considerado grande e mais frequente em sistemas de produção intensiva (SANTOS et al., 2011).
A toxemia da prenhez, também conhecida como: “doença dos gêmeos”, cetose, paralisia do periparto e acetonemia foi relatada clinicamente pela primeira vez no início da década de 80, em estudo de Ortolani e Benesi (1982). A doença tem origem na hipoglicemia aguda que pode ser provocada tanto pelo aumento da exigência de glicose como pela interrupção na ingestão de alimentos, implicando em baixo suprimento de glicose para o organismo, levando a mobilização de gordura e produção de corpos cetônicos.
A exigência nutricional da ovelha aumenta ao longo da prenhez e, ao longo do período, o rúmen é comprimido pelo feto, passando a limitar a capacidade de ingestão de alimentos. Essa situação se intensifica no último terço da prenhez, quando se verifica expressivo crescimento do cordeiro e grande incremento na demanda energética da fêmea, levando-a a um quadro de balanço energético negativo (BEN). Baseando-se nesse fato, a importância do correto manejo das ovelhas nessa fase é fundamental.
O não o fornecimento de alimentos adequados é um fator que pode levar os animais ao quadro de toxemia, pois tanto ovelhas subalimentadas como superalimentadas podem apresentar a doença (ORTOLANI, 1985). Sabe-se também que quando alimentos balanceados com NDT superior a 30% são oferecidos em grande quantidade também podem iniciar o quadro de toxemia (ORTOLANI, 1996).
A qualidade da dieta oferecida às ovelhas, portanto, é fundamental, para que as mesmas consigam suprir às necessidades energéticas adequadamente. Recomenda-se que sejam oferecidos volumosos com fibras de boa digestibilidade e concentrados formulados com pelo menos 14% de proteína bruta.
A doença manifesta-se com maior frequência em fêmeas com prenhez gemelar do que em fêmeas com prenhez de apenas um feto, assim como também acomete com maior frequência fêmeas com peso acima do recomendado para fase (escore de condição corporal a partir de 4, numa escala de 0-5). Situações de manejo consideradas estressantes, como transporte e mudança no manejo alimentar também atuam como fatores predisponentes à toxemia da prenhez (ORTOLANI, 1996).
Os sinais clínicos que um animal acometido pela toxemia pode apresentar são:
-Apatia e depressão;
-Isolamento do rebanho;
-Bruxismo (animal range os dentes);
-Desidratação;
-Inapetência e anorexia (animal não ingere alimentos);
-Dificuldade de locomoção;
-Tremores musculares;
-Animal exala cheiro de acetona;
-Patas inchadas (“pata de elefante”);
-Aumento das frequências cardíaca e respiratória.
O tratamento para a toxemia da prenhez pode ser feito de diversas maneiras, objetivando principalmente reidratar e estimular a ingestão de alimentos. A administração de soro fisiológico e de soro glicosado 5%, bem como o fornecimento de glicerina duas vezes ao dia (50 ml + 50 ml) são estratégias que melhoram o estado do animal. Em casos mais avançados da doença, a administração de insulina e até mesmo a indução do parto ou realização de cesariana são recomendadas, uma vez que a doença tem elevada taxa de mortalidade. Conforme reportado por Van Saun (2006), o índice de mortalidade em decorrência da toxemia da prenhez pode chegar a 100%. A Figura 1 ilustra animal em óbito, decorrente de toxemia da prenhez.
Figura 1. Ovelha em óbito decorrente de toxemia.
Conclusão
O adequado manejo nutricional da ovelha prenhe e o rápido e correto diagnóstico são imprescindíveis para que o produtor minimize os problemas decorrentes da toxemia da prenhez.
Referências Bibliográficas
BRUÈRE, A. N; WEST, D. M. Metabolic Diseases. In: _________ The Sheep: Health, Disease and Production. New Zealand, 1993. p. 180-196.
ORTOLANI, E. L.; BENESI, F. J. Sobre a ocorrência de toxemia da prenhez em cabras (Capra hircus, L) e ovelhas (Ovis aries, L). Anais... In: I SEMANA DE VETERINÁRIA DA FMVZ-USP, 1, 1982, São Paulo.
ORTOLANI, E. L. Toxemia da prenhez. In: Sociedade Paulista de Medicina Veterinária. Manejo, patologia e clínica de caprinos, São Paulo, 1985, 201-210f.
ORTOLANI, E. L. Intoxicações e doenças metabólicas em ovinos: intoxicação cúprica, urolitíase e toxemia da prenhez. In: Nutrição de Ovinos, Jaboticabal: FUNEP, 258p., 1996.
SANTOS, C. O.; MENDONÇA, C. L.; SILVA FILHO, A. P.; CARVALHO, C. C. D.; SOARES, P. C.; AFONSO, J. A. B. Indicadores bioquímicos e hormonais de casos naturais de toxemia da prenhez em ovelhas. Pesq. Vet. Bras. 31(11): 974-980, novembro, 2011.
VAN SAUN, R. J. Case study: Pregnancy toxemia in a sheep flock. The AABP Proceedings, v. 39, p.213-218, 2006.
