Se avaliarmos os rendimentos históricos das aplicações financeiras, veremos que a bolsa de valores é a que apresenta maiores retornos em comparação, por exemplo, com a caderneta de poupança. Mesmo assim, muitas pessoas continuam investindo na caderneta ou em outras aplicações com rendimentos inferiores aos da bolsa de valores. Será que estas pessoas não são muito espertas ou há algo mais além deste raciocínio ?
A resposta é que, de fato, existe algo mais para se analisar antes de se concluir que as pessoas que investem na poupança não são muito espertas. Basicamente, estamos falando do "risco": muitas pessoas preferem garantir um baixo retorno que é certo do que arriscar a ter um alto retorno que pode não se concretizar (pode, inclusive, resultar em perda do capital investido). Há casos nos quais é vantagem se resguardar e, outros, nos quais pode-se aceitar algum grau de risco.
Por exemplo, se você tiver investindo dinheiro para a educação universitária de um filho de 16 anos, você sabe que precisará deste capital dentro de 2 a 6 anos. Seria arriscado demais colocar este dinheiro na bolsa de valores. Se o mercado cair, seu capital pode ruir e você pode não ter tempo de recuperá-lo quando necessitar do dinheiro. Quem investiu na bolsa de valores aqui no Brasil neste ano sabe do que estou falando - o IBOVESPA, em SP, tem queda acumulada de 18,41% no ano. Logo, para um investimento no qual você precisará do capital no curto prazo, é melhor optar por um retorno mais baixo, porém garantido.
Por outro lado, se você tem um bebê e pretende investir desde já na sua formação universitária, a opção em ações pode ser excelente, porque contabilizando os próximos 18 anos é bem provável que você terá, com as ações, rendimento maior do que com a poupança ou outra aplicação de baixo risco.
Mas o que isto tem a ver com produção de leite? A conexão é que, nas fazendas, o produtor está sempre tomando decisões com base em retornos esperados. E, para a tomada destas decisões, é preciso estimar os riscos envolvidos. Ao se fazer investimentos de peso, como por exemplo em instalações ou maquinário, é interessante responder à seguinte pergunta: eu posso assimilar o prejuízo se o investimento não resultar em benefício econômico? Imagine o exemplo: uma fazenda estava com contagem de células somáticas ao redor de 800.000. O produtor achou que o problema residia no equipamento de ordenha, ultrapassado e subdimensionado. A renovação do sistema lhe custaria $ 10.000. Em função da relação entre células somáticas e produção de leite, ele estimou que se reduzisse a contagem para 200.000, ganharia 1,4 litros por vaca/dia a mais. Supondo preço de $ 0,264/kg e 80 vacas, seriam $ 10.512 por ano. Isso sem contar a redução dos casos de mastite clínica e um possível aumento no preço pago pelo leite. Parecia um ótimo investimento!
Porém, este produtor não considerou o risco embutido na renovação do equipamento. Havia uma chance significativa dele não obter o retorno esperado, pois não necessariamente o problema estava no equipamento ou mesmo a relação entre perdas na produção e células somáticas não é tão matemática assim. E foi de fato o que ocorreu: um ano depois o produtor continuava com alta quantidade de células somáticas e $ 10.000 mais pobre. O problema estava em sua rotina de ordenha e não no equipamento que, mesmo velho, poderia funcionar satisfatoriamente. Pior ainda, este produtor, com 80 vacas em lactação, simplesmente não poderia gastar esta quantia sem que houvesse um retorno.
Um investimento não necessariamente envolve equipamentos. Vamos supor que a decisão é de utilizar um produto para pré-dipping mais caro, elevando o custo em cerca de $ 40/mês. O mesmo produtor assumiu que seriam necessários pelo menos 6 meses para recuperar o investimento (para ver algum resultado), de forma que o capital investido neste caso seria de $ 240. Mesmo sendo necessária a redução nas células somáticas para que a alteração se justificasse, o fato é que este produtor poderia correr o risco de perder esta quantia, ao contrário nos $ 10.000 do equipamento.
Sendo o investimento grande ou pequeno, é preciso fazer as perguntas certas antes de gastar o dinheiro:
1. Como o investimento irá gerar retorno positivo?
2. Quanto retorno podemos admitir, supondo um cenário razoável?
3. Qual a certeza de ter este retorno?
4. Em quanto tempo teremos o retorno?
5. Como faremos para quantificar o retorno?
6. Quanto dinheiro será necessário investir antes de ter o retorno?
7. Podemos nos dar ao luxo de perder o valor investido?
8. Se este é um investimento contínuo, como o produto para pré-dipping, como e quando se pode decidir pela continuação do uso?
É fácil perceber que várias das perguntas acima exigem respostas estimadas. Mesmo assim, mesmo que haja algum grau de estimativa e "chute", o fato de refletir sobre as questões acima embasa melhor o processo de tomada de decisão.
É evidente, no entanto, que investimentos iniciais mais substanciais são mais arriscados do que investimentos de caráter contínuo. No primeiro grupo são incluídos vagões de ração completa, equipamentos de ordenha, instalações, etc. No segundo grupo, temos aditivos para alimentação, produtos para ordenha, vacinas, BST, adubação, aumento da freqüência de alimentação, etc. Em uma posição intermediária, temos a colocação de sombrites em piquetes, por exemplo. Alguns investimentos têm um custo inicial e também um custo contínuo, como ventiladores (a eletricidade seria o custo contínuo de operação).
Alguns investimentos devem ser classificados como um seguro e, neste caso, sua esperança é não precisar ver o retorno. Um programa bem delineado de biossegurança contra brucelose, por exemplo, entra neste grupo. Você nunca terá o retorno se a doença não entrar em seu rebanho, mas, caso ocorra, o retorno será tremendo. O importante é começar a pensar nas questões envolvendo risco antes de tomar as decisões.
fonte: Charles E. Gardner, Risk ... the factor that complicates farm decisions, Hoard’s Dairyman, November, 2000.