Também é hora da indústria e do Governo fazerem conta

Apresenta alguns números que mostram a gravidade da crise que poderá atingir o setor leiteiro nacional e se as hipóteses e contas consideradas estiverem corretas, é urgente o Governo, a indústria e os produtores discutirem medidas para serem implantadas com urgência para evitar, ou pelo menos imimizar, essa crise.

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Também é hora da indústria e do Governo fazerem conta

No artigo anterior alertei que é hora dos produtores de leite fazerem contas face a crise econômica mundial, a disparada no preço dos concentrados e na tendência de redução de preço ao produtor.

Mas é hora também da indústria e do Governo fazerem conta.

O Brasil tem cerca de a grosso modo 30%  ( 270.000 ) dos produtores respondem por 70%  ( 21 bilhões ) da produção  e 70%  ( 630.000 ) dos produtores por 30% da produção ( 9 bilhões ).

Para os 630.000 produtores que comercializam 9 bilhões de litros/ano a média por produtor é da ordem de 40 litros/dia. Esse grupo  usa muito pouco concentrado, e face a disparada do preço dos concentrados e redução do preço do leite cru a maioria simplesmente deixará de usar concentrado, e parece razoável estimar que a média por produtor nesse grupo caia para 30 litros/dia, Isso representa uma redução de produção de 25%, que para o grupo todo representa uma redução de 2,25 bilhões de litros/ano.

Para os 270.000 produtores que comercializam 21 bilhões de litros/ano a média é de 213 litros/dia por produtor. Esse grupo, face a elevação do custo do concentrado e redução do preço do leite cru, tentará ajustes nutricionais para reduzir o custo com concentrado,  o que significa reduzir a produção. É razoável supor esses ajustes nutricionais sem comprometer a sanidade do rebanho, levem na média a redução de 1 a 2 litros por vaca em lactação, e que a média por produtor caia de 213 para 190 litros/dia, o que representa uma redução de 10,8%. Para esse grupo como um todo essa redução poderá ser da ordem de 2,27 bilhões de litros/ano.

Dessa forma, o descompasso entre o custo dos concentrados e o preço do leite cru pago aos produtores no Brasil poderá ser da ordem de 4,52 bilhões de litros ano, o que levaria a um grande aumento das importações de leite ou ao desabastecimento do mercado interno e elevação de preços ao consumidor.

Naturalmente que se o descompasso entre o preço dos concentrados e do leite cru tiver duração curta, a situação poderá ser revertida num prazo relativamente curto.

Mas se essa situação perdurar, e para o grupo dos 270.000 produtores os ajustes nutricionais para reduzir custos com concentrado, que tem por limite a sanidade do rebanho, não forem suficientes para estancar prejuízos, eles terão que começar mandar vacas de leite para o gancho ( com a crise a procura por vacas de leite praticamente deixa de existir ) para fazer caixa para manter o resto do rebanho.  A consequência dessa situação é que a quebra de produção poderá superar sensivelmente 5 bilhões de litros/ano, elevando sobremaneira as importações de leite ou agravando o desabastecimento interno e a elevação do preço ao consumidor. E o que é pior, mesmo terminando o descompasso entre o preço do concentrado, o abate de matrizes implicará num longo prazo para o equilíbrio entre a oferta e demanda no mercado interno.

Se essas hipóteses e contas estiverem certas, é mais do que hora do Governo, da indústria e dos produtores discutirem as medidas para serem implementadas em curtíssimo prazo, para evitar uma grande e prolongada crise no setor leiteiro e grandes prejuízos para o País.

Marcello de Moura Campos Filho
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Marcello de Moura Campos Filho
MARCELLO DE MOURA CAMPOS FILHO

CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/07/2012

Caro Ronaldo Marciano Gontijo

Agradeço o comentário.

Penso como você, que a situação pode fugir de controle e dias piores, para os produtores, para a indústria e para o País, poderão vir, por isso, e por considerar que é melhor prevenir do que remediar, escrevi esse artigo.

Por essa mesma razão mandei e-mail para a Coordenação das Câmras Setoriais, sugerindo que a pauta da reunião da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Leite e Derivados priveligia a discussão dessa questão e as possíveis medidas para serem implantadas em carater de urgência para minimizar os efeitos da crise causada pela discrepância da disparada do preço dos concentrados puxada pelo preço da soja.

Não sei como foi a situação das pastagens em Minas, mas em São Paulo, como disse ao Sávio, na safra os pastos, em termos de produção e qualidade não foram nenhuma "Brastemb" em função da irregularidade climática, tanto que o atrazo no crescimento de outra gramínea, a cana de açúcar, retardou em cerca de 2 meses a moagem. E a irregularidade climátia afetou também a produção de silagem de milho. No Sudeste se a produção e qualidade de pasto na safra e silagem de milho para a entresafra não forem boas aumenta a dependência de concentrado para segurar a produção de leite. E preciso ter em mente que a irregularidade climática está deixando de ser excessão e passando a ser a regra.

