Seleção do trabalhador na bovinocultura para atuar no manejo racional - parte 2
Nesta segunda parte, abordaremos a importância de avaliarmos as habilidades e conhecimentos dos candidatos à vaga de trabalhador na bovinocultura. Também, descreveremos sobre o treinamento teórico-prático do trabalhador a respeito da atividade que assumirá, assim como sobre a motivação diária que o empregador deverá manifestar para que o trabalhador mantenha seu ótimo nível de produtividade.
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Nesta segunda parte, abordaremos a importância de avaliarmos as habilidades e conhecimentos dos candidatos à vaga de trabalhador na bovinocultura. Também, descreveremos sobre o treinamento teórico-prático do trabalhador a respeito da atividade que assumirá, assim como sobre a motivação diária que o empregador deverá manifestar para que o trabalhador mantenha seu ótimo nível de produtividade.
O trabalhador que desenvolverá o manejo racional na bovinocultura leiteira deverá apresentar habilidade para tal ação. Habilidade, de acordo com o dicionário Aurélio - Século XXI, refere-se ao notável desempenho e elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: capacidade intelectual geral, aptidão específica, pensamento criativo ou produtivo, capacidade de liderança, talento especial para artes, e capacidade psicomotora. O aspecto que iremos destacar é o psicomotor.
A habilidade psicomotora do trabalhador necessitará estar associada ao tipo de ação que desenvolverá com os animais. Alguns exemplos serão citados;
-1) na realização da ordenha, a habilidade deverá ser observada no deslocamento e na contenção da vaca, considerando os diferentes métodos de contenção; na liberação e contenção do bezerro (aleitamento natural), na aplicação de todos os procedimentos de ordenha; no ato de ordenhar (manual ou mecanicamente) e na liberação do animal;
-2) na realização de vacinação: deslocamento dos animais do pasto ao curral; contenção dos animais no brete/tronco; preparo do medicamento; aplicação do medicamento e liberação do animal;
-3) na descorna: deslocamento dos animais do pasto ao curral; contenção dos animais conforme o tipo de descorna; preparo e aplicação do anestésico; manuseio do material que efetuará a descorna; aplicação de cicatrizante e repelente se for o caso e liberação do animal;
-4) no acompanhamento do parto: reconhecer os movimentos iniciais que sinalizam o parto; contenção do animal e auxílio para o nascimento do bezerro, no caso de parto distócico; aplicação de hormônios para facilitar o parto; e cuidados com o recém-nascido (limpeza das vias respiratórias, limpeza do bezerro, corte e cura o umbigo e fornecimento de colostro) e com a matriz recém-parida (fornecimento de soro caseiro, aplicação de hormônio para evitar retenção de placenta, desinfecção e corte da placenta exposta e preparo do úbere para a ingestão de colostro pela cria);
-5) na reprodução, deverá preparar o touro para realizar uma monta eficiente e higiênica na fêmea; conduzir a fêmea ao touro; conduzir e conter a fêmea para receber a inseminação artificial; realizar a inseminação artificial e liberar a fêmea.
O trabalhador, independentemente do nível de instrução formal, deverá apresentar conhecimento sobre a biologia e o comportamento natural dos bovinos, nutrição, sanidade e reprodução.
Com relação à biologia, deverá conhecer como são desenvolvidos os cinco sentidos nos bovinos (visão, audição, gustação, olfato e tato), o comportamento social, o comportamento reprodutivo, o comportamento termoregulador e o comportamento de ingestão; quanto ao comportamento natural, deverá reconhecer o comportamento de cada um dos indivíduos com que atua diariamente, mas também o comportamento geral de todo o grupo.
Com este conhecimento, poderá: a) iniciar rapidamente o tratamento sanitário para alguma enfermidade que o animal está apresentando; b) reconhecer que o animal está em cio; c) despertar para alguma ação diária que não tenha sido realizada adequadamente, por exemplo: se os animais não tiverem sido alimentados adequadamente poderão ruminar menos, vocalizar mais, tornarem mais inquietos e d) despertar para a presença de animais estranhos ao grupo.
