Mão-de-obra familiar precisa ser computada no custo de produção de leite

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Marcelo Pereira de Carvalho

Um dos itens mais polêmicos relativos ao cálculo dos custos de produção refere-se à computação do valor da mão-de-obra familiar como parte integrante dos custos, especialmente em propriedades pequenas, tipicamente familiares, onde o peso deste item é mais elevado. A análise da mão-de-obra familiar passa a ser importante ao se pensar em custos de produção no Brasil, considerando que, de acordo com levantamento feito pela FAEMG em Minas Gerais (1995), cerca de 65% da mão-de-obra é de origem familiar nas fazendas pesquisadas, chegando a mais de 80% nas propriedades com menos de 50 litros diários.

Economicamente, é indiscutível que a mão-de-obra familiar precisa ser contabilizada. A não observância só teria sentido caso esta mesma mão-de-obra fosse desnecessária ao processo produtivo ou administrativo, o que, em propriedades familiares, definitivamente não ocorre, uma vez que na maior parte dos casos ela é responsável por boa parte do trabalho realizado.

Sendo assim, é preciso alocar valores de mercado ao trabalho familiar responsável tanto por atividades operacionais (ordenha, alimentação, limpeza), como administrativas, valores estes definidos pelo mercado regional e função exercida. Dependendo do nível de produção e do número de pessoas alocadas, o impacto no cálculo dos custos de produção pode ser significativo. Supondo por exemplo marido e mulher trabalhando sozinhos em uma fazenda que produza 350 litros diários e salário de R$ 350 mensais para cada um, são R$ 0,067/litro de leite.

Esta produtividade de 175 litros/trabalhador/dia é reduzida para padrões internacionais, mas bem superior à média nacional. No mesmo levantamento realizado pela FAEMG em Minas Gerais, somando-se mão-de-obra familiar e contratada, a produção por trabalhador/dia para fazendas de mais de 250 litros diários era de 94,71 litros, de forma que, na realidade, o impacto por litro seria ainda maior (é bem verdade que o salário acima talvez seja elevado, acima dos padrões do mercado, mesmo se considerando os encargos e benefícios. Porém há que se considerar que este casal está administrando a propriedade, devendo a gestão também ser remunerada).

De qualquer forma, usando os dados do já citado levantamento como base (tabela 1) e supondo despesas de R$ 350/trabalhador/mês, calculamos os custos por litro de leite em várias regiões de Minas Gerais, de acordo com os extratos de produção definidos na pesquisa (tabela 2). Nota-se que o efeito é elevado ao se considerar que, em países de produção competitiva de leite, a margem de lucro raramente passa de 20%. Tomando como exemplo a média geral calculada em nossa simulação, de R$ 0,073/litro de leite, e supondo um preço de R$ 0,30/litro, dá quase 25% do preço total recebido gasto pela computação da mão-de-obra no custo de produção.

Tabela 1. Produtividade da mão-de-obra familiar das propriedades entrevistadas, em litros/dia-homem. Amostra parcial

Tabela 1


Tabela 2. Impacto da computação da mão-de-obra familiar no custo de produção, supondo remuneração total de R$ 350/trabalhador/mês

Tabela 2


Assim, considerando-se o pequeno módulo de produção que caracteriza a média das propriedades brasileiras, o alto grau de emprego da mão-de-obra familiar e a baixa eficiência por produtor, a consideração ou não da mão-de-obra familiar ganha importância.

O outro lado da moeda

Há, por outro lado, quem considere que, por não haver uso alternativo da mão-de-obra familiar, esta não deva ser considerada. Em outras palavras, não há custo de oportunidade, ou seja, dadas as condições do país, a falta de emprego e o nível educacional médio da população rural, caso não estivesse produzindo leite, este produtor estaria engrossando a fila de desempregados nas cidades. Portanto, o seu custo não deve ser contabilizado.

Há várias implicações geradas por este enfoque. Em primeiro lugar, evidentemente, o custo de produção cai artificialmente. Imagine a seguinte situação: dois produtores de 200 litros/dia, sendo que um deles faz todo o serviço e o outro tem um funcionário e não atua diretamente na propriedade. No primeiro caso, considerando o enfoque da não contabilização da mão-de-obra familiar, o custo do trabalho é zero; no segundo caso, ele é contabilizado normalmente.

Outra implicação é que, também artificialmente, cria-se uma vantagem econômica para pequenos produtores familiares em comparação a produtores de maior volume de leite e que contratam mão-de-obra, ainda que, em tese, a economia de escala sugere que o caminho leva a eficiência na direção oposta.

Ao não se considerar a mão-de-obra familiar, sepulta-se qualquer possibilidade de encarar a atividade de forma empresarial. O lucro passa a ser o que sobra a cada mês; a receita líquida da atividade equivale diretamente ao valor embolsado pelo produtor para suas necessidades. O que sobrar, enfim, é o seu lucro. Desta maneira, o custo de oportunidade de alimentos produzidos internamente ou animais, por exemplo, dificilmente serão contabilizados. A separação da atividade em várias sub-atividades com contabilidade própria é inviável. Impede-se, ainda, que o pequeno produtor vislumbre que sua atividade possa gerar lucro além de cobrir suas necessidades básicas. Finalmente, ao se recomendar este enfoque, empurra-se o preço do leite para baixo, sorrateiramente, pois se é possível pagar preços que não remunerem a atividade de uma parcela significativa da produção, porque remunerar aqueles que encaram a atividade como empresa ? O nivelamento de preços ocorre por baixo.

É evidente que a situação do país contribui em muito para esta situação. Afinal, se houvesse empregos e oportunidades decentes para todos, a exigência do produtor, mesmo o pequeno, seria mais alta. Talvez, em função desta mesma situação, não haja o que fazer em termos práticos. Quem compra leite precisa comprar barato e competir no mercado; o pequeno produtor não tem mesmo alternativas; nesta situação, o princípio econômico do custo de oportunidade da mão-de-obra pode mesmo não se aplicar. De qualquer forma, é importante que se reconheça a situação e que se tenha noção da sua importância e dimensão. Já é um começo.

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fonte: MilkPoint
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Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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ARACAJU - SERGIPE - ESTUDANTE

EM 15/12/2016

Eu quero saber oque é e como funciona a mão de obra familiar.
Qual a sua dúvida hoje?