Pastejo tem se mostrado lucrativo em países temperados

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Marcelo Pereira de Carvalho

A implantação de projetos de pastejo nos Estados Unidos tem sido cada vez mais freqüente. Porém, as bases para a recomendação destes sistemas têm sido frágeis, alicerçadas apenas em cima de casos isolados de pequenas propriedades familiares, sem que existam argumentos científicos acumulados para justificar esta recomendação. O artigo relatado a seguir procurou reunir os trabalhos disponíveis sobre o tema, visando dar base técnica e econômica às recomendações.

Em um estudo de 1989 feito pelo USDA, comparou-se rebanhos de Nova Iorque e Pensilvânia que utilizavam pelo menos 15% da forragem anual via pastejo versus rebanhos que utilizavam menos de 15% da forragem via pastejo. As fazendas no primeiro grupo tinham 23% menos vacas e produziam 14% menos leite por vaca. Porém, gastavam menos em alimentação comprada (US$ 167 menos por vaca) e menos em medicamentos e mão-de-obra (US$ 136 menos por vaca). Também, custos fixos menores (menos US$ 124) completavam a lista em favor dos rebanhos a pasto. Ao final, as fazendas com pastejo (nas bases acima, 15% ou mais da forragem via pasto) ganhavam mais por vaca ($ 643 x $ 461) e tinham lucratividade anual maior ($ 32.115 x $ 29.949), mesmo tendo 23% a menos de animais.

Outro estudo feito em 1992 em 48 fazendas da Pensilvânia (nordeste dos EUA, inverno frio), mostrou que os rebanhos sob pastejo geraram 16% a mais de lucro por vaca e por funcionário do que as confinadas. Neste levantamento, apesar da silagem de milho ter produzido quase o dobro de MS/ha em comparação ao pasto, o custo mais alto de produção da silagem gerou um lucro por hectare maior para o pasto ($ 709 x 662/hectare).

Posteriormente, um trabalho realizado em Wisconsin (centro-norte dos EUA, inverno frio) em 1993 e 1995 categorizou 4 sistemas de produção: a) confinado; b) algum pastejo, mas sem mover os animais com freqüência semanal ou menor; c) pastejo rotacionado, com mudança de piquetes semanalmente ou com maior freqüência, mas pasto não era a principal fonte de forragem; d) pastejo rotacionado intensivo, com mudança de piquetes pelo menos semanalmente e pasto sendo a principal fonte de forragem durante a estação de pastejo. Este último grupo apresentou a menor renda líquida anual ($ 23.786, contra $ 31.528 para a confinada (a) e $ 32.217 para "b"). Porém, como o capital investido foi consideravelmente menor, $ 190.842 x $ 464.696 para o confinamento, o resultado final após deduzidas a depreciação e a remuneração do produtor, foi maior: $ 16.034 x $ 10.680 para o confinado.

A receita menos o custo de alimentação pode ser outra forma de comparação (ver artigo anterior do MilkPoint - ). Experimentos na Virginia em 1996 (leste dos EUA) compararam a RMCA de rebanhos que recebiam ração completa (TMR) versus pastejo. Um dos tratamentos envolveu vacas que pastavam de manhã e eram confinadas à noite e o outro, vacas que pastavam o dia inteiro e recebiam 6,4 kg/dia de um suplemento com milho, farinha de peixe e minerais. O preço do leite utilizado em ambas as situações foi igual e da ordem de US$ 0,308/kg. Os resultados estão na tabela 1, expressos em RMCA por 100 kg de leite. O tratamento a pasto com suplemento foi o que apresentou maior RMCA. Porém, supondo redução do custo da TMR em 20%, o confinamento passou a ser mais rentável.

Tabela 1. Receita menos o custo de alimentação, 1996

Tabela 1


Este trabalho mostrou que, mesmo com produção menor (não tão menor assim, é bom que se diga), as vacas sob pastejo apresentaram melhor RMCA do que as confinadas.

Em 1997, os pesquisadores repetiram o trabalho, porém alterando os tratamentos. Um grupo foi mantido confinado, enquanto que os outros dois tiveram acesso a pastagens de manhã, sendo confinadas à noite (tratamento 2) ou de noite, com confinamento durante o dia (tratamento 3). Neste trabalho, vacas que pastaram geraram entre $ 0,23 e $ 0,72 a mais do que as confinadas quando os valores médios de mercado (M) foram considerados. Ao se elevar ou reduzir em 20% os custos da TMR e do pasto (situações H e L, respectivamente), os animais sob pastejo continuaram a ser mais lucrativos (tabela 2).

Tabela 2. Receita menos o custo de alimentação, 1997

Tabela 2


A comparação destes sistemas baseada em RMCA não considera que, no pastejo, os demais custos, especialmente o investimento em maquinário e instalações, são menores do que no confinamento. Mesmo assim, as situações acima com pasto, especialmente com pastejo noturno, foram mais vantajosas.

Comentário MilkPoint: qual a aplicabilidade de trabalhos feitos em clima temperado nas nossas condições tropicais ? Nenhuma, ou muito pouca mesmo. Porém, é possível identificar alguns aspectos básicos que podem ser aplicados ao se comparar sistemas de pastejo com o confinamento. Primeiro, a produção por vaca a pasto tende a ser menor do que confinada, mesmo sendo o pasto de elevada qualidade. Segundo, mesmo com esta menor produção, o resultado final pode ser melhor em função de custos mais baixos. O quanto isto será verdade depende de inúmeros fatores, entre eles a produção de leite nos dois sistemas, o preço do leite, o custo da alimentação nos dois sistemas e os demais custos de produção (mão-de-obra, equipamentos, meicamentos, etc). Por fim, é importante que a adoção desde ou daquele sistema seja baseada em estudos locais, com base científica e econômica, e não a partir de relatos isolados ou pela convicção de seus defensores. Talvez seja esta a principal mensagem deste trabalho.

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fonte: Hoard’s Dairyman, 25/09/00, por Coleen Mowrey, Carl Polan e Gordon Groover
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Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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