No que diz respeito à nutrição, deverá reconhecer as características adequadas de alimentos servidos na pastagem e no cocho (silagem, cana, feno, capim picado, ração concentrada), ter noção se os animais estão recebendo a quantidade adequada de alimento (lembre-se da "simpatia" que faz uma vaca produzir bastante leite: esfregar o resto de alimento do cocho em sua linha dorso-lombar) e de armazenar adequadamente os alimentos. Isto evitará que os animais permaneçam períodos inadequados de pastejo e que as pastagens passem do ponto para ingestão animal (especialmente no pastejo rotacionado); que consumam alimentos deteriorados, com toxinas, que provocarão menor ingestão e problemas reprodutivos; que os animais passem fome e que os alimentos armazenados mantenham-se viáveis para consumo até o prazo de sua validade.
Na sanidade, o trabalhador deverá estar atento aos diversos sintomas anormais apresentados pelos animais, informando-os rapidamente ao gerente/administrador para que tome as devidas providências. Entre estes sintomas estão: diarreia, coloração da mucosa, hidratação, respiração acelerada, batimentos cardíacos alterados, corrimento nasal, corrimento vaginal, apatia, dificuldade de se locomover, inquietação. Deverá manter-se atento a ocorrências de miíase (bicheira), carrapatos e bernes. Ainda, preparar e aplicar os medicamentos descritos pelo veterinário. Estes conhecimentos evitarão a evolução de doenças; permitirão a rápida recuperação do animal, evitando a mortalidade; maior eficiência e eficácia dos tratamentos realizados.
Quanto à reprodução, um dos grandes entraves da bovinocultura leiteira, o trabalhador deverá reconhecer o animal em cio, conduzir e preparar adequadamente, sem estresse, o animal para receber a monta natural ou inseminação artificial e detectar a ocorrência de aborto. Os conhecimentos relacionados à reprodução permitirão um adequado intervalo de partos, melhor taxa de concepção e menos descarte reprodutivo.
Após o trabalhador ser aprovado no processo seletivo desenvolvido para avaliar personalidade, atitude, habilidades e conhecimento, o empregado deverá oportunizar a este trabalhador um treinamento teórico-prático da atividade que desenvolverá. Comentaremos aqui, o exemplo do treinamento para o desenvolvimento da Ordenha Sustentável.
Para que o trabalhador venha desenvolver a Ordenha Sustentável (aquela em que o retireiro emprega suas habilidades e conhecimentos para interagir positivamente com o animal durante o desenvolvimento das ações na atividade de ordenha, atuando de forma correta e paciente, promovendo a tranquilidade dos animais por longo tempo), o treinamento deverá abordar assuntos pertinentes à atividade: capacidade sensorial e perceptiva dos bovinos (visão, audição e tato), comportamento social (liderança e dominância) e técnicas de ordenha (sanidade do retireiro, sanidade da vaca, mastite clínica, mastite subclínica, linha de ordenha, manutenção das instalações e equipamentos, funcionamento do equipamento de ordenha e procedimentos de ordenha). A partir da seleção do trabalhador mais o treinamento teórico-prático que receberá, o profissional estará apto a desenvolver o Manejo Racional na Bovinocultura Leiteira.
Para que o empregador consiga manter a motivação deste trabalhador, que selecionou e treinou, deverá agora, reconhecer as Necessidades Básicas (Maslow, 1970) que estimulam a motivação do profissional. A apresentação deste tema será nos próximos artigos a serem publicados.
Referência Bibliográfica
ROSA, M. S. et al. Manual de boas práticas: ordenha. Ed. Funep, Jaboticabal/SP, 2009, 49 p.
Material escrito por:
Marcelo Simão da Rosa
Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais - campus Muzambinho. Atua na área de Etologia/Bem-Estar Animal e Bovinocultura Leiteira e Bovinocultura de Corte.
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MURIAÉ - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 08/04/2011
No meu dia a dia tenho certeza absoluta sobre o que você descreveu, tanto que a mais de 5 anos que incluo em minhas visitas aonde presto consultoria uma reunião de capacitação e motivação que muito tem ajudado no dia a dia.
