Estudo traça sistemas típicos da pequena produção de leite no Rio Grande do Sul em 2025

Levantamento realizado em workshop com especialistas detalha a realidade de dois sistemas típicos da agricultura familiar e aponta tendências de concentração no setor.

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No Rio Grande do Sul, a produção de leite se estabilizou em cerca de 4 bilhões de litros anuais, mas o número de produtores diminui, enquanto a produtividade por vaca e o número de animais por propriedade aumentam. Um workshop em dezembro de 2025 analisou dois sistemas de produção: RS15-150 e RS30-500. O primeiro representa 62% dos estabelecimentos, com baixa margem líquida, enquanto o segundo, com maior escala, apresenta melhor viabilidade financeira. A concentração da produção e o desafio de permanência dos pequenos produtores são questões cruciais para o setor.

No Rio Grande do Sul, a produção anual de leite tem se mantido estável, na casa dos 4 bilhões de litros nos anos recentes. No entanto, a estrutura por trás desses números está mudando: há uma redução expressiva do número de produtores, acompanhada pelo aumento da produtividade por vaca e do número médio de animais por estabelecimento.

Para compreender essas transformações, foi realizado em dezembro de 2025 um workshop em Cruz Alta (RS) reunindo especialistas1, pesquisadores e técnicos. O encontro levantou indicadores de eficiência de cinco sistemas produtivos. Os dois modelos de menor escala são o foco desta análise: fazem uso de mão de obra familiar e a produção é a base de pasto, e que juntos representam 80% dos estabelecimentos e um quarto da produção total do estado.

Abaixo, detalhamos o raio-X desses dois sistemas, identificados pelos códigos RS15-150 (menor escala) e RS30-500 (escala intermediária).

Sistema de produção RS 15-150:

  • Esse sistema é representativo para 62% dos estabelecimentos do estado, concentrando 33% do rebanho de vacas e são responsáveis por 11% da produção total de leite;
  • A produção total diária é de 150 litros, equivalente a 12,5 litros de leite por vaca em lactação, de um total de 12 animais. Considerando o rebanho total de 15 vacas, a produção média por animal é de 10 litros/dia. O valor de mercado para uma vaca no início da lactação é estimado em R$ 6.000;
  • Ocupa 16 ha de terra, sendo 90% em pastagens, dos quais 9 ha são anuais e 4 ha em perenes. As perenes têm um custo de manutenção de R$ 400 por ha/ano, possibilitando uma taxa de lotação de 2,0 UA por ha. Destinam-se ainda 2 ha de milho para produção de silagem
  • A idade da novilha ao primeiro parto é de 30 meses;
  • Uso exclusivo da mão de obra familiar, na base de 0,8 pessoas, que resulta em uma produtividade de 200 litros de leite por dia trabalhado, ao custo equivalente a um salário bruto de R$ 3.982 por mês, para um salário líquido de R$ 3.000 por mês por unidade de trabalho.

Tabela 1 ATIVIDADE LEITEIRA – Características técnicas, estrutura da produção e produtividade de dois sistemas típicos da produção de leite à pasto em base familiar do RS, 2025.


(*) Identificado por: UF; total de vacas; L/ faz./dia.
(**) Valores monetários em R$/Dez 2025.
Fonte: Dados de levantamento em Workshop realizado em dezembro de 2025, em Cruz Alta, RS.

 

Sistema de produção RS 30-500:

  • Representativo de sistema típico de um quarto dos produtores gaúchos que, no agregado respondem por 15% da produção estadual de leite;
  • A produção diária é de 500 litros, em média 19,2 litros com 26 vacas em lactação. Considerando o total de 30 vacas, a produção média é de 16,7 litros por dia.  O valor de mercado estimado para uma vaca no início da lactação é de R$ 8.000;
  • Ocupa 33 ha de terra, com dois terços destinados a pastagens, sendo a metade em pastagens anuais (16 ha), a um custo médio de manutenção de R$ 3.000 por ha/ano. As perenes ocupam 6 ha, com um custo de manutenção de R$ 1.200 por ha/ano, possibilitando taxa de lotação de 3,0 UA por ha. A produção de silagem de milho ocupa 11 ha.
  • A idade da novilha no primeiro parto é de 28 meses;
  • Uso de 2 unidades de mão de obra familiar, com produtividade de 276 litros por dia trabalhado. O custo dessa mão de obra é equivalente a um salário bruto de R$ 3.982 por mês, para um salário líquido de R$ 3.000 por mês por unidade de trabalho.

Receitas e custos do leite

Para entender a saúde financeira desses sistemas, o estudo analisou os custos de produção considerando apenas a produção de leite. A lógica usada pelos especialistas foi transformar o preço líquido recebido pelo leite na "Receita Total" (100%) e avaliar quanto cada despesa consome dessa renda.

A análise divide as despesas em dois grupos:

  1. Custo Operacional Efetivo (COE): é o dinheiro que realmente sai do bolso do produtor para pagar insumos e serviços a preços de mercado.
  2. Custo Operacional Total (COT): é a soma do item anterior com custos que não envolvem desembolso imediato, mas são reais: a depreciação (o desgaste das máquinas e instalações) e o valor da mão de obra familiar.

Tabela 2 - Estimativas da renda total e despesas anuais em relação à renda total de dois sistemas típicos da produção de leite à pasto em base familiar do RS, 2025.


(*) Identificado por: UF; total de vacas; L/ faz./dia.
(**) Valores monetários em R$/Dez 2025.
Fonte: Dados de levantamento em Workshop realizado em dezembro de 2025, em Cruz Alta, RS.

 

Gastos diretos são parecidos quando olhamos apenas para o dinheiro que sai do caixa (Custo Operacional Efetivo), os dois sistemas são muito parecidos. No sistema menor (RS15-150), esses gastos consomem 58% da receita, enquanto no maior (RS30-500), consomem 54%.

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O peso da alimentação das vacas é idêntico proporcionalmente: em ambos os casos, a ração (concentrado) "come" 25%  da renda do leite, e o volumoso (pasto/silagem) representa 7%.

O peso "invisível" da mão de obra e depreciação 

As grandes diferenças aparecem quando calculamos o Custo Total. O sistema menor sofre mais com o peso da mão de obra familiar e da depreciação, pois tem menos leite para pagar essas contas.

Somando depreciação e mão de obra, essa fatura representa:

  • 41% da receita no sistema pequeno (sendo 12% de depreciação e 29% de mão de obra).
  • 31% da receita no sistema maior (sendo 10% de depreciação e 21% de mão de obra).

Em resumo, a menor produtividade por vaca e o baixo volume diário tiram a competitividade do pequeno produtor, tornando sua estrutura proporcionalmente mais cara. O resultado final mostra a fragilidade do sistema menor. O RS 15-150 consegue pagar seu Custo Total (que atinge 99% da receita), mas sobra uma margem líquida de apenas 1%, uma folga financeira perigosamente limitada. Já no sistema RS30-500, a eficiência dilui os custos, garantindo uma margem líquida de 15%.

Receitas e custos da atividade leiteira

O estudo também colocou na ponta do lápis os custos para criar as novilhas (as futuras vacas leiteiras). Embora calculados separadamente, esses valores compõem o resultado geral da propriedade. A boa notícia é que, em ambos os modelos, a criação de animais trouxe retorno positivo.

Custo de reposição

  • No sistema menor (RS15-150): A novilha tem o primeiro parto mais tarde, aos 32 meses. O custo total para criá-la é de R$ 4.684. Isso representa 78% do seu valor de mercado (estimado em R$ 6.000).
  • No sistema maior (RS30-500): A novilha é mais precoce, parindo aos 30 meses. O custo de criação é maior, R$ 5.788, mas como o animal é mais valorizado (R$ 8.000), esse custo compromete uma fatia menor do valor final: 72%.

Tabela 3 - ATIVIDADE LEITEIRA – Estimativa da renda líquida anual de dois sistemas típicos da produção de leite à pasto em base familiar do RS, 2025.


(*) Identificado por: UF; total de vacas; L/ faz./dia.
(**) Valores monetários em R$/Dez 2025.
Fonte: Dados de levantamento em Workshop realizado em dezembro de 2025, em Cruz Alta, RS.

Para concluir, o levantamento consolidou todas as rendas (leite + venda de animais) e descontou todos os custos anuais:

Sistema RS15-150: no limite do reinvestimento.

Este modelo gera uma receita anual total de R$ 135 mil. Depois de pagar todas as contas do dia a dia e descontar a depreciação, o que sobra para remunerar a mão de obra da família é R$ 38 mil por ano.

  • Isso equivale a um salário de R$ 3.200 mensais por pessoa (já considerando encargos como 13º, férias e FGTS).
  • A "sobra líquida" real, ou seja, o dinheiro livre para a propriedade reinvestir e crescer, é de apenas R$ 4 mil por ano.  

Sistema RS30-500: viabilidade a longo prazo.

A escala maior movimenta uma receita bruta de R$ 475 mil por ano. Após deduzir custos operacionais e depreciação (R$ 292 mil), a remuneração para as duas pessoas da família que trabalham no local é de R$ 95 mil por ano (cerca de R$ 8 mil mensais).

  • A renda líquida anual da atividade fecha em R$ 86 mil (18% da receita bruta).

Esse resultado permite uma remuneração de 2,2% ao ano sobre o capital investido, classificando esses empreendimentos como viáveis financeiramente no longo prazo.

Escala e produtividade

Os indicadores mostram que sistemas com menor produtividade por vaca e com menor volume de produção têm custos relativos mais altos e percebem preços líquidos inferiores à média estadual, reduzindo sua competitividade. Nesse contexto, estudos da Emater-RS de 2023 reforçam essa tendência e indicam que a categoria dos estabelecimentos acima de 500 litros por dia foi a única que apresentou crescimento em número de produtores, cerca de 1% ao ano. Portanto, o Rio Grande do Sul está em uma dinâmica de concentração da produção: menos propriedades, porém com maior escala, produtividade animal e eficiência por área.

Desafios para permanecer na atividade

A redução do número de produtores, principalmente aqueles com menores escalas, também é observada em outras regiões do Brasil. A permanência desses produtores na atividade é um desafio para a cadeia de lácteos, seus atores sociais e para os formuladores de políticas públicas e para o setor privado. A política brasileira de pagamento pelo leite, com elevada bonificação por volume, tem papel fundamental no direcionamento da atividade.

O aumento do volume de produção e produtividade requer apropriação de novas tecnologias e melhorias estruturais, que dependem de investimentos que nem sempre estão ao alcance dos produtores com menores escalas. Entretanto, para um produtor, com o sistema RS15-150, passar para o outro patamar, precisaria, por exemplo, ampliar o rebanho em pelo menos 15 vacas para justificar o uso de uma unidade de mão de obra adicional. Esse salto esbarra não apenas na limitação de capital, mas também na dificuldade de encontrar mão de obra qualificada e disposta a trabalhar no meio rural. Portanto, a mudança de escala implica na ampliação adequada de todos os recursos da atividade: terra, capital, trabalho, rebanho e gestão.

1Participantes: Alberto Petiz – CCGL; Alessandra Bridi – Pesquisadora RTC/CCGL; Darlan Palharini – SINDILAT; Éder Motta – CCGL; Jarlan Nascimento – CCGL; Michel Kraemer – CCGL; Natália Bastos – CCGL; Nícolas Petry – CCGL; Oldemar Weiller – EMATER/RS; Renan Faccio – CCGL; e Silvana Trindade – CCGL.

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Material escrito por:

Lorildo Aldo STOCK

Lorildo Aldo STOCK

Eng. Agr. PhD - Embrapa Gado de Leite; coordenada as atividades do IFCN no Brasil.

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Yasmin Chagas Belo
YASMIN CHAGAS BELO

CAMPINAS - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 11/02/2026

Muito bom!
Maximiliano Scopel Ardenghi
MAXIMILIANO SCOPEL ARDENGHI

JACIARA - MATO GROSSO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/02/2026

otimo material . parabens
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