A claudicação representa um dos problemas de mais alto custo na atividade leiteira. Quanto maior o número de confinamentos, mais e mais vacas são acometidas por afecções podais. Cerca de 90% dos problemas locomotores ocorridos em gado de leite estão associadas com lesões no casco.
O casco é um excelente indicativo do manejo utilizado no rebanho. O casco "conta" para o casqueador qual é o problema de manejo e quando ele ocorreu. Por isso, o primeiro passo para controlar as afecções podais é saber diagnosticar as lesões. Existem várias lesões de casco. Dentre elas, destacam-se pela sua elevada ocorrência e importância econômica: úlcera de sola, hematoma de sola, doença da linha branca, abscesso de sola, erosão de talão, verruga de casco, podridão de casco e o gabarro. Exceto a Verruga de casco, a Podridão de casco e o Gabarro, a maioria das lesões ocorre no tecido córneo do casco. Muitos são os fatores predisponentes das lesões, podendo ocorrer isoladamente ou associados. Basicamente, existem quatro fatores predisponentes: ambiente, nutrição, fatores infecciosos e genéticos.
Para entender melhor quando um problema de manejo desencadeia uma lesão podal é necessário lembrar a anatomia do casco. O estojo córneo ou casco nada mais é do que uma barreira que protege tecidos internos da unha e é, também, uma estrutura que suporta o peso do esqueleto animal.
O casco é formado pela muralha, sola e linha branca, sendo que tais estruturas apresentam diferenças anatômicas e diferentes funções. A muralha é a estrutura mais rígida. Dificilmente um corpo estranho penetra na muralha, a menos que a mesma esteja danificada. A sola é uma estrutura semelhante a uma folha que se encaixa na região distal da muralha. A sola é mais rígida próxima à pinça do casco e mais flexível próxima ao talão. A linha branca é a estrutura responsável pela adesão da muralha à sola. O tecido córneo da linha branca é o mais macio de todo o casco e pode se romper ou se desintegrar facilmente, permitindo assim que um processo infeccioso se instale na cápsula da unha (doença da linha branca).
Assim como a cutícula presente no homem, o casco possui a banda coronária que é uma faixa de tecido macio, abaixo da coroa do casco, de aproximadamente 1 cm de largura e se funde à muralha e ao talão do casco.
O tecido do casco está sempre sendo produzido e sempre sendo desgastado pelo atrito da locomoção. O casco é continuamente produzido pelas células germinativas da epiderme, as chamadas células queratogênicas. Muitas vezes, as lesões de casco são decorrentes de danos ocorridos nestas células que dão origem ao tecido córneo. Após um insulto, o tecido queratogênico pode produzir um tecido córneo de baixa qualidade, macio e predisposto a um dano físico ou até mesmo a uma desintegração. Tal insulto pode ser decorrente de problemas nutricionais, estresse, trauma local, doenças tais como a mastite e a metrite, excesso de tempo em estação, etc.
É possível correlacionar o período no qual ocorreu tal distúrbio na produção de tecido córneo com alguns sinais apresentados pelo casco. O tecido córneo da muralha é produzido pelo tecido queratogênico na banda coronária e sua taxa de crescimento é de cerca de 5mm (1/2 cm ) ao mês. Considerando que o comprimento médio do casco de uma vaca holandesa adulta é de 7,5 cm, pode-se concluir que o tecido gerado na banda coronária leva cerca de 12 a 15 meses para alcançar a extremidade distal do casco. Por exemplo, quando a muralha apresenta uma ruga horizontal 3 cm abaixo da banda coronária é um indicativo que o insulto ocorreu há aproximadamente 6 meses. Já o tecido córneo produzido na sola e no talão alcança a extremidade distal do casco 2 a 3 meses após ter sido produzido. Baseado nesta informação, pode-se considerar que um hematoma de sola é um indício que o problema de manejo ocorreu cerca de 1 a 2 meses atrás.
Com os dados abordados neste artigo, podemos concluir que uma lesão no casco não é só uma lesão e nada mais. Ela é um sinal enviado pelo organismo frente a um insulto e, com atenção e experiência, o casqueador pode fazer bem mais do que apenas tratar a lesão.

fonte: Hoard’s Dairyman, Setembro/ 2000