TOP 100/2010, sistemas de produção e política e planejamento do setor leiteiro - continuação

Discute da evolução do número de produtores e da produtividade e competitividade da pecuária leiteira nacional nos próximos 10 anos.

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TOP 100/2010, sistemas de produção e política e planejamento do setor leiteiro.
– continuação


No artigo anterior mostramos que os TOP 100 tem grande importância para a pecuária de leite nacional pelo que representam em termos de genética, tecnologia e manejo, mas são pouco significativos em termos do número de produtores e da produção de leite nacional. E apresentamos algumas considerações para embasar nossa opinião de que precisamos de uma política e planejamento do setor leiteiro, voltada para produtores de até 2.000 litros, assegurando condições para, em 10 anos, a nossa pecuária leiteira se torne mais competitiva, com uma redução do número de produtores a média por produtor chegando a 300 litros/dia.

Vamos nesse artigo, que na realidade é uma continuação do anterior, fazer uma analise da pecuária de leite brasileira em termos do conjunto do número de vacas em lactação, partindo como hipótese de alguns números básicos que tem sido citados com alguma freqüência:

• 20 milhões de vacas são ordenhadas por ano;

• 30% dos produtores respondem por 70% do leite produzido;

• 6 milhões de vacas seriam ordenhadas por esses 30% dos produtores.

Embora esses números não sejam precisos, me parecem que representam razoavelmente o quando atual da nossa pecuária de leite e, considerando uma produção anual de 28 bilhões de litros, e permitindo montar o quadro abaixo.


CLASSE Produtores Volume produzido Produção média l/dia Vacas ordenhadas
% número % Bilhões l número lit/lactação
A 30 360.000 70 19,6 149.2 6 milhões 3.266,7
B 70 840.000 30 8,4 27,4 14 milhões 600,0
TODOS 100 1.200.000 100 28,0 63,9 20 milhões 1.400,0


Uma primeira observação desse quadro é que, provavelmente, de forma geral a maioria dos produtores da classe A sejam de produtores ligados à industria com inspeção e que a maioria dos produtores da classe B sejam produtores sem vinculo com a inspeção.

Vi notícia que estudos do MAPA indicariam para o futuro uma perspectiva de termos excedentes de leite, da ordem de 4 bilhões de litros por ano. Não vi o estudo para ver quais as premissas que embasam essas previsões. Mas o fato das nossas importações liquidas de leite em pó em 2009, serem equivalentes à cerca de 0,5 bilhões de litros, , bem como as importações dos dois primeiros meses de 2010 colocam em cheque essas premissas e consequentemente as previsões a partir delas.

Mas acho que a discussão do futuro da nossa pecuária deve ser feito não de quanto nos vamos crescer, fugindo da incertezas das previsões, mas sim a partir de quanto já produzimos e de como produzimos, através de um exercício.

Apresento a seguir um exercício, que considera as informações do quadro representativas da situação atual da pecuária leiteira brasileira, e que por hipótese considera que a produção total não irá crescer, ficando fixa em 28 bilhões de litros por ano, podendo apenas haver mudanças na forma de produzir.

Imaginemos nesse exercício que todos os pequenos produtores da classe B permaneçam produzindo leite. Já temos linhas de financiamento atrativas e programa Balde Cheio, destinados especialmente a esses pequenos produtores, parece razoável imaginar que em 10 anos se consiga melhorar as condições desses pequenos produtores, e que a media de produção diária desse conjunto de produtores passe de 10 para 50 litros por dia. Como são 840.000 produtores, isso representaria uma produção anual de 15,3bilhões de litros.

Como consequência, dos 28 bilhões sobrariam apenas 12,7 bilhões de litros para os produtores da classe A. Se todos os 360.000 produtores da classe A permanecerem em atividade, a média por produtor cairia de 149,2 l/dia para 96,7l/dia. Ou para manter a média de 149,2 litros por produtor 126.793 produtores da classe A teriam que deixar de produzir leite.

Se não fosse reduzido o número de produtores da classe A, a média do conjunto de todos os produtores seria mantida em 63,9 litros dia, e mesmo com a redução de 126.793 produtores na classe A, a média da produção nacional aumentaria pouco, passando para 71,5 litros dia por produtor.

Esse exercício mostra que se o nosso futuro for de um aumento de apenas 7,9 litros por produtor em 10 anos, seria um crescimento desprezível, praticamente a estagnação da nossa pecuária leiteira, e parece que indicaria a inviabilidade de nos tornarmos exportadores significativos de leite e lácteos e possivelmente voltarmos a ser, como o fomos no passado, importadores de leite.

O exercício que apresentamos, é sem dúvida provocativo, e leva a vária perguntas: O que pensam os produtores da classe A, que produzem 70% do leite do País sobre a possibilidade de reduzirem a produção ou o número de produtores? Na classe B, mesmo mantido o número de produtores e com aumento da produção média de 10 para 50 litros os produtores estariam satisfeitos? O que pensa o Governo e principalmente nossa indústria dessa perspectiva? Devemos começar a fazer um trabalho, envolvendo a cadeia produtiva sob coordenação e mediação do Governo, para estabelecer política e planejamento para o setor leiteiro, para termos avanços significativos na nossa pecuária de leite, tornando-a mais competitiva? É viável uma política e planejamento do setor leiteiro para em 10 anos elevar a média por produtor para algo em torno de 300 litros dia, reduzindo o número de produtores muito pequenos, a maioria na informalidade, minimizando o impacto dessas transformações? Ou podemos deixar tudo ao acaso, e esperar que a pecuária leiteira nacional melhore sem um trabalho sério com esse objetivo?

As respostas a essas perguntas por parte de produtores, Governo, indústrias e cooperativas, bem a discussão em torno delas, nos parece um passo importante para que nossa pecuária leiteira possa sair do atraso em que esteve no século XX e ser mais competitiva no século XXI, garantindo não só o abastecimento do mercado nacional, mas também permitindo o Brasil ser um exportador de leite e lácteos significativo no mercado internacional.

Marcello de Moura Campos Filho
Presidente da Leite São Paulo
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