Parece que o Governo está começando a sentir a gravidade da situação e em agosto fará leilões de milho o que poderá ajudar a segurar um pouco a subida do preço dos concentrados. Mas é preciso que o setor leiteiro discuta com profundidade essa questão.

Abraço

Marcello de Moura Campos Filho
Ronaldo Marciano Gontijo
RONALDO MARCIANO GONTIJO

BOM DESPACHO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/07/2012

Prezado Marcello,

Creio que suas previsões estejam corretas, hoje eu estava conversando com meu fornecedor, e as noticias que tive não são nada animadoras; o farelo de soja hoje estava saindo a R$ 78,00 para o produtor, com previsão de chegar aos R$ 90,00 em poucos dias. Uma grande parte dos pequenos e médios produtores pararam de fornecer concentrado para suas vacas, o que vai provocar uma queda brusca no volume de leite. O que está sendo dito aqui é que dietas tendo como base a cana já não são mais viaveis com o atual preço do concentrado. Quem tem silagem de milho de boa qualidade ainda está suportando, mas já estamos no limite. Não temos nada para substituir o farelo de soja, o milho também disparou de preço, qualquer outra opção de suplemento energetico sai mais caro que o milho quando ajustamos os nutrientes. A situação está fugindo do controle, infelizmente parece que dias piores virão.

Um abraço

Ronaldo
Marcello de Moura Campos Filho
MARCELLO DE MOURA CAMPOS FILHO

CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/07/2012

Caro Sávio

Agradeço os comentários.

Embora no sul a safra seja baseada em pastagens de inverno de alto valor nutitivo, existe alguma suplementação, tanto maior quanto maior a produção do animal, e o comforme o descompasso entre o custo de concentrado e o preço do leite cru pode afetar a produção, embora menos do que no Sudeste. Não sei como foi o período de chuva em todo o Sudeste, mas em São Paulo a precipitação foi muito irregular a ponto de prejudicar muito o crescimento da cana de açúcar,que também é gramínea, atrazando em cerca de 2 meses a moagem. Outra coisa, o crescimento da planta depende também de luz e calor, e muitas vezes as chuvas vieram com frentes frias. Em São Paulo a produção e qualidade dos pastos na safra não foi nenuma "Brastemp". O que eu tenho visto nos pequenos produtores é pasto muito ruim e que chegam um farelinho quando o preço do leite está muito bom e cortam totalmente quando o preço é ruim.

As contas que fiz são um exercício, e pode ser que a redução menor do que esses valores. Mas lembro que no passado já passamos por situação de desabastecimento a ponto donas de casa assaltarem postos de saúde para levar leite em pó para os filhos e a levar a o Governo a reduzir impostos para favorecer importação de leite em pó e minimizar o desabastecimento.

As importações naturalmente não serão de leite flúido, mas de leite em pó, que será reidratado pela indústria ou pelos consumidores.

Como disse no artigo, é bom que o Governo, a indústria e produtores avaliem com mais precisão as hipóteses e façam contas, e se chegarem a resultados alarmantes, tomem as medidas necessárias para evitar uma crise que afete o setor a longo prazo.

Aliás, mandei sugestão à Coordenação das Câmaras Setoriais do MAPA, no sentido de que na próxima reunião da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Leite e Derivados, a ser realizada no dia 14 de agosto próximo, a pauta priveligie a discussão dessa questão.

O alerta que fiz no artigo não é para regar o abocalipse, mas por considerar que sempre é melhor previnir do que remediar.

Grande abraço

Marcello de Moura Campos Filho
Savio
SAVIO

BARBACENA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 27/07/2012

Boa tarde Marcello,

Acredito em uma redução de produção por conta dos custos, porém menor que essa estimada pelo senhor. A safra no sul do país ocorre baseada em pastagens de inverno e baixa suplementação, ao findar dela (meados de outubro) inicia a safra do sudeste. Na safra do sudeste, essa faixa de 40 litros de média historicamente não suplementa o rebanho, ficando esse baseado a pasto de boa qualidade. Ainda sobre o sudeste, a produção de silagem esse ano foi muito boa e o período prolongado de chuvas não deixou com que as pastagens perdessem tanto em valor nutricional como normalmente acontece.

Que vai haver uma redução considerável, eu não tenho dúvida. Mas nada que traga desequilíbrio ao mercado, podendo até ser salutar aos preços internos.

As importações não suprem a necessidade total em uma redução de produção interna. Na prática, entram leite em pó e queijos, mas o grosso do consumo é o leite UHT que não tem praticidade na sua importação em grandes volumes.

Abraço
Qual a sua dúvida hoje?