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Caroço de algodão e desempenho de vacas leiteiras

POR JUNIO CESAR MARTINEZ

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/05/2007

5 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 28/12/2020

O caroço de algodão é comumente usado em rações de vacas leiteiras como fonte de fibra, energia e proteína. O alto teor de óleo do caroço de algodão é um atrativo, tendo em vista os requerimentos em alimentos com alta densidade energética de animais como as vacas de alto desempenho produtivo. A alta concentração de fibra do caroço é desejável para manter os níveis de fibra efetiva na dieta.

Sob certas condições, o caroço de algodão poderá ter elevada concentração de ácidos graxos livres no óleo. Isso ocorre tipicamente após período de chuvas torrenciais e tempestades tropicais que atrasam a colheita.

O aquecimento e alta umidade que se segue após uma tempestade, resultam em hidrolise enzimática dos ácidos graxos dos triglicerídeos, ocasionando elevada concentração de ácidos graxos livres.

Em outras situações, a qualidade do óleo piora durante a estocagem por causa da alta umidade do caroço, que leva ao aquecimento e desarranjo enzimático. Em casos extremos, o calor pode ser suficiente para reduzir a qualidade da proteína também.

Como definido pela Associação Nacional de Produtos de Algodão, o caroço de algodão com mais de 12% de ácidos graxos livres é considerado de baixa qualidade e é tipicamente vendido para alimentação de bovinos.

Estudos científicos mostraram que dietas contendo caroço de algodão com 12% de ácidos graxos livres, não alterou a digestibilidade da fibra, produção de leite ou composição do leite. Quando as dietas continham caroço de algodão com 18% de ácidos graxos livres, fornecido para novilhos Holandeses, observou-se aumento na proporção molar de acetato e propionato, mas a ingestão de nutrientes não foi afetada.

O efeito potencial na alimentação, de dietas contendo caroço de algodão com alta concentração de ácidos graxos livres não tem sido examinado a fundo. De uma maneira geral, suplementação com lipídios com alta concentração de ácidos graxos livres reduz a digestibilidade da fibra e consumo de matéria seca de vacas em lactação. Aumento nos níveis de ácidos graxos livres insaturados no rúmen pode ter efeito tóxico sobre a flora microbiana, resultando em mudanças no padrão de fermentação normal do rúmen.

O óleo do caroço de algodão é 70% na forma insaturada, e a inclusão de alto nível de caroço na dieta de vacas em lactação (>15% da MS) têm sido demonstradas afetar negativamente a digestão da fibra. Um estudo realizado na Universidade da Geórgia, com duração de oito semanas, utilizando-se de 24 vacas Holandesas, testou três fontes de caroço de algodão diferindo quanto aos níveis de ácidos graxos livres. O perfil das dietas pode ser observado na Tabela 1.

Tabela 1. Composição química do caroço de algodão e composição bromatológica das dietas experimentais.
 


AGL = Ácidos Graxos Livres.

O caroço de algodão do tratamento AGL-1 tinha uma aparência normal, acusando ter sido adequadamente estocado. Por outro lado, o caroço do tratamento AGL-2 apresentava-se descolorido, indicando que esse caroço tinha sido estocado com teor de umidade acima do desejado, resultando em aquecimento durante o armazenamento.

Observou-se que as vacas do tratamento AGL-2 apresentaram tendência a maior consumo de matéria seca, quando comparado ao tratamento controle e ao tratamento AGL-1. Outro trabalho de pesquisa, não observou esse comportamento quando o teor de AGL foi de 12. Por outro lado, dois trabalhos conduzidos com novilhos Holandeses, um com teor de AGL de 18% do teor de óleo, outro com banha com 42% de AGL, observaram aumento no consumo de matéria seca. Entretanto, quando se estudou a suplementação com óleo de soja com 50% de AGL, ou sebo com 15% de AGL e até 3,5% da dieta, o consumo dos novilhos não afetado.

A produção de leite foi similar entre os tratamentos. Entretanto, o teor de gordura foi afetado pelo teor de AGL. Os demais componentes do leite e a eficiência de produção foram similares, conforme apresenta a Tabela 2.

Tabela 2. Consumo de matéria seca, produção e composição do leite de vacas alimentadas com caroço de algodão com diferentes níveis de AGL no óleo.


Estes resultados são consistentes com outros estudos encontrados na literatura. Sempre que se eleva o teor de AGL, a produção de leite é similar, com queda nos teores de gordura do leite.

