Situação econômica mundial e o mercado de leite e lácteos

Discute o efeito da crise econômica mundial e sua subsequente recuperação no mercado mundial e nacional de leite e lácteos.

Publicado por: MilkPoint

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O jornal O Estado de São Paulo 09 de novembro de 2011 mostra que apesar dos países da zona do Euro terem se obrigado a limitar o endividamento em 60% dos respectivos PIB, a Espanha está com 61%, a França com 82,3%, a Alemanha com 83,2%, Portugal com93,3%, a Irlanda com 94,9%, a Itália com 118,4% e a Grécia com 144,9%. Sendo que o PIB caracteriza a riqueza de um País, isso mostra a gravidade da situação econômica desses Países.
 
No caso da Grécia, que não tem uma economia pujante, a divida é impagável, tanto que a ajuda financeira ao País ficou condicionada aos credores aceitarem uma redução de 50% da dívida, ou seja aceitarem meio calote para ter chance de receber os outros 50%. Mas a situação na maioria dos países da zona do Euro é preocupante, pois a dificuldade para pagar as dívidas que se aproximam de 100% do PIB são óbvias.

Quem são os credores desses países? Governos e a iniciativa privada tanto da zona do Euro como fora dela. Como se chegou a essa situação? Irresponsabilidade e incompetência tanto dos países que emitiram títulos como dos países e da iniciativa privada que os compraram, ao ignorarem que gastos acima dos ganhos por períodos prolongados é o caminho inevitável para a falência.

É isso que temos fundamentalmente nos países desenvolvidos, especialmente na União Europeia: uma economia falida. E o caminho dessa recuperação sem dúvida será difícil e longo.

Como os USA e a União Europeia são grande produtores e exportadores de leite, a pergunta cuja resposta interessa aos produtores Brasileiros é: como essa crise, que está instalada, e a subsequente recuperação da economia afetará o mercado mundial e o mercado brasileiro de leite e lácteos?

Na procura de uma resposta para essa pergunta o primeiro ponto para refletir é a questão de como evoluirá a demanda por leite no mundo num período de crise econômica , que provavelmente será mais grave nos USA e na União Europeia, mas naturalmente afetará todos os países, e depois no período de recuperação da economia mundial. Se houver uma retração da demanda, os preços ao produtor tenderão a cair, e para a oferta de leite será briga de foice em quarto escuro . No entanto, tanto por influência do crescimento contínuo da população mundial, como pelo efeito da crise ser menor nos países emergentes e nos países pobres, que representam a maior parte da população do planeta, acredito que a tendência é de continuidade do crescimento pela demanda e que a oferta não crescerá num ritmo nem muito maior nem muito menor do que o do crescimento da demanda, mantendo a variação entre oferta e demanda nos níveis atuais.

Mas embora possamos caminhar na crise a nível mundial com certo equilíbrio entre oferta e demanda, poderão ocorrer distorções regionais .

A primeira distorção regional no meu entender é relativa aos custos de produção do leite nas fazendas. Nos países como o Brasil, que tem baixa produtividade baixa tecnologia o custo de produção é elevado. Nos países desenvolvidos como USA e União Europeia, que tem elevada produtividade e tecnologia, sem subsídios os custos também são elevados, mas é evidente que farão grande empenho para usar tecnologia para reduzir custos e aumentar produtividade, de forma procurar preservar seus mercados internos e manter suas perspectivas como exportadores. . Se no Brasil tivermos competência para usar tecnologia para aumentar nossa produtividade e reduzir nossos custos de produção, poderemos assegurar o abastecimento do mercado interno e até conseguir um papel de exportador no mercado mundial de leite e lácteos. Mas se não tivermos essa competência continuaremos sendo, como a décadas, importadores de leite e os volumes das importações tenderão a crescer.

A segunda distorção regional é relativa à questão cambial. Dólar americano é referência cambial, e as moedas correntes nos países poderão estar valorizadas ou desvalorizadas. A emissão de dólar nos USA pelo governo para fazer frente a seus compromissos e a necessidade dos USA exportar para enfrentar a crise, inflacionam o dólar e o desvalorizam com relação a moedas de outros países. No Brasil valorização do Real com relação ao dólar americano favorece a importação e cria obstáculos para a exportação de leite e lácteos. A valorização do Real e a desvalorização da moeda chinesa com relação ao dólar impedem ao Brasil participar do atendimento da demanda de leite da China que hoje é um grande parceiro comercial do País. A moeda Argentina, desvalorizada com relação ao dólar americano, favorece importação de leite e lácteos do País vizinho. Se não administrarmos adequadamente essas distorções cambiais, inevitáveis na crise e no processo de recuperação da economia, todo esforço que fizermos para aumentar nossa produtividade e reduzir nossos custos de produção serão solapados e inúteis.

As crises e os subsequentes processos de recuperação da economia podem oferecer grandes dificuldades mas também oferecer grandes oportunidades para a pecuária e a indústria leiteira do Brasil, dependendo como a cadeia produtiva de leite e derivados, bem como o Governo se posicionarem com relação à administração dessas distorções regionais.

No post anterior no My Point, manifestei minha opinião de que precisamos fazer as perguntas certas para termos as respostas que levarão às transformações que precisamos para termos uma cadeia produtiva de leite e derivados competitiva no Brasil.

Finalizo este artigo dizendo que precisamos encontrar as perguntas certas cujas respostas nos permitirão, nessa crise econômica mundial e sua posterior recuperação. 

Fica o desfio para os leitores formularem perguntas e discutirem as respostas, contribuindo para descobrir aquelas que poderão levar o nosso setor leiteiro enfrentar e sair fortalecido da crise e do processo de recuperação da economia mundial.

Marcello de Moura Campos Filho
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