Temos uma mão de obra hoje consciente dos direitos e ávida pelo consumismo como a muito já tínhamos na cidade, isto não adianta debater, o que precisamos debater é como atingir melhores produtividade para que se tenha alto volume de produto por trabalhador e possamos pagar salários mais competitivos com o mercado, e em instalações e maquinas que forneça mais conforto ao trabalhador para segura-lo no campo, e isto passa pela sua capacitação, uma coisa puxa a outra.
Não devemos com isto nos acomodarmos e deixar de pressionar as nossas entidades de classe para que por sua vez pressione os governantes a olhar para o produtor rural, mas enquanto a ajuda não vem vamos escutar o Marcelo, porque sei que precisamos de uma política agrícola melhor, mas nunca mais teremos preço que possa premiar a baixa eficiência no meio rural, e umas das melhorias mais barata que se tem é capacitação e motivaçõ da mão de obra.
Abraço a todos.
Adilson

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 29/10/2010

CARLOS CHAGAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 29/10/2010
Parabéns pelo artigo de grande importância!
A realidade brasileira é bastante complicada no que diz respeito à formação profissional e a tempo de experiência no trabalho. Em nossa região (estamos no noroeste capixaba) o SENAR - ES está desenvolvendo ações importantes no sentido de estar capacitando e formando profissionais ligados a bovinocultura. Em nossa região já foram desenvolvidas ações como: Cursos de Inseminação Artificial em Bovinos, Cursos de Vaqueiro, Treinamentos sobre a qualidade do leite - buscando atingir as metas da IN 51, Treinamento de Manejo de rebanho, Curso sobre manejo de pastagens, entre outros. São de ações como essas que o Brasil precisa, e que as pessoas ligadas a bovinocultura necessitam para que possamos produzir mais e melhor, de forma a atingir as nossos objetivos.
Abraço!
Abraços

BELÉM - PARÁ - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 20/10/2010
LENÇÓIS PAULISTA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 21/09/2010
Na atual conjuntura de mercado, principalmente no setor agrícola (no que se refere a qualificação da mão de obra) estamos passando por um período de transformações. Atualmente, não encontramos mais no campo, famílias e trabalhadores, efetivamente engajados com a "terra", propriamente dita como antigamente. Não encontramos mais o respeito ao trabalho, ao empregador, às condições de moradia e vida digna no campo (sim, propriedades rurais oferecem melhores condições, muitas vezes, do que moradias e pequenas cidades rurais do Brasil) por um grande contigente de mão de obra, teoricamente disponível para trabalhar nas lavouras.
O compromisso atual (hoje), infelizmente, é com o dinheiro e com a necessidade de obtê-lo, para o pagamento das infinitas prestações assumidas devido ao atual sistema de crédito fácil ("sistema: Casas Bahia/pague em 1 trilhão de parcelas" e o melhor: sem juros, mas com financeiro embutido, claro e, prato cheio aos menos instruídos). Por diversas vezes empregamos trabalhadores atolados em dívidas, com família passando fome... mas ao verificar a mudança (quando o caminhão chega na propriedade), observamos a descarga de microondas, geladeira, fogão, forno elétrico, aparelho de som, tv de plasma e até, microcomputadores... O contrário também acontece, ou seja, empregamos funcionários com praticamente nada de bens materiais mas que, ao deixarem o emprego, carregam uma infinidade de ítens de consumo, incompatíveis com a renda gerada por uma renda familiar. Não quero aqui fazer julgamento, muito menos ser preconceituoso e achar que as pessoas não podem ter acesso ao consumo de bens ou prosperar. Apenas acho que tudo tem um limite (bom senso).
Hoje, o trabalhador rural está focado, como disse anteriormente, apenas no seu salário. O maior problema da qualificação profissional não é o treinamento ou execução de cursos e mais cursos. O maior problema é a questão da experiência e tempo de serviço. Aqui na nossa região, houve um curso para operadores de colhedeira de cana, feito por uma empresa desconhecida na região, vendendo a idéia de de emprego certo (após conclusão do mesmo) e salário na faixa de 2000,00. Pura ilusão. Ao conversar com empresários canavieiros, perguntei como era o perfil dos operadores das colhedeiras. Todos mencionaram: funcionários de carreira, antigos, que começaram do "zero", alguns até ex-cortadores de cana.
