Na cozinha com a genética
Nos últimos anos, o termo "genética" vem se popularizando rapidamente. Na imprensa, artigos falam de avanços da genética, de engenharia genética, de organismos geneticamente modificados. Para o leigo, o termo ganha matizes de algo perigoso da tecnologia moderna, onde o homem tenta se fazer de Deus. Outras vezes o termo é banalizado, como na pecuária, onde quem quiser pode "fazer genética".
Publicado em: - 3 minutos de leitura
Todo ser vivo tem genética. Até os vírus, que são seres extremamente simples, só são considerados vivos porque têm uma genética comandando sua existência. Os genes são como uma receita para que sejamos como somos. O ambiente é o cozinheiro com sua habilidade e seus temperos pessoais. Da interação entre a receita e o cozinheiro nasce o prato, ou seja, o indivíduo, que é resultado da ação de seus genes e da interferência do ambiente.
Pessoas que criam animais para concursos e exposições têm, além do objetivo de vencer as competições de raça, o de vender reprodutores e matrizes. Para simplificar, ou para impressionar, eles se auto-intitulam "produtores de genética". Tudo bem. Quando se vende um reprodutor ou seu sêmen, vende-se sua genética junto, seus filhos carregarão metade dela, disseminando-a com maior ou menor intensidade na população. Há, porém, um grave deslize aí. O animal "de pista" é, na maioria das vezes, o resultado de uma boa receita, mas que, além disso, passou pelas mãos de um excelente cozinheiro.
O efeito de um ambiente artificial pode mascarar o potencial genético do indivíduo para situações do dia-a-dia. Vejamos: os reprodutores levados às pistas passam por uma superalimentação, por exercícios físicos e, Deus queira que isso não aconteça, por uso de anabolizantes. Ora, seus filhos podem passar pelo mesmo processo, mas é pouco provável que isso seja utilizado por alguém interessado em produzir carne. Quem vai colocar seus cordeiros de abate para fazer musculação e natação?
Nas exposições, apresenta-se para o produtor um prato delicioso, vende-se a receita, mas não o cozinheiro. Nas mãos de um outro cozinheiro, menos habilidoso, a receita falha. O que devemos buscar, quando pensamos em produção, é uma excelente receita, que nas mãos de um cozinheiro mediano, possa dar um prato excelente. Traduzindo: excelente genética, para o ambiente de que dispomos.
Com um produto de alta qualidade poderemos industrializar nossa receita, usando das técnicas de reprodução. As empresas que desenvolvem e utilizam tecnologia de reprodução também adoram se intitular "Fulana Genética". Tem muita gente que acredita que a inseminação artificial, a transferência de embriões e a fertilização in vitro garantem boa genética. Não, as técnicas de reprodução, são técnicas de reprodução: servem para acelerar a multiplicação da genética que estamos usando, seja ela ruim ou boa. Uma receita ruim, numa indústria eficiente, gera milhares e milhares de pratos ruins.
Com esse raciocínio "genético-culinário" acredito ser incorreto chamar os criadores de animais de pista de "produtores de genética". Eles produzem animais de pista, e são muito competentes nisto. A genética, que Deus ou a natureza criou, já está feita. Os geneticistas e os melhoristas conseguem, a duras penas, reconhecer diferenças genéticas entre indivíduos e o que se pode fazer com mais eficiência é alterar as proporções gênicas nas populações, por meio de seleção.
Para que esse trabalho tenha efeito positivo é preciso uma ação coordenada por pessoas que realmente entendam de genética. Aí sim, quem sabe, com a integração dos trabalhos dos geneticistas, dos melhoristas, dos especialistas em reprodução e dos produtores, Deus nos deixe brincar um pouquinho de "fazer genética".
Observação 1: Cheguei até a sugerir para o pessoal do FarmPoint a alteração dos nomes das sessões "Raças e Genética" para "Raças e Concursos de Raças", e da sessão "Melhoramento", para "Melhoramento e Genética", mas os títulos já estão consagrados. Tudo bem. Desde que saibamos do que estamos falando, não há problema com os nomes.
Observação 2: Quando enviei este artigo pela primeira vez para o FarmPoint, a Marina Danés, muito sabiamente, me pediu que fizesse uma série de artigos sobre melhoramento genético para que não parecesse pura agressão. Sugiro a leitura dos artigos anteriores e aguardo críticas e comentários.
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Material escrito por:
Octávio Rossi de Morais
Melhoramento Genético de Caprinos e Ovinos - Embrapa
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BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PESQUISA/ENSINO
EM 08/06/2009

PONTA GROSSA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE OVINOS
EM 07/06/2009
Sabe peixe fora d´água? Pois bem, sou um! Nesta linha de raciocínio, um dia um proprietário de cavalos de corrida, sabendo que eu tinha um potro filho de fulano de tal (famoso à época), me questionou sobre o peso do potro. Respondi, 430 kg. Exclamou: nem quero ver! Retribuí: não é boi e sim um cavalo com finalidades atléticas... E nem viu mesmo.
Dá-se que nesta atividade os pobres potros são mais valorizados pelo peso, ou seja, devem apresentar-se obesos à venda (que se faz antes de completarem dois anos, pois começam correr cedo demais, o que já é negativo). Assim, os pobres obesos, são mais valorizados (e não entendo o que os Brasileiros tem com tamanho; o que impressiona é que me parece que em bovinos e etc e tal funciona igual).
Quanta falta de conhecimento, para não dizer outras coisas!
Enfim, congratu-lo de forma emocionada, pois bem sei as mazelas que deve ouvir em seu caminho, como todos aqueles que fogem da maioria e do conceito de normalidade, e agradeço a atenção.
Cordial abraço
Rogério
BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PESQUISA/ENSINO
EM 09/05/2008

MARIÓPOLIS - PARANÁ - OVINOS/CAPRINOS
EM 08/05/2008
Tenho lido seus artigos e vejo sua postura muito pé-no-chão, muito realista.
O que precisamos é de matrizes e reprodutores que imprimam características desejáveis à sua progênie, em condições normais de exploração, e que permitam ao criador uma sobra de dinheiro no bolso. Só isso!
Agora, um termo absurdo que tenho ouvido é o tal de "acasalamento genético"!!
Pelo amor de Deus!!! Existe, entre os mamíferos, algum acasalamento que não seja genético?
KKKKK!
BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PESQUISA/ENSINO
EM 11/01/2008

VACARIA - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 24/12/2007
Cito sempre o exemplo das feiras de bovinos leiteiros com seu concurso de produção onde na verdade deveríamos julgar o animal mais rentável ou, o fato de apenas valorizarmos o animal mais pesado e, se isso for verdade deveremos passar a criar elefantes que são mais pesados e, se não interessa quanto comem.
Na maioria o que esses criadores autointitulados de "vendedores e genética" nada mais são do que eficientes vendedores de comida, como tu dissestes em teu artigo bons cozinheiros. Além disso deveriam ser premiados também com trofeus pelo desempenho como marqueteiros.