Neste estudo, o pH ruminal foi similar entre os tratamentos estudados. A concentração de ácidos graxos voláteis tendeu a ser maior para a dieta AGL-2 em relação às outras duas. Não houve diferença quanto à proporção molar de acetato e propionato, mas a proporção molar de butirato tendeu a ser maior e a proporção de isobutirato foi maior para o tratamento AGL-2, conforme apresentado na Tabela 3.

Tabela 3. Efeito do aumento do teor de AGL no óleo de caroço de algodão sobre a concentração de ácidos graxos voláteis no rúmen.


Outros estudos mostraram resposta diferente das apresentadas aqui. Resposta cúbica, com valores intermediários para 8 e 18% de AGL e mais baixo para 14,7% de AGL na dieta.

É comum também na literatura, a constatação da diminuição da proporção de butirato em dietas contendo altas concentrações de AGL. Isso pode ser devido a uma redução na utilização desses ácidos graxos de cadeia ramificada para síntese de aminoácidos correspondentes, uma vez que a concentração de amônia era similar entre os tratamentos.

Sempre que se aumenta a concentração de AGL no caroço de algodão, aumenta-se o teor de ureia no leite, sugerindo aumento na degradação da proteína, promovida pelo caroço.

O caroço de algodão contém 70% de seu óleo na forma insaturada, e este é completamente hidrolisado a ácido graxo no rúmen, mas, quando o caroço de algodão é processado, e o óleo é rapidamente disponível, a fermentação ruminal é drasticamente alterada e a gordura do leite deprimida com mais intensidade.

Aumento da gordura dietética, geralmente tem diminuído a síntese de novo de ácidos graxos na glândula mamária, uma vez que os ácidos graxos provenientes da suplementação são diretamente incorporados na gordura do leite.

Considerações finais

O caroço de algodão geralmente tem preço competitivo em várias regiões do Brasil, sendo grandemente utilizado nas granjas leiteiras, proporcionando resultados satisfatórios em termos de custo de produção e desempenho dos animais.

Entretanto, o fornecimento de caroço de algodão com alto teor de ácidos graxos livres causa redução no teor de gordura do leite. Caso o caroço tenha sido estocado incorretamente, sofrendo aquecimento, o caroço também vai aumentar a concentração de isobutirato no rúmen. De uma maneira geral, óleos com alto grau de insaturação, causam distúrbios na fermentação ruminal e digestibilidade da fibra, levando a baixa produção de acetato e síntese de gordura do leite.

Fonte: Journal of Dairy Science. 2007. 90:2329-2334.

JUNIO CESAR MARTINEZ

Doutor em Ciência Animal e Pastagens (ESALQ), Pós-Doutor pela UNESP e Universidade da California-EUA. Professor da UNEMAT.

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ARAGAO

FORTALEZA - CEARÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/10/2015

Estou fazendo uma experiência com caroço de algodão no meu rebanho,minhas vacas são todas na faixa de 15 a 20 litros diários, usava milho e soja mas em função dos altos   preços destes produtos fui obrigado a tentar outra alternativa, estou fornecendo 4 quilos diários para cada animal junto com silagem de sorgo,e tive uma queda diária de aproximadamente 180 litros dia, que devo fazer para melhorar estes indices.?
JOSE DOS SANTOS MARTINS

MORADA NOVA - CEARÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 01/08/2012

Felicito-me em estar vislumbrando de mais uma quebra de paradigmas em relação oa caroço de algodão para vacas de leite, como suplemento alimentar. Quando a realidade anterior era muito duvidosa,mas doravante os resultados serão outros: observando a qualidade e o condicionamento do produto, haja vista a escassez de suplemento alimentar e mais na Região Nordeste e em outra provocada pelo fator climático. espero trocar mais informações e obte-la com sua presteza.

mui grato

Ze Martins
HELVECIO OLIVEIRA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 21/05/2007

Parabéns pelo artigo, Martinez!

Chamo a atenção para o cuidado que deve ser dispensado, nas situações de irregularides de estocagens comentadas, quanto à presença de fungos.

Ao comprar subprodutos nestas condições, os produtores devem estar sempre atentos ao "mofo", pois além de provocarem a morte, podem também provocar lesões subclínicas menores abaixando os índices de produção.

Atenciosamente,
Helvécio Oliveira
JOSE OSWALDO JUNQUEIRA

TAUBATÉ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/05/2007

Atualmente utilizo caroço, trabalho com pastejo rotacionado e tenho obtido bons resultados, tanto na produção quanto na reprodução.
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