Os sistemas integrados agricultura-pecuária ovina

Dentre as limitações ainda existentes para difusão do sistema, uma dúvida freqüente é sobre o que fazer com os animais no período de verão, no caso em que os mesmos não sejam terminados durante o período de inverno. Para isto, o estudo de espécies forrageiras perenes e anuais de verão, semeadas em parte da propriedade e com uso intensivo de tecnologia, é de extrema importância. Nesta proposta, a pastagem de verão deveria, obrigatoriamente, competir em rentabilidade com as lavouras de verão e permitir a manutenção dos animais na propriedade o restante do ano com alta produtividade.

Publicado por: e

Publicado em: - 6 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 1
Ícone para curtir artigo 0

Os sistemas integrados lavoura-pecuária e os sistemas silvipastoris ou agrosilvipastoris têm sido qualificados no país como possibilidades de melhoria de resposta sócio-econômica para os produtores. A integração lavoura-pecuária (ILP) tem garantido a sustentabilidade de sistemas de produção pecuária em algumas propriedades, pois o aumento da fertilidade do solo pela adubação da lavoura, cria condição apropriada para a implantação e manutenção de pastagens com espécies forrageiras de elevado potencial de produção e qualidade. Em contrapartida, esta elevada produção de biomassa da pastagem assegura maior ingresso de carbono e melhor proteção do solo contra efeitos erosivos, além de promover incremento na biodiversidade.

Se olharmos o panorama nacional, verifica-se que há diferentes sistemas de ILP no Brasil, em sua concepção, objetivos e características. Em função destes aspectos, também são diferentes as espécies forrageiras que são propostas para o mesmo. No Cerrado brasileiro, o ILP é utilizado para recuperação de áreas degradadas. Os sistemas conhecidos como "Barreirão" e "Santa Fé" são exemplos de ILP das zonas tropicais.

Nesse caso, apresenta-se predominantemente a produção de grãos, como milho e soja, e a ILP tem ocorrido a partir da associação da pecuária à agricultura. Assim, leva-se em conta que as rotações das principais culturas agrícolas em plantio direto não acumulam biomassa suficiente para a manutenção da cobertura de palha necessária ao sistema. Neste caso, o motivador da adoção da integração é o potencial que as plantas forrageiras têm de acumular biomassa e garantir a cobertura do solo.

Os gêneros de plantas forrageiras mais utilizadas, tais como a Brachiaria, o Panicum, o Pennisetum e o Sorghum, em condições de solos mais férteis das áreas agrícolas corrigidas, exprimem o seu verdadeiro potencial de produção. Diversas combinações existem, mas destacam-se como as principais culturas envolvidas a soja, o milho, o arroz e o algodão no ciclo agrícola, e as braquiárias (Marandu, Brizantão, Decumbens, Ruziziensis), o milheto e o sorgo forrageiro, na produção pecuária.

Nos subtrópicos brasileiros, a integração tem como concepção a rotação de culturas, e tem sido proposta como alternativa às clássicas rotações entre culturas anuais de verão e as culturas anuais de inverno, ou ainda, ao plantio de espécies que eram usadas apenas como cobertura do solo. Como culturas de verão, destacam-se a soja, o milho e o arroz, enquanto na agricultura de inverno, o trigo e a aveia branca.

Porém, na medida em que as culturas de inverno não têm tido interesse por parte dos produtores (problemas sanitários, custo, preço, etc.), o uso de forrageiras anuais de inverno (particularmente a aveia preta e o azevém), como pastagem, tem se apresentado como opção aos cultivos de inverno. Essa tem sido uma realidade presente no Sul do Brasil, principalmente em rotações com lavouras de milho e soja, significando receita adicional às propriedades com a venda dos animais.

Dentre as limitações ainda existentes para difusão do sistema, uma dúvida freqüente é sobre o que fazer com os animais no período de verão, no caso em que os mesmos não sejam terminados durante o período de inverno. Para isto, o estudo de espécies forrageiras perenes e anuais de verão, semeadas em parte da propriedade e com uso intensivo de tecnologia, é de extrema importância. Nesta proposta, a pastagem de verão deveria, obrigatoriamente, competir em rentabilidade com as lavouras de verão e permitir a manutenção dos animais na propriedade o restante do ano com alta produtividade.

No Paraná, em diversas unidades de pesquisa e validação foram obtidas elevadas cargas animais utilizando-se diferentes espécies e cultivares (Sorgo forrageiro, estrelas, Tifton 85, Tanzânia + Arachis pintoi, Brizanta, etc.), provando que pastagens de alto potencial em áreas de elevada fertilidade apresentam produtividades que competem com as lavouras de soja e milho.

A característica importante que deve ser considerada na escolha da forrageira no ILP é a duração do ciclo de produção da mesma, levando-se em conta que o período vegetativo do ciclo é o de maior eficiência de utilização pelos animais. Além disso, obviamente, as épocas do ano para plantio e utilização do material têm que estar bem definidas, para o planejamento do sistema.

