Daniel Montanher Polizel - Zootecnista - FMVZ - UNESP - Mestrando em Ciência Animal e Pastagens - ESALQ - USP
Carol Floret da Costa - Graduanda em Zootecnia - FMVZ - UNESP
O Brasil possui um rebanho ovino com cerca de 16,8 milhões de cabeças em 2009, o que corresponde a 1,6% do rebanho mundial. Em relação à produção de carne ovina, o Brasil produz 80.000 toneladas de carne, o que representa 1% do total produzido no mundo (FAO, 2009). Devido à alta incidência de problemas de verminose em ovinos e a necessidade de intensificar a produção em busca de resultados satisfatórios, boa parte do rebanho comercial é confinado, o que implica em maiores custos de produção. Com a alta no preço do milho e soja, principais ingredientes utilizados nas dietas, torna-se necessário procurar alimentos alternativos como, por exemplo, a glicerina bruta.
Durante a produção do biodiesel ocorre o processo de conversão de triglicerídeos em ácidos graxos, gerando um subproduto denominado glicerina bruta (Golçalves et al. 2009) (Figura 1). Essa glicerina bruta pode passa por um processo de purificação, dando origem a glicerina purificada, que é utilizada pelas indústrias farmacêuticas, alimentícias, na produção de ceras e ésteres. Porém, esse processo de purificação possui um custo elevado e somado ao fato dessas indústrias possuírem uma limitada capacidade em utilizar essa glicerina purificada, abre-se espaço para formas alternativas de uso da glicerina bruta.
Figura 1

Como a maioria dos subprodutos, a glicerina bruta possui certa variação em sua composição química, sendo que a literatura reporta uma composição de 84,0% de glicerol, 7,9% de água, 1,1% de extrato etéreo e 7,0% de minerais (Lammers et al. 2008; Menten et al. 2008; Mach et al, 2009). Tomando como base a elevada presença de glicerol em sua constituição e este ser caracterizado como sendo altamente energético, pesquisas foram conduzidas para avaliar o uso da glicerina bruta na nutrição de ovinos.
Gomes et al. (2011) utilizaram 27 cordeiros da raça Santa Inês, com aproximadamente 90 dias de idade e avaliaram o desempenho dos animais recebendo dietas com 40% de feno de aveia, utilizando tratamento controle e a inclusão de 15 e 30% de glicerina bruta (83,2% de glicerol). Os autores concluíram que a inclusão de valores de até 30% de glicerina na dieta total não gerou impacto negativo sobre a saúde animal, consumo, desempenho e a qualidade da carne ovina. Salientaram que a adição de glicerina gerou uma redução, considerável, na geração de pó, podendo esse ser um efeito benéfico da utilização desse subproduto em rações com elevado teor de matéria seca.
Terré et al. (2010) utilizaram 102 cordeiros que foram suplementados, da desmama ao abate, com glicerina bruta (0, 5 e 10%) e concluíram que a glicerina pode ser incluída na dieta de cordeiros até o teor de 10% sem prejudicar o desempenho, a ingestão, ou alterar a composição dos ácidos graxos da carne.
Musselman et al. (2008), avaliaram a inclusão de 15, 30 e 45 % de glicerina, com aproximadamente 90% de glicerol, na nutrição de cordeiros recebendo dietas com alta proporção de concentrado e verificaram que os animais que receberam até 15% de glicerina bruta tiveram um maior ganho de peso em relação ao tratamento 30% e 45% (0.32; 0.25; 0.21; 0.15 kg/dia, respectivamente).
Gunn et al. (2010) ao avaliarem a adição de glicerina bruta (87,50% de glicerol), sendo os níveis de tratamento utilizados 0, 5, 10, 15 ou 20% de inclusão, em dietas contendo 15% de feno, sobre o desempenho e as características de carcaça de 30 cordeiros, observaram que não houve diferença entre os tratamentos com relação ao ganho médio (0,23; 0,20; 0,28; 0,29; 0,23 kg/dia), peso final (56,20; 57,60; 58,10; 57,50; 57,10 kg), e ingestão de matéria seca (1,43; 1,41; 1,59; 1,57; 1,55 kg/dia, respectivamente), bem como para as características de carcaça.
Porém deve-se atentar para a qualidade da glicerina bruta, pois quando o teor de glicerol presente em sua composição é baixo os resultados podem ser abaixo do esperado.
Lage et al (2010), avaliaram o desempenho de 35 cordeiros recém desmamados da raça Santa Inês, com 90 dias de idade, foram submetidos aos tratamentos 0, 3, 6, 9 e 12 % de inclusão de glicerina bruta (36,20% de glicerol) na MS, em substituição ao milho, sendo as fração volumosa da dieta (30%) composta por de silagem de milho. Relataram queda no consumo de matéria seca (1,12; 1,12; 0,90; 0,94; 0,78 kg/dia) e no ganho médio diário (0,268; 0,300; 0,255; 0,257; 0,193 kg/dia, respectivamente).
Com base na literatura, a glicerina bruta pode ser utilizada em dieta de ovinos desde que esta apresente uma boa qualidade (alto teor de glicerol em sua composição) e que seja adicionada na dieta entre 10 e 15% na matéria seca sem prejudicar o desempenho animal.