Todos os preceitos apresentados pelo seu texto referem-se ao "trabalhador ideal", aquele que todos nós gostaríamos de ter. A questão preponderante a meu ver está associada não somente a maneira de qualificá-lo, mas ao fator tempo. Para atendermos os objetivos do seu artigo, em termos de "perfil ideal" de funcionário, não basta contarmos uma história para o mesmo ou levá-lo a um treinamento. É necessário que o mesmo tenha, em primeiro lugar, interesse em aprender, goste do que faça e que passe a conhecer (e ser um bom profissional) com a experiência e tempo de serviço.
Abraço!
MUZAMBINHO - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 13/09/2010
Realmente, a produção animal está passando por enorme crise com relação à mão-de-obra, especialmente, a Bovinocultura Leitera. Tudo isso é reflexo da falta de política governamental por muitos e muitos anos. Entretanto, vejo que chegou o momento dos representantes governamentais e dos dirigentes dos setores da cadeia leiteira lançarem uma campanha e ações em prol desta atividade tradicional brasileira, apoiada pelos produtores de leite. Acredito que a grande ação dos produtores deverá ser a partir do respeito e da valorização da profissão do retireiro/ordenhador. Sabemos que em torno de 50% dos retireiros, pelos nossos levantamentos, não sabem ler, escrever ou fazer contas. Que vivem em casas rurais sem nenhum conforto, entre tantos outros fatores negativos. Temos de trabalhar nossos produtores para que eles também se tornem empresários, que façam os custos de sua produção. Sei que isso não é uma tarefa fácil! Mas, se realmente queremos desenvolver a atividade na linha que aspiramos, cada um de nós deverá assumir com muita responsabilidade a ação que desenvolve.
Em nosso próximo artigo, iremos apresentar algumas ações que os produtores podem assumir imediatamente, valorizando e respeitando a profissão de retireiro/ordenhador.
Abraços!

HULHA NEGRA - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 11/09/2010
"assistencialismo" do governo com "bolsas" de todo tipo, não dê mesmo muita vontade de procurar trabalho, nem no campo nem na cidade. Por aqui tenho visto muito disso.
GUARATINGUETÁ - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 11/08/2010
O problema é que infelizmente em algumas regiões está difícil encontrar sequer um interessado em concorrer a vaga...
Principalmente em regiões onde a indústria e comércio crescem, como na que estamos inseridos (Vale do Paraíba-SP), existe uma escasses enorme de mão de obra no campo. E essa escasses não nos permite realizar uma seleção nos moldes utilizados em outros setores. Seria ótimo se pudessemos nos dar ao luxo de selecionar inreressados, mas ultimamente vivemos uma caça intensa a um indivíduo que se for capaz de atender as necessidades mínimas de uma fazenda já seria um "profissional" diferenciado.
Enquanto empresas qualificam seus funcionários e dão prêmios por aumento de produtividade, em nosso setor parece que a premiação muitas vezes tem que ser feita quando o prejuízo não acontece. " Se você vier trabalhar e não estiver bêbado te dou um agrado" ; "Se minha vaca não tiver mamite vou te promover " ; "Se não tombar o trator..." e por aí vai... Seria ótimo de pudessemos trabalhar apenas com profissinais formados em escolas técnicas, como ocorre em grandes indústrias, mas infelizmente os custos de produção muitas vezes inviabilizam a contratação desse tipo de mão de obra.
Em outros setores existem filas e mais filas de profissionais qualificados que disputam com a faca entre os dentes uma vaga de emprego. Se ele não se enquadrar não faltam interessados para assumir o seu lugar. Na roça hoje em dia o produtor é que sai com a faca entre os dentes atrás de um funcionário para não se ver no aperto.
Como filho, neto e bisneto de produtores de leite vejo hoje a falta de mão de obra como principal fator limitante da exploração da atividade. Muitas vezes reclamamos do preço do leite, insumos, etc.. mas a realidade é que para quem não trabalha no sistema familiar a falta de mão de obra está limitando cada vez mais a atividade.