Quadro 1. Espécies forrageiras mais utilizadas nos sistemas integrados no Brasil

Figura 1

No caso dos ovinos, pouco se observa nas propriedades junto aos sistemas integrados. Isso é reflexo do próprio rebanho que se apresenta em número bem menor do que o de bovinos, além de aspectos culturais e de tamanho das propriedades nas quais o ovino se encontra, principalmente nas Regiões Sul e Sudeste.

Porém, o raciocínio utilizado para a produção de ovinos dentro do ILP deve ser o mesmo já apresentado nessa discussão. Com o diferencial positivo de que, em áreas de rotações com culturas, é muitíssimo provável que a luta contra as parasitoses seja facilitada, em função das ocupações pela agricultura.

O esquema a seguir é um exemplo de sistema de integração agricultura-pecuária ovina com pastagens perenes de verão em rotação com soja, num modelo típico para os Planaltos do Sul do Brasil.

Figura 2

Figura 1. Diagrama de representação de um sistema de ILP para cultura da soja em rotação com pastagens perenes de verão.

O sistema prevê relação de superfície verão/inverno compatível com as produções de forragem respectivas das forrageiras de verão e de inverno propostas. Partindo-se da parição das ovelhas no inverno, considerando o sistema de monta tradicional verão-outono, as pastagens de verão diferidas (áreas complementares, Quadro 1) são a base alimentar do rebanho de ovelhas gestantes.

Após a parição, os cordeiros permanecem com as mães nos pastos de inverno até sua comercialização em novembro, e as ovelhas retornam às pastagens de verão no início do ciclo da soja. No caso proposto, os animais seriam comercializados entre novembro e dezembro, com pesos estimados próximos a 35 kg. As taxas de lotação empregadas na simulação, as relações de superfície, a previsão de desempenho animal, enfim, todos os parâmetros utilizados foram obtidos em pesquisas e em unidades demonstrativas do Rio Grande do Sul e Paraná.

Normalmente, como cobertura de inverno, no Sul do Brasil, têm sido utilizadas gramíneas como as aveias pretas (Avena strigosa) e brancas (Avena sativa) e o azevém (Lolium multiflorum), como já foi citado. Estas espécies proporcionam diferentes períodos de utilização em função da velocidade de estabelecimento e ciclo de vida. O azevém embora sendo mais lento na sua formação, permite utilização mais prolongada em relação às aveias, possibilitando uso primaveril.

Este conhecimento é importante para se adequar o ciclo da gramínea de inverno com o ciclo da cultura de verão. Por exemplo, antecedendo à lavoura de milho, que deve ser semeada mais cedo em relação a soja, a opção mais lógica seria de utilizar as aveias que apresentam um ciclo mais curto em relação ao azevém.

O contrário se passa com relação à soja, sendo muito mais vantajosa a opção pelo azevém, que permite pastejo até meados ou fins de outubro. Além do mais, após a saída dos animais, o azevém ainda pode garantir a formação de sementes antes de sua dessecação, possibilitando redução de gastos na aquisição de sementes no ano seguinte.

Como na integração lavoura-pecuária a pastagem é cultivada em condições de solos corrigidos, aproveitando o residual das adubações feitas na lavoura, tem-se neste caso uma ampla oportunidade de se trabalhar com leguminosas de inverno, que são espécies pouco presentes nas propriedades, normalmente mais exigentes quanto à fertilidade do solo. No caso das dietas para ovelhas com cordeiros ao pé, o uso de leguminosas têm demonstrado vantagem em função de sua qualidade nutricional.

Por meio do manejo adequado com herbicidas é possível a perenização dos trevos branco (Trifolium repens), vermelho (T. Pratense) e cornichão (Lotus corniculatus), sem causar problemas de competição às lavouras de verão. A presença destas leguminosas traz vantagens como a inserção do nitrogênio no sistema, a melhoria da qualidade da dieta dos animais em pastejo, e melhor cobertura do solo.

Dessa forma, considerando outras regiões do Brasil com ovinocultura crescente, como a Centro-Oeste, podem ser refletidas dentro da mesma proposta, alternativas forrageiras e sistemas de produção mais adequados à região em si. Por exemplo, levando-se em conta o uso de raças menos estacionais que devem apresentar melhor distribuição de parições no ano, o esquema de produção pecuária e agrícola deve considerar a maior freqüência de ocorrência de estações de parição de ovelhas, que é fase de elevada exigência nutricional.

Com a reflexão e o planejamento para essas alternativas, a ovinocultura pode ser inserida dentro das propriedades agrícolas, também como atividade econômica sustentável.
QUER ACESSAR O CONTEÚDO? É GRATUITO!

Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!

Ícone para ver comentários 1
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Alda Lúcia Gomes Monteiro

Alda Lúcia Gomes Monteiro

Coordena o Laboratório de Produção e Pesquisa em Ovinos e Caprinos (LAPOC) da UFPR

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Luiz Valmor da Silva Machado
LUIZ VALMOR DA SILVA MACHADO

JÚLIO DE CASTILHOS - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 19/04/2012

Reflete 100% da minha realidade como produtor do interior do Rio Grande do SUL. Parabéns pela reportagem.
Qual a sua dúvida hoje?