Nova Zelândia: Estação de Parição II

Kiwi: No último artigo começamos a falar sobre a "calving season", seu planejamento e sobre a importância do funcionário na propriedade. Foi visto também como é feito o manejo de pastagem e suplementação além de como se lida com problemas metabólicos ocasionais do parto. Dando continuidade ao assunto de estação de parição, agora abordaremos sobre como é feito o tratamento de vacas com mastite e problemas de casco, bem como infecções uterinas e o manejo de cria até a desmama. Por Eric Gandhi Silveira

Publicado em: - 9 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 10
Ícone para curtir artigo 0

 
No ultimo artigo foi mostrado como é a “calving season”, como é feito o planejamento e  como o funcionário é prioridade num periodo de alto stress na propriedade. Foi visto também como é feito o manejo de pastagem e suplementação além de como se lida com problemas metabólicos ocasionais do parto. Dando continuidade ao assunto de estação de parição agora será abordado como é feito o tratamento de vacas com mastite e problemas de casco bem como infecções uterinas e o manejo de cria até a desmama.

Conforme foi dito na primeira parte do artigo, a estação de parição que acontece na primavera é uma período de alta úmidade o que favorece a ocorrência de mastites e problemas de casco. Esses animais são tratados e separados em um lote onde ficam as vacas cujo leite não pode ir para laticínio. O leite desses animais é usado para amamentar as bezerras.

Mastites

Em geral na NZ não se tem altos teores de células somáticas. Isso se deve ao alto descarte de vacas com essas características. Essa é a principal forma de prevenção de mastites e garantir boa qualidade de leite. Contudo, é inexorável a maior frequência de mastites na parição não só pela alta umidade, mas também pelo fato das vacas se infectarem durante o período seco (vacas secas). Nesse caso, a principal prevenção de mastites para a “calving season” é a terapia da vaca seca realizada na estação de vacas secas (leia o artigo Nova Zelândia: estação de vacas secas).

O tratamento de mastite varia de acordo com cada fazenda, porém e todas as fazendas que visitamos os medicamentos são os mesmos. O que variou foi a situação em que se usa e a dose ministrada. Isso fica a critério do veterinário que assiste a propriedade. Contudo é senso comum que a mastite deve ser tratada o mais cedo possível. Entretanto com uma ordenha ágil e rápida como aqui na NZ (leia o artigo: Eficiência de ordenha na Nova Zelândia: do piquete ao piquete) não dá para ficar testando todas as vacas com caneca de fundo negro ou CMT.

Todos os dias o leite é analisado e o resultado chega no ato da coleta do leite no tanque.


O que é feito é monitorar a CCS. O nível aceitável é até 250mil. Acima disso os ordenhadores passam a ordenhar com mais atenção nas vacas que podem estar com mastites (vacas velhas, úberes mal conformados, etc). Caso chegue a 300mil é feito o teste tirando alguns esguichos de leite em cada teto. Normalmente coloca-se uma pessoa a mais na ordenha para realizar esse trabalho e manter o fluxo normal de ordenha. Caso não diminua a CCS aí usa-se o teste CMT.



O animal com mastite é identificado pintando-se suas pernas e úbere, é separado e ordenhado junto com o lote de animais em tratamento.

Laminite

O custo da lamite na NZ gira em torno de NZD$400,00 por caso. O método para se evitar o problema são os corredores de argila (leia o artigo: Eficiência de ordenha na Nova Zelândia: do piquete ao piquete) além de evitar manejos que possam lesionar os cascos das vacas tais como: tocar os animais apressadamente para ordenha, pressionar as vacas com o portão empurrador dentro do curral de espera, etc.



Durante a “calving season” o que é feito é ter paciência. Os casos de laminite vão aumentar durante as chuvas. No inverno tem mais lama ainda, mas as vacas não são manejadas com frequência como quando começa a ordenha.

Quem está trazendo as vacas para a ordenha tem a resposabilidade de identificar o animal mancando o mais cedo possível. Caso tenha apartador eletrônico digita-se o numero da vaca mancando no computador, dá o comando e vaca será separada. Caso contrário, a vaca é marcada com tinta e então o ordenhador, ao fazer a identificação, separa o animal na saída da ordenha. Faz-se o casqueamento conforme o nível de infecção e correção de aprumo e também tratamento com antibiótico. As vacas que apresentam alta incidência de laminite são descartadas.

Infecção uterina

A infecção uterina ocorre na NZ normalmente devido à retenção de placenta e falta de higiene na hora de ajudar vacas em partos distócitos. A rotina apertada e casos de muita emergência acabam que o profissional não tem muita higiene. Às vezes o parto precisa ser feito no piquete no meio da lama com uma corda que tava esquecida no banco de trás da camionete somente para salvar a vaca.


Quando a vaca está com retenção de placenta clara é separada imediatamente e tratada. Há alguns casos em que não é tão visível e a vaca começa a cheirar mal na vagina, o que pode ser notado no momento da ordenha, então esse animal é separado e tratado. Entretanto, tem alguns animais que não manifestam a infecção clinicamente. Nesse caso é feito um exame nas vacas pelo veterinário que eles chamam de “metricheck”.

O ”metricheck” é feito em todas as vacas com mais de uma semana de paridas, pois antes disso pode ter algumas vacas que estão terminando de limpar os restos do parto o que pode mascarar o exame. O exame é realizado até 3 semanas antes de começar a estação de monta para dar tempo de realizar o tratamento e os animais entrarem na estação.

Durante o exame o veterinário introduz uma sonda própria para coletar o muco no canal vaginal e verificar secreções purulentas próprias de uma infecção. De acordo com a quantidade de pus, o veterinário trata a vaca com um antibiótico localizado e/ou um sistêmico de longa ação. No caso do localizado, a aplicação é feita como fazíamos inseminação artificial com ampola no passado no Brasil, porém no lugar do sémem vai o antibiótico. Os medicamentos utilizados no "metricheck" são de zero descarte de leite.

Manejo de cria (por Laísse Campos de Freitas Silveira)

Para definir se uma vaca leiteira terá vida longa e produtiva é preciso proporcionar o melhor começo possível. Com esforço extra agora paga-se dividendos ao longo de sua vida de ordenha. Bezerras bem criadas tem muito mais sucesso como vacas leiteiras, e criá-las começa a partir do dia em que nascem. A fase de cria se inicia após o nascimento e se estende até a desmama que é determinada pelo peso das bezerras tendo duração média de 3 meses.

Logo após o nascimento, as bezerras recebem brinco com numeração crescente de acordo com a quantidade de bezerras nascidas. Por exemplo, a primeira bezerra que nascer receberá o número 1 a segunda número 2 e assim em diante. Em seguida todas recebem o primeiro colostro via sonda ingerindo 2,5 litros do mesmo. O colostro é fornecido dessa maneira, pois é a única forma de garantir a ingestão da quantidade desejada. Porém existem os riscos de se passar a sonda incorretamente ocasionando o depósito do colostro nas vias respiratórias e consequentemente a morte imediata do animal. Para evitar esse erro imobiliza-se sua cabeça direcionando-a para cima introduzindo o tubo e liberando o leite. O umbigo é curado apenas no primeiro dia com solução que contém 12,5g/l de Iodo, 16,6g/l de iodeto de potássio e 340g/l de álcool.

As fêmeas são colocadas em baias já preparadas com acesso imediato ao bebedouro, palha e ração, forradas com serragem ou palhada de trigo e com lâmpadas quentes para amenizar o frio durante à noite. Na fazenda onde estou, colocamos 11 bezerras por baia. Não se coloca mais de 20 por baia para evitar a disseminação de doenças e para que a cama seja mantida o mais seca possível, já que nessa época o clima ainda é bem frio e o sol não é suficiente para higienizá-las caso a lotação seja muito alta. Os machos e as bezerras oriundas de monta natural, hamados de “Bobby”, são alojados em baias separadas e descartados com 4 dias de vida para produção de “pet-food”. Os bezerros mortos vão para curtume.


Foto: Machos com 4 dias de vida já identificados pronto para descarte.

A alimentação é feita por mamadeiras móveis com 12 tetos cada. Duas vezes ao dia até 3 a 6 semanas de vida. Depende da quantidade de leite descartado do colostro e proveniente de vacas em tratamento com medicamentos que deixam resíduo no leite. Quanto mais leite mais prolonga-se o fornecimento em até 2 vezes ao dia. E até 12 semanas 1 vez ao dia. A quantidade fornecida é incrementada a cada 5 a 7 dias de vida. O feno, na maioria das vezes, é só palhada de trigo e é fornecido para estimular a atividade ruminal. A ração utilizada apresenta 18% de proteína e é enriquecida com vitaminas, mineirais palatabilizante e antiparasitário, formulada para bezerras de 4 dias até pós desmama. Tanto a palha quanto a ração são fornecidas à vontade. Também é adicionado ao leite, desde o 1º dia até a desmama, um probiótico que auxilia na digestão e no desenvolvimento precoce do rúmem. Já os “bobbies” são alimentados 2 vezes ao dia com 2 litros de colostro/dia sem acesso a ração, palhada e probiótico, tendo o cuidado de fornecer apenas leite proveniente colostro, para não ter resíduo de medicamentos na carne. Se for pego no teste feito no frigorífico a fazenda receberá uma alta quantia em multa. Portanto todo cuidado é pouco.
 
Caso o leite fornecido pelo descarte não seja suficiente para todo o período de aleitamento, usa-se o leite em pó. Esse é especialmente preparado para a alimentação de bezerras do primeiro dia até a desmama, enriquecido com vitaminas, minerais, probióticos e anticoccídeo. Como sua concentração e maior que o leite in natura seu fornecimento deve ser menor, de 3 a 4 litros/dia.


Foto: Aleitamento das bezerras nas baias




Foto : Traileir utilizado para alimentação em baias

A descorna é feita no primeiro mês de vida. O veterinário anestesia as bezerras e com uma máquina portátil a gás atingindo temperatura de 700 C° faz-se a descorna, rápida, segura e muito bem realizada. Onde praticamente não há sangramento. Nessa mesma hora, as bezerras são identificas com brincos eletrônicos (com a numeração da LIC), e recebem a primeira dose de uma vacina contra tétano, perna preta, morte súbita e rim polposo. Após 3 a 4 semanas amputa-se o quarto final do rabo com borrachas utilizando um alicate elastrador com o intuito de facilitar a colocada dos copos na hora da ordenha e manter o úbere mais limpo. Também são adinistrados multiminerais que contém cobre, selênio, zinco e magnésio assim como a segunda dose da vacina. Em seguida são deslocadas para os piquetes, onde além do leite e ração terão acesso também ao pasto.


Foto : Descorna realizada pelo Veterinário


Foto : Amputação do rabo feito pelo alicate elastrador.

As principais doenças que podem acometer os bezerros são pneumonia, infecção do umbigo, coccidiose, parasitária, diarreia infecciosa causada por bactérias, protozoários ou vírus e diarreia causada por excesso de leite e estresse. A maior responsável pela morte deles é a diarréia, sendo esta facilmente evitada com uma boa alimentação e desinfecção das baias. Para a desinfecção, pulveriza-se um desinfetante duas vezes por semana, onde chão, paredes, portões, trailers, botas, quadricículos e tudo que tiver contato com as baias devem ser desinfetados.

No final do terceiro mês, as bezerras já atingiram o peso adequado para a desmama. Portanto, na última semana na fazenda as bezerras recebem mais uma dose de multiminerais e a terceira dose da vacina. Em seguida são deslocadas para as fazendas arrendadas dando início a fase da recria.



 
Ícone para ver comentários 10
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Eric Gandhi Silveira

Eric Gandhi Silveira

Consultor pela Alcance Consultoria e Planejamento Rural Acompanhou 8 fazendas na Nova Zelândia durante 18 meses na Nova Zelândia.

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Michel Kazanowski
MICHEL KAZANOWSKI

QUEDAS DO IGUAÇU - PARANÁ - OVINOS/CAPRINOS

EM 07/12/2013

Caro Eric,

Qual a dimensão das baias das bezerras?
Eric Gandhi Silveira
ERIC GANDHI SILVEIRA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 06/12/2013

Prezados Xisto França e Corbulon Soares de Macêdo

Fico muito feliz pelos elogios de vocês. Agradeço a gentileza!!

grande abraço!!
Eric Gandhi Silveira
ERIC GANDHI SILVEIRA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 06/12/2013

Caro Ricardo Tamm Brandão

Muitas fazendas castram a ponta da cauda. Contudo a lei obriga deixar 12 vertebras na cauda. Mais curto que isso é crime de bem estar animal. Algumas fazendas para não correr o risco de errar no procedimento tosquia a cauda das vacas na ordenha.

abraços
Eric Gandhi Silveira
ERIC GANDHI SILVEIRA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 06/12/2013

Caro Thalles Minguta de Carvalho,

Obrigado pela gentileza do comentario.
O produto que menciono vem pronto de fábrica. Usa-se lasalocida um coccídiostatico a 90g/ton.

Abraços
Eric Gandhi Silveira
ERIC GANDHI SILVEIRA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 06/12/2013

Caro Michel Valter Kazanovski,

Obrigado pelas perguntas.
O tratamento é feito no dia do exame. A decisão é impirica quanto a quantidade de material purulento no muco. Quanto maior a infecção usa-se o medicamento de maior duração.
Vacas em anestro não são induzidas o que normalmente é feito é descarta-las. A indução ocorre em vacas cilcando por quest'ão de manejo. A estação "mating" das novilhas começa 21 dias mais cedo junto com as vacas que não emprenharam na estação passada,mas que estavam ciclando. A adapatação inicial à ordenha das novilhas não é fácil. Espera-se que essas vacas ajude um pouco guiando as novilhas, mas aqui são muito poucas as vacas vazias que ficam para proxima estação. A media de vacas vazias na NZ é de 3% e muitas são descartadas. A maioria das fazendas costuma levar as novilhas na plataforma antes de parirem para irem amançando. Em casos extremos aplica-se oxitocina mas é muito raro. Lembro que temperamento é bem selecionado na NZ a muito tempo...

Grande abraço

CORBULON SOARES DE MACEDO
CORBULON SOARES DE MACEDO

EUNÁPOLIS - BAHIA - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 03/11/2013

Muito bom Eric. mais uma aula pra aula pra nos.
Grande abraço.
Xisto França
XISTO FRANÇA

TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 30/10/2013

Parabéns Eric, pelo trabalho e qualidade dos artigos.

Abraço!
Thalles Minguta de Carvalho
THALLES MINGUTA DE CARVALHO

BAMBUÍ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 30/10/2013

Prezado Eric,

Bom dia !

Encaminho uma dúvida com relação a ração balanceada para as bezerras qu menciona a adição de parasitário na formulação.

Pergunto qual seria o principio ativo e dosagem do mesmo e parasita alvo seria verminoses ?

Relevo que seus relatos nos permitem ter uma visão de como realizar pecuária de leite de uma forma profissional. Isto é de grande valia para avaliarmos nossos sistemas e promover evolução e adaptação do sistema de cada um.

Certos da atenção encaminho a dúvida.

Obrigado,

Thalles Carvalho



mineirais palatabilizante e antiparasitário, formulada
Ricardo Tamm Brandão
RICARDO TAMM BRANDÃO

PIRAPORA - MINAS GERAIS

EM 29/10/2013

Eric,

Quer dizer então que a vacada leiteira daí não possui vassoura ?

Um abraço !
Michel Kazanowski
MICHEL KAZANOWSKI

QUEDAS DO IGUAÇU - PARANÁ - OVINOS/CAPRINOS

EM 28/10/2013

Caro Eric,

Algumas dúvidas mais.

Quantos dias após o parto inicia-se o tratamento de metrite? Os dois tratamentos utilizados são infusão uterina com Metricure ou duas doses de Excede, correto? Qual o diagnóstico para optar entre um ou outro tratamento? Vacas em anestro pós-parto são induzidas a ciclar antes do "planned start of mating date"?

Usa-se ai cobrir as novilhas algumas semanas ates das vacas? Se sim, a adaptação inicial a ordenha dessas primiparas é fácil?

Abraço

Michel
Qual a sua dúvida hoje?