Os bons resultados divulgados sobre os primeiros sistemas irrigados de produção animal colocavam este empreendimento como negócio de grande viabilidade econômica. Passada essa fase inicial de euforia, no entanto, faz-se necessária uma análise mais abrangente do uso da irrigação em áreas de pastagens. Esse foi o objetivo de Balsalobre et al. (2003) durante o Simpósio sobre Manejo de Pastagens da ESALQ/USP. Nos próximos artigos desta série, os principais aspectos abordados durante esta apresentação serão discutidos, procurando esclarecer questões como: De que forma a irrigação de pastagens deve ser inserida no sistema de produção? Quais os locais mais adequados para a adoção de técnicas de irrigação? A irrigação de pastagens poderá solucionar o problema de estacionalidade de produção?
- 1- Disponibilidade de água para irrigação
A UNESCO recomenda que cada habitante tenha à sua disposição 1000 m3 de água por ano. O Brasil possui 18% das reservas de água doce do mundo, o que significa, em média, 34.000 m3 de água por habitante/ano. A distribuição da água dentro do território nacional, no entanto, é irregular. Um habitante das regiões Sul, Sudeste e Nordeste possui cerca de 6.000 m3 de água por ano, enquanto que um das regiões Centro-Oeste e Norte possui 200.000 m3. Na região Nordeste, onde a disponibilidade de água é mais crítica, há uma oferta média de 3.600 m3/habitante.ano. Ainda assim, esse valor é 3,6 vezes maior do que o recomendado pela Unesco.
No Quadro 1 são apresentados os indicadores nacionais de irrigação no ano de 1998. No Brasil, a área irrigada foi estimada em 2,9 milhões de ha, que representa apenas 6% da área agrícola total (Cristofidis,1999, citado por Manzatto et al., 2002). Apesar disso, em 2000, a área irrigada foi responsável por cerca de 16% da produção agrícola e 35% do valor dos produtos agrícolas no Brasil. No Quadro 3 é possível observar também que, apesar da maior parte dos solos aptos à irrigação estarem localizados na região Norte, as maiores áreas irrigadas atualmente encontram-se nas regiões Sul e Sudeste.
Quadro 1: Indicadores da irrigação no Brasil no ano de 1998.

Embora a área irrigada seja relativamente pequena diante do potencial, estas estão concentradas em alguns centros, o que provoca o exagero de, em um país com grande disponibilidade de água doce, ocorrer falta de água para a população de algumas cidades. Esses dados indicam a necessidade de uma política de uso da água para irrigação no sentido de direcionar locais passíveis de serem irrigados e com a definição de que culturas podem ser plantadas. A produção de carne em áreas irrigadas não deve ser priorizada, pois exige muita água por unidade de produto quando comparada com outras culturas agrícolas (Quadro 2).
Quadro 2- Necessidade de água para a produção de alguns alimentos (m3 de água/kg de produto).

Com a intenção de educar o consumidor a melhorar a eficiência no uso da água, São Paulo poderá vir a ser o primeiro estado a cobrar pelo uso da água, pois a Política Estadual de Recursos Hídricos, através da Lei 7663/91, que cria o Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos Hídricos -SIGRH- prevê isso. A cobrança incidirá sobre a utilização da água por qualquer um e para qualquer uso, inclusive os irrigantes, sendo esse mais um item que deve ser computado no custo de sistemas irrigados.
Comentário dos autores: Os dados apresentados por Balsalobre et al. (2003) mostram que, apesar da disponibilidade de água no Brasil ser elevada, a água é um recurso estratégico e sua utilização no país deve ser planejada com muito critério. Isso exige uma ação ampla do governo em conjunto com a sociedade, onde se busque indicar as áreas críticas, estabelecer normas para a utilização da água e desenvolver campanhas de esclarecimento do público. Essa preocupação com a preservação do recurso água não significa que a irrigação de pastagens deva ser proibida... significa apenas que este é um ponto importante e que deve ser levado em consideração, tanto para um planejamento do país e das regiões estratégico quanto para o planejamento das propriedades rurais.
Balsalobre, M.A.A.; Santos, P.M.; Maya, F.L.A.; Penati, M.A.; Corsi, M. Pastagens Irrigadas. In: Peixoto, A.M.; de Moura, J.C.; Pedreira, C.G.S.; de Faria, V.P. Simpósio sobre Manejo da Pastagem, 20. Anais. Piracicaba, 2003.
Manzatto, C.V.; Freitas Júnior, E. D.; Peres, J.R.R. Uso Agrícola dos Solos Brasileiros. Rio de Janeiro: EMBRAPA. 2002. 174p.
UNESCO. Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. Water for People Water for Life. www.unesco.org. 2003.