A perda de lucratividade em fazendas de leite pode estar escondida em inúmeras pequenas ineficiências, muitas delas não sendo notadas por quem administra a propriedade. O Prof. Marvin Hoekema, da Universidade da Flórida (EUA), vem realizando um interessante trabalho (consultar http://dps.ufl.edu/DBAP/) com o objetivo de comparar rsultados econômicos entre fazendas e detectar estas ineficiências. O questionamento dele é que o tempo dedicado a identificar estes drenos de lucratividade é muito menor do que o ideal, mesmo nas boas fazendas.
Entre as principais ineficiências, está a elevada taxa de descarte nas fazendas analisadas, variando de 30 a 40% ao ano. Isto significa que, considerando um rebanho médio de 100 vacas adultas, 30 a 40 são descartadas a cada ano. Ou, de outra forma, cada vaca permanece em média 2,5 a 3,3 anos na fazenda, produzindo leite.
Esta alta taxa de descarte é muito comum em propriedades que exploram a alta produção por vaca, especialmente em regiões mais hostis à produção de leite, com calor e umidade constantes. Este descarte é basicamente involuntário, ou seja, forçado em função de motivos alheios à vontade do produtor. Como exemplos, tem-se mastite, problemas de casco e infertilidade, sendo o destino destas vacas invariavelmente o gancho. Poucas fazendas vendem vacas para outros produtores, indo até mais além: há fazendas que, mesmo criando novilhas de reposição, precisam adquirir animais no mercado para manter o rebanho adulto constante, caso contrário diminuem de tamanho.
Nas fazendas brasileiras de gado especializado, a taxa de descarte anual tem girado em torno de 15 a 25% ao ano. Esta diferença se dá basicamente porque por aqui os produtores resistem mais em descartar os animais, pois adquirir vacas no mercado no mesmo padrão das que saem pode ser caro e trabalhoso, além do que historicamente o preço da arroba destas vacas não tem sido atrativo em comparação ao preço de reposição, fazendo com que se dê mais chances às vacas-problema.
Embora não haja uma taxa de descarte ideal, é possível estimar o impacto da alta taxa de descarte na rentabilidade da fazenda. Veja a tabela 1 abaixo. O período de reposição é a média de tempo que uma vaca permanece no rebanho antes de ser descartada, sendo o inverso da taxa de descarte (100/25, por exemplo).

A tabela 1 mostra que, à medida que o descarte aumenta, uma maior porcentagem da receita gerada por cada vaca é utilizada para pagar esta mesma vaca, ou sua reposição. Veja que, com 25% de descarte, cerca de 10%da receita bruta é utilizada para a reposição do animal, contra 18% quando o descarte sobe para 45% ao ano. Isto ocorre basicamente porque, quanto maior o descarte, menor o tempo que a vaca tem para se pagar.
Há outras implicações. As vacas mais jovens são as que possuem maior potencial genético e que carregam menos problemas de saúde no rebanho, sendo mais eficientes e podendo, com isto, gerar melhor resultado econômico. Tirá-las prematuramente do rebanho por motivos forçados pode comprometer a capacidade de geração de lucro.
Há outra forma de avaliar os efeitos negativos decorrentes das altas taxas de descarte. Quanto maior o descarte, menor a disponibilidade de animais para venda e/ou menor a taxa de expansão do rebanho. A tabela 2 mostra uma simulação dos efeitos da taxa de descarte de matrizes no potencial de crescimento do rebanho, considerando fixos idade ao primeiro parto, mortalidade de bezerras e intervalo entre partos. Note que sob taxas de descarte próximas a 35% ao ano, o rebanho fica estagnado, ou seja, as novilhas são produzidas na medida certa para repor vacas descartadas.

Por fim, vale a pena notar que fazendas com alta taxa de descarte involuntário certamente apresentam alta incidência de problemas variados, como mastite, infertilidade, problemas de casco, problemas metabólicos, aborto e outros mais. Além do descarte em si, estes problemas por si só geram custos às fazendas. Com tudo isto em mente, podemos afirmar que o monitoramento constante da taxa de descarte e das razões para o descarte de vacas é algo de suma importância, podendo sinalizar a atuação em áreas que estão comprometendo a rentabilidade da propriedade.
Ainda, um esclarecimento: caso a fazenda tenha nível de produção por vaca reduzido, rebanho heterogêneo e animais de genética pouco apurada, é provável que a incidência de problemas que levam ao descarte é menor e que a fazenda precise lançar mão do descarte voluntário para apurar o rebanho e melhorar a rentabilidade. É uma outra história.
Para mais informações, consulte a Seção Técnica de Sanidade e leia o artigo "Monitore o descarte de vacas em sua propriedade"
fonte: Hoard’s Dairyman, june 2000 e Marcelo P. Carvalho, MilkPoint