Produtores argentinos reclamam dos preços que recebem: eles tem razão?
No dia 17/12 passado Milkpoint publicou a matéria "ARG: produtores querem maior preço".
A matéria mostra que os produtores argentinos não estão satisfeitos com o que recebem atualmente, em média US$ 0,33/litro, o que corresponde a um câmbio de R$ 1,75/US$ ( real sobrevalorizado ) a R$ 0,588/lito.
Dá para entender a insatisfação dos argentinos, pois para produtores especializados no Brasil o custo de produção hoje gira entre R$ 0,68/litro a R$ 0,72/litro.
Os argentinos dizem que o preço está 30% abaixo do que deveria estar, e que o preço justo seria de US$ 0,42/litro, que a um câmbio de R$ 1,75/US$ corresponde a R$ 0,735, que aqui no Brasil cobriria o custo de produção e sobraria uma pequena margem.
Note-se que na hipotese de um câmbio de R$ 2,30/US$ ( real sem sobrevalorização ), mesmo com o preço de US$ 0,33/litro, que corresponderia a R$ 0,759/litro no Brasil teríamos cobertos os custos de produção e uma pequena margem, e se o preço fosse de US$ 0,42/litro teríamos o equivalente a R$ 0,966/litro que representaria uma margem grande para o produtor brasileiro.
A relexão sobre essa matéria me levam a duas conclusões:
1) A indústria tem pago mal o produtor, seja ele argentino ou brasileiro;
2) O real sobrevalorizado penaliza demais a pecuária leiteira brasileira.
Mário Sérgio Ferreira Zoni, em carta do leitor, alerta diz que quando comparados a relação de troca entre Leite e insumos básicos de produção, tais como Milho ( Fubá ) , Farelo de Soja e Diesel os custos de produção na argentina são basicamente os mesmos do Brasil. Mas alerta que a comparação direta é complicada pois o sistema de retenções pois barateia artificialmente o preço de produtos agrícolas. Mostra que há dois complicadores perigosos para o atual sistema de produção de nossos vizinhos. O primeiro e mais preocupante são os câmbios climáticos, com verões extremamente quentes e períodos prolongados de seca que afetam o sistema pastoril com base na alfafa. O segundo complicador é o preço absurdo dos arrendamentos agrícolas, que estão entre 1.200 a 1.800 Kilos de soja por hectare, que vem a ser o dobro ou o triplo dos preços vigentes no Brasil. Como o plantio é feito com pouco ou nenhum uso de adubo, já há estudos que mostram a enorme perda de fertilidade que o sistema determinará ao longo dos anos ( principalmente na baixa dos níveis de Fósforo )
Concordo com Zoni, realmente as comparações diretas situações em paises diferentes são complicadas não só pelo efeito das distorções cambiais e subsidiso, mas também, por diferenças específicas, que vão desde problemas climáticos a preço da terra à uso e preços dos insumos necessários à produção.
Na sua carta Zoni diz que enquanto a indústria persistir com o engodo do Leite "barato" na Nova Zelândia ( Custos reais superiores a U$ 5,50 ), Uruguai e mesmo Argentina ( Custos diretos superiores a U$ 0,33 ) seremos constantemente pressionados para produzir Leite a "baixo custo" e empobrecimento gradativo do meio rural como vemos em nossos vizinhos.
Se a indústria pressionar para produzirmos "leite a baixo custo" pagando ao produtor valores abaixo do custo real de produção, estará perdendo uma excelente oportunidade para para mudar o triste quadro de um setor lácteo que não é capaz nem de abastecer o mercado interno ( apesar do consumo estar significativamente abaixo dos 180 litros/hab./ano preconizado pela s organizações de saúde ) e criar excedentes para que possamos ser importantes exportadores para o mercado mundial. Se a indústria acha que precisamos ter um custo de produção menor, ela precisa investir no desenvolvimento de seus fornecedores no sentido que eles possam ter a assistência técnica e recursos para que isso aconteça, pois ficar apenas falando que a Nova Zelândia, Argentina e Uruguai os produtores produzem "leite a baixo custo", mesmo que fosse verdade ( e não é, tanto que os produtores desses paises também frequentemente reclamam dos preços que recebvem ) não resolve nada e não mudará o quadro da pecuária leiteira nacional.
E o Governo, se quiser que o País deixe de ser importador de leite e assegurar geração de renda e trabalho no nosso interior, deve estar atento, não só aos problemas reais da nossa pecuária de leiteira, mas também à postura da indústria para não deixar que ela use o enorme poder econômico e comercial que tem aviltando os preços aos produtores e prejudicando o País na procura de lucros facéis.
E finalizo essas considerações alertando que a própria indústria nacional deve ter cuidado, pois a política de lucros fáceis e imediatos a custa de aviltar os preços ao produtor de leite nacional pode fortalecer o comércio a buscar leite e lácteos no exterior, aumentando as mportações e tirando mercado da indústria brasileira.
Marcello de Moura Campos Filho
Produtores argentinos reclamam dos preços que recebem: eles tem razão?
Comenta a reclamação dos produtores argentinos que querem US$ 0,42/litro, faz comparações com preços no Brasil e discute a produção do "leite a baixo custo".
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