Desenvolva bons hábitos na criação de bezerros

Desenvolva bons hábitos na criação de bezerros

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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Você já imaginou se tivesse que parar para pensar antes de fazer cada pequena coisa no seu dia-a-dia? Certamente não seria muito produtivo. Pense em tarefas simples como escovar os dentes. Elas são realizadas por puro hábito.

Provavelmente você nem se lembra quando foi que aprendeu a escovar os dentes. É assim com muitas outras atividades do nosso dia-a-dia, o que inclui muitas tarefas de nosso trabalho. No início temos que aprender passo a passo como realizá-las. Se tivermos uma boa instrução, aprendemos a maneira correta de completar cada etapa. A apropriada união das várias etapas faz com que o trabalho seja feito da forma correta. Esta é a forma como os bons hábitos são iniciados.

A partir daí, tudo que precisamos fazer é estabelecer o bom hábito de repetir os procedimentos corretamente por algum tempo para que eles se tornem automáticos. Por exemplo, para que se aprenda os passos necessários para aplicação de iodo no umbigo dos bezerros é preciso saber onde o iodo fica guardado, onde e quando deve ser aplicado e qual a quantidade necessária para fazer efeito. Quando isto se torna hábito, toda vez que se assiste a um parto a reação automática será de buscar o iodo e aplicá-lo corretamente. Isto é um bom hábito na criação de bezerros.

Outro exemplo? Usar o desinfetante adequado, com água na temperatura certa para a completa limpeza dos equipamentos utilizados na alimentação. Um bom hábito.

A maioria de nós ao aprender uma tarefa o faz da forma correta. Com o tempo muitas vezes desviamos do método, transformando bons em maus hábitos. Na maioria das vezes isto é resultado da simplificação dos procedimentos. Nós tentamos acabar o serviço mais rapidamente. Por exemplo, ao invés de trocar a ração dos bezerros recém-nascidos diariamente passamos a trocá-la com menor freqüência até que, sem perceber, estamos fazendo isso somente uma vez por semana. Um mau hábito. A ração pode estragar, diminuindo o consumo e eventualmente intoxicando o animal.

Em outros casos, ainda enquanto estamos aprendendo uma tarefa, sequer ficamos convencidos na real necessidade de alguma(s) etapa(s) do trabalho. Um ou dois passos podem ser eliminados sem aparente alteração no resultado final. Por exemplo: já que eu vou lavar as mamadeiras ou baldes e latões, porque perder tempo em enxaguá-los primeiro? Talvez nunca alguém tenha nos explicado que o leite residual nestes equipamentos diminui drasticamente a capacidade do cloro colocado na água de matar as bactérias. Então simplesmente nós pulamos esta etapa e "ganhamos" tempo. Um mal hábito foi estabelecido e se perde na saúde dos animais.

Muitas vezes um utensílio ou equipamento se quebra e não nos preocupamos com sua reposição. Por exemplo: o misturador de aço inox, utilizado para bater o substituto de leite se quebra. Ao invés de adquirirmos um novo passamos a usar um cabo de vassoura de madeira para fazer a mistura. Um mal hábito foi criado. Cada batida de leite estará contaminada pelos milhões de bactérias que ficarão alojadas nos poros da madeira, por melhor que seja a desinfecção deste "utensílio".

A única maneira de se evitar o estabelecimento destes maus hábitos é o monitoramento. Uma pessoa precisa ter a responsabilidade de observar o desempenho de um trabalho específico. Inicialmente é preciso estabelecer e deixar bem claro qual o procedimento a ser seguido em cada etapa do trabalho. Quando a prática não corresponder aos padrões estabelecidos é preciso tomar atitudes para se livrar dos maus hábitos e reforçar os bons hábitos.

Vamos utilizar o descongelamento de colostro como exemplo. Os passos são (1) remover a vasilha do freezer; (2) encher a panela com água quente (não mais que 60o C); (3) colocar a vasilha de colostro na panela; (4) remover a vasilha quando seu conteúdo derreter e se aquecer até a temperatura de fornecimento (cerca de 37o C).

Isto estabelecido, o que pode dar errado? A panela normalmente utilizada para esta tarefa sumiu; temos que utilizar uma lata que é muito pequena. Isto aumenta o tempo de descongelamento e atrasa o fornecimento do colostro. O termômetro usado para conferir a temperatura da água foi emprestado a outro funcionário que não o devolveu; temos que adivinhar a temperatura. Água muito quente "cozinha" os anticorpos reduzindo a capacidade de imunização do bezerro, que ficará mais suscetível a doenças. O tratador não acompanha o descongelamento e deixa a vasilha na água morna por muito tempo. Isto estimula a multiplicação em muitas vezes do número de bactérias no colostro resultando em diarréias nos bezerros três a quatro dias depois. Todos estes podem ser definidos como maus hábitos.

A pessoa responsável pelo descongelamento de colostro deve certificar-se periodicamente da existência e bom estado da panela e do termômetro. Com freqüência ela deve conferir a temperatura que está sendo utilizada no descongelamento. Eventualmente também é preciso verificar o tempo gasto em cada etapa e amostrar o colostro descongelado para que seja analisado em laboratório para o nível de bactérias. Este monitoramento reforça os bons hábitos detecta desvios em direção aos maus hábitos.

Comentário do autor: a maioria dos problemas ocorridos na criação de bezerros origina-se de maus hábitos. Em alguns casos eles são resultado da pura falta de instrução; em muitos outros se tratam de adaptações que nos permitimos. É preciso (auto) policiamento constante. Mesmo os técnicos ao assistirem algumas propriedades acabam fazendo "vistas grossas" a muitos procedimentos. Muitas vezes só conseguem enxergar os erros quando outro técnico (nem sempre um colega) os aponta, ou quando um surto de diarréias acomete todo o bezerreiro. Por outro lado só se pode "cobrar" um procedimento quando ele foi claramente estabelecido e, preferencialmente foram explicados os motivos de cada etapa para que os responsáveis por sua execução tenham consciência de sua importância. Em outras palavras, trata-se de maneira "cabocla" de estabelecer um programa de qualidade total.

Adaptado de: Leadley, S. e Sodja, P., 2001. Habits: Good and Bad. Calving easy. September, 2001.

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Material escrito por:

José Roberto